©Schramm Film

70º Festival de Berlim | O Abraço de ‘Undine’

O mito de ‘Undine’ uma das figuras fantásticas do romantismo alemão é recriada na Berlim da actualidade no novo filme do realizador Christian Petzold, num conto moderno sobre uma mulher desprezada e trocada por outra.

O realizador alemão Christian Petzold (Em Trânsito) recriou no seu novo filme ‘Undine’, o famoso mito do misterioso espírito da água (Undina, Ondina ou Mulher da Água, como lhe quiserem chamar) através de um conto de fadas moderno, passado num mundo frio e desencantado, onde não parece haver muito espaço para a magia do amor romântico. E ao mesmo tempo procura dar-nos a conhecer um pouco mais sobre a turbulenta história da cidade de Berlim. Aliás a cidade é localização de vários filmes a concurso na Berlinale 70. Undine (Paula Beer), não parece de todo uma ninfa, pelo contrário é uma bela historiadora que trabalha como guia no actual Museu da Cidade de Berlim. A rapariga sabe tudo sobre o Forum Humboldt e sobre a história da capital alemã. Indiferente à sua elegante beleza — e com um talento especial para escolher o seu guarda-roupa, dentro e fora do trabalho — Undine comunica na perfeição os seus conhecimentos sobre o urbanismo e evolução da cidade de Berlim, construída sobre um pântano no século XIII — O nome Berlin, com ’n’ em alemão vem de uma palavra de origem eslava que era usada para denominar terras pantanosas — e que várias vezes ao longo da sua história, foi dividida, destruída e reconstruída. Apesar de todo o seu profissionalismo, o olhar de Undine parece por vezes vaguear para fora do museu para esplanada em frente — do café do Stadtmuseum Berlin — para ver se está lá o seu namorado Johannes (Jacob Matschenz). Contudo este parece disposto a terminar com a relação, deixando-a, e fazendo com que o mundo de Undine entre em colapso e desilusão.

Lê Também:
70º Festival de Berlim: Berlim Mata-me Por Favor!

TRAILER DE ‘UNDINE’

No entanto, Undine vai desafiar seu papel de mulher impotente e desprezada e, apaixona-se por Christoph (Franz Rogowski, repetindo-se o par romântico de Em Trânsito) um gentil mergulhador que trabalha num mundo submerso de um reservatório na zona industrial da Alemanha. Para depois arrastar a sua paixão, até aos limites do amor eterno. Petzold recria esta lenda através da sua visão muito própria, na qual os gestos diários do quotidiano de pessoas comuns, são combinados com hiper-realismo fantástico e um romantismo contido. ‘Undine’ é uma bela história de amor, um conto de vida ou morte, esplendidamente bem filmado, sem excessos e sem recurso a sofisticados efeitos especiais.

JVM (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *