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70º Festival de Berlim: Berlim Mata-me Por Favor!

O épico ‘Berlin Alexanderplatz’, de Burhan Qurbani, é mais um dos melhores filmes até agora da competição da Berlinale 70. Não é muito diferente da versão televisiva de Rainer Werner Fassbinder da década de 80. Ainda bem…

Esta versão de ‘Berlin Alexanderplatz’, do alemão de origem afegã Burhan Qurbani tem várias similitudes com a versão ‘fassebinderiana’, (se me é permitido o adjectivo!) de 1980, a adaptação da famosa obra de Alfred Döblin (1878-1950): um romance de referência do modernismo alemão e que curiosamente descreve com uma certa visão de futuro a cidade de Berlim e os berlinenses, desde o início do século XX à actualidade e tendo como título a icónica praça, transformada agora num hiper-centro comercial ao ar livre. Se a obra original se passava entre as duas grandes guerras do século XX e a influência social que o modernismo teve na evolução da cidade, é também indirectamente tratada nesta excelente versão épica e cinematográfica de Burhan Qurbani, que não fica nada atrás de Reiner Werner Fassebinder (1945-1982), embora tenhamos muitas saudades de actores como Günter Lamprecht, Hanna Schygulla, Barbara Sukowa ou Gottfried John.

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‘Berlin Alexanderplatz’-70ª Berlinale ©ARTE

Qurbani faz um primoroso e sombrio mergulho no universo underground e alternativo berlinense, mostrando novamente o lado mais escuro da alma humana, combinado e actualizado com as questões dos refugiados, do tráfico e criminalidade na actualidade. Principalmente ainda porque este ‘Berlin Alexanderplatz’, possui imagens e atmosferas autênticas de uma cidade de exílio de muitos refugiados, inclusive do seu protagonista Francis (o extraordinário actor luso-angolano Welket Bungué,), que têm de desembaraçar-se de qualquer maneira, para sobreviver.

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TRAILER DE ‘BERLIN ALEXANDERPLATZ’

Francis é um dos muitos refugiados vindos da África Ocidental, que arriscou a vida na travessia do Mediterrâneo e parece determinado em procurar uma vida melhor. No entanto, acaba por ficar na Berlim, onde um apátrida sem licença de residência e trabalho é tratado com tanta impiedade, quanto Franz Biberkopf, o trágico personagem principal do romance clássico de Döblin. No início Francis até resiste a uma oferta para traficar drogas no parque Hasenheide, mas rapidamente fica sob a influência de Reinhold (Albrecht Schuch), um amigo alemão, neurótico, viciado em sexo e anfetaminas, que o aceita, para partilhar casa e os vícios. Francis conhece Eva (Annabelle Mandeng), a dona de um clube noturno e, após várias experiências dramáticas na sua vida sempre nos limites da lei, envolve-se com Mieze (Jella Haase), uma escort-girl, com quem pela primeira vez, encontra um pouco de paz e felicidade. Só que esta situação parece incomodar a mente perturbada e invejosa de Reinhold, que faz tudo para aproximar-se novamente de Francis e complicar-lhe a vida.

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‘Berlin Alexanderplatz’-70ª Berlinale ©ARTE

Com um material literário tão bom, esta versão contemporânea da ‘Berlin Alexanderplatz’, embora diferente no que diz respeito ao flashback inicial da obra, vai ainda mais longe no drama, acrescentado-lhe suspense, acção e movimento, ao mesmo tempo que trata as personagens e a sociedade berlinense com um tom de desejo, perversão e farsa, um pouco como em Babylon Berlin, um das melhores séries de televisão, que passou recentemente na RTP. Na verdade e em capítulos este regresso à obra de Döblin e Fassbinder, com ‘Berlin Alexanderplatz’, de Burhan Qurbani, apesar do seu formato algo televisivo, valeu a pena, mesmo começando às 8h15 da manhã, com um filme que dura mais de 3 horas.

JVM (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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