71º Festival de Cannes: Os Porquês de uma Selecção Oficial 2018

O 71º Festival de Cannes vai realizar-se de 8 a 19 de Maio e, abre com “Todos lo Saben”, de Ashgar Farhadi, protagonizado pelo casal Penélope Cruz e Javier Bardem, aliás como já estava anunciado. Jafar Panahi, Godard, Spike Lee, Matteo Garrone e Jia Zhang-ke vão estar na Competição Oficial 2018.

71º Festival de Cannes
O filme de abertura é “Todos lo Saben”, de Ashgar Farhadi, com Penélope Cruz e Javier Bardem

A provar que o cinema é cada vez mais uma indústria global, já estava anunciado que “Todos lo Saben”, do iraniano Asghar Farhadi, ‘thriller à espanhola’, com Penélope Cruz e Javier Bardem, iria abrir a Competição de Cannes 71. Hoje foi anunciada a Selecção Oficial, — inclui como é habitual as secções, Competição Oficial, Un Certain Regard, Fora de Competição, Sessões Especiais, Sessões da Meia-Noite, as outras paralelas Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores fica para daqui a dias — e para já demonstra alguma surpresa, relativamente às possibilidades de programação  de  filmes e cineastas que estão nesta temporada, na fase final da suas novas produções e que não foram selecionados. No entanto, o presidente Pierre Lescure e o director artístico Thierry Frémaux, revelaram que mais filmes podem entretanto ser acrescentados nas secções anunciadas, sobretudo nas de fora da competição e na competição nada parece estar fechado. Mesmo assim vão estar na mais importante Competição, os novos filmes do iraniano Jafar Panai, do franco-belga Jean-Luc Godard, do norte-americano Spike Lee, do chinês Jai Zhang-ke, do italiano Matteo Garrone e do polaco Pawel Pawlikowski, entre outros.

FADO FILMES EM “O GRANDE CÍRCULO MÍSTICO”

De notar novamente a ausência de filmes portugueses — inclusive na Selecção Oficial de Curtas-Metragens anunciada ontem — nas competições e nas outras mostras mais importantes do Festival de Cannes, destacando-se apenas a produção luso-brasileira “O Grande Círculo Místico”, uma versão do musical de Chico Buarque e Edu Lobo, realizada pelo veterano Cácá Diegues, e com participação da Fado Filmes de Luis Galvão Teles. “O Grande Círculo Místico”, foi criado originalmente para o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, — dirigido então pelo bailarino e coreógrafo português Carlos Trincheiras (1937-1993) — e Naum Alves de Souza escreveu guião a partir o poema homónimo do parnasianista/modernista Jorge de Lima: a obra “A Túnica Inconsútil”, 1938. O espectáculo foi preparado durante todo o ano de 1982 e estreou em 17 de março de 1983 combinando música, ballet, ópera, circo, teatro e poesia. O sucesso foi tal que originou uma tournée de dois anos pelo Brasil, assistida por mais de 200 mil pessoas, em quase 200 apresentações, lotando o Maracanãzinho e culminado depois também em Portugal, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que aplaudiu o então director português. O musical — e o filme ao que consta — conta a história do grande amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga da família austríaca proprietária do Grande Circo Knieps, que vagava pelo mundo nas primeiras décadas do século.

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UMA SELECÇÃO SURPREENDENTE E ARRISCADA

O diretor artístico do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, explicou na conferência de imprensa em Paris, realizada há poucas horas e que assistimos live-on-streaming, o risco e a surpresa desta selecção: a sua equipa de programação desta vez procurou selecionar obras de realizadores menos conhecidos e, em alguns casos, até inéditos. As ausências evidentes incluem uma série de “suspeitos do costume”, como os consagrados como Nuri Bilge Ceylan ou Mike Leigh, e que Cannes costuma convidar para apresentarem cada novo filme. Faltam ainda alguns filmes de cineastas esperado como Naomi Kawase, num alinhamento de programação que é forte na sua componente asiática: os iranianos Jafar Panahi com “Three Faces” — o director artístico desafiou, o governo iraniano para libertar o realizador e o deixar vir apresentar o filme a Cannes —   e Asghar Farhadi (“Todos lo saben”), que vai fazer a abertura do Festival, num filme que para além do casal de estrelas do eixo ‘ibérico-hollywodesco’, foi todo rodado em Espanha e em castelhano.

71º Festival de Cannes
Thierry Frémaux, explicou-se na conferência de imprensa realizada em Paris.

Os novos filmes de Spike Lee (“BlacKkKlansman”), Jean-Luc Godard (“O Livro de Imagens”) e do diretor polaco Pawel Pawlikowski (“Cold War”) vencedor do Oscar por “Ida”, juntam-se ao já anunciado “Solo: Uma História de Star Wars”, de Ron Howard (Fora da Competição), neste Festival de Cannes de 2018, que tem uma programação consideravelmente menos carregada de filmes norte-americanos, do que em edições anteriores. De facto, além de Spike Lee, produções  norte-americana são poucas, inesperadas e distantes entre si. O realizador de “Follows”, David Robert Mitchell, apresenta um filme de suspense de 140 minutos, intitulado “Under the Silver Lake”; “Yomeddine”, de origem egípcia, foi dirigido pelo praticamente desconhecido A.B. Shawky,  para uma pós-graduação em cinema da Tisch School of the Arts, da New York University; o realizador brasileiro Joe Penna apresenta nas Sessões da Meia-Noite, um filme em língua inglesa, intitulado “Arctic”, — que consta pode ser uma excelente revelação para todos — pois ele próprio, reside em Los Angeles.

POLÉMICAS: #METOO, VENEZA E NETFLIX

A competição oficial inclui apenas três mulheres-cineastas (Eva Husson, Nadine Labaki e Alice Rohrwacher), o que levou Terry Frémaux a insistir sua posição de que “os filmes selecionados foram escolhidos pelas suas próprias qualidades intrínsecas”, e não o género dos seus realizadores. Reconhecendo a importância dos movimentos #MeToo e #TimesUp, rematou relativamente a este tema: “O mundo nunca mais será o mesmo… e continuaremos a questionar as nossas próprias práticas sobre a igualdade de género” nos salários e na representação do júri, mas “nunca teremos uma seleção com uma discriminação positiva para as mulheres”, conclui.

Therry Frémaux rebateu igualmente as críticas de que o Festival de Cannes pode estar a perder seu poder de atrair filmes de alto nível, — que parecem estar a fugir para a Mostra de Veneza ou para o Festival de Toronto — sugerindo que os premiados diretores Xavier Dolan e Jacques Audiard recusaram o convite formal para estar em Cannes, simplesmente porque estão a finalizar os seus respectivos filmes, “A Morte e a Vida de John F. Donovan” e “The Sisters Brothers.” Admitiu ainda que as produtoras norte-americanas podem estar nervosas sobre como a recepção de um filme em Cannes pode  ter impacto nos prémios da industria e nas oportunidades de bilheteira, admitindo: “Quando se está numa estratégia de lançamento tardio (ou de outono), naturalmente Cannes pode não ser o lugar ideal para exibir um filme”, dando de certo modo razão à questão da importância, cada vez maior dos festivais acima referidos.

Um olhar aprofundado sobre selecção, revela ainda que a maioria dos filmes selecionados — aliás como em anos anteriores — já têm distribuição garantida em França, confirmando a ideia de que esta se adequa bastante bem às estreias que se verificam nas salas francesas, logo a seguir ao festival. Isto quer dizer que os distribuidores e exibidores francesas aproveitam o Festival de Cannes para publicitar as suas estreias; mas isto também vem revelar a enorme influência que as distribuidoras francesas exercem sobre a seleção oficial, mais evidente este ano pela exclusão da forte concorrência de filmes da Netflix. Frémaux explicou que ele próprio assumiu pessoalmente a necessidade de conversar com dois dos realizadores com filmes da Netflix: Reed Hastings e Ted Sarandos, para não tirarem seus filmes do festival. Ainda assim, sob pressão da indústria francesa — onde a lei insiste numa janela de três anos entre lançamento em sala e em streaming — o Festival de Cannes foi forçado a excluí-los por causa da concorrência, a menos que a Netflix concordasse em vender direitos para sala a um distribuidor francês: “Fizemos ofertas em relação a dois filmes de propriedade da Netflix”, disse Frémaux, “e havia candidatos para a distribuição em sala desses filmes”, incluindo a cópia restaurada de “The Other Side of the Wind” (“O Outro Lado do Vento”, 1970), o filme incompleto de Orson Welles, que Frémaux gostaria muito ter na programação. Questionado sobre se Lars von Trier, cujo “The House That Jack Built” seria um provável candidato à seleção oficial, se ainda é persona non grata do festival, Frémaux respondeu enigmaticamente: “Responderemos dentro de poucos dias”.

Para já são apenas 17 filmes em competição,— que aparentemente deixa a porta aberta para outros competidores — talvez a menor selecção das últimas décadas de festival. Recorde-se que “O Quadrado”, de Ruben Ostlund, Palma de Ouro 2017, foi também uma entrada tardia no programa do ano passado. Frémaux deu a entender que gostariam de ter convidado Terry Gilliam com o seu “The Man Who Killed Don Quixote”, que está atualmente envolvido numa disputa judicial sobre os direitos, — com o produtor português Paulo Branco — e disse ainda que no seio da equipa de programadores continua-se a discutir a presença de “Loro”, de Paulo Sorrentino, um filme em duas partes, cuja a primeira estreia em Itália, antes do Festival de Cannes 2018.

VÊ AQUI A SELECÇÃO OFICIAL 2018

Curiosamente previsto para começar exactamente um mês depois do evento inaugural do Cannes Series, — “When Heroes Fly” é o primeiro vencedor da Palma de Néon, anunciada igualmente hoje —  o festival vai decorrer de 8 a 19 de maio, com o júri oficial presidido pela actriz Cate Blanchett. Os programas paralelos da Quinzena dos Realizadores, da Semana da Crítica e agora do ACID — este último, mais alternativo, organizado pela L’Association du cinéma indépendant pour sa diffusion, tem ganho relevância nos últimos anos —  ocorrerão durante as mesmas datas, mas tecnicamente não se enquadram na Seleção Oficial. Como tal, a sua programação será anunciada para breve e até ao final de abril. Aqui talvez haja boas notícias para os filmes portugueses! 

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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