Mektoub, My Love: Intermezzo

72º Festival de Cannes | ‘Mektoub, My Love: Intermezzo’: o filme-choque

Eis que chegou também à competição o momento Abdellatif Kechiche com o muito aguardo ‘Mektoub, My Love: Intermezzo’, a continuação de ‘Mektoub, My Love: Canto Primeiro’, estreado no Festival de Veneza 2018.

A reação na sessão de imprensa num filme visto pela maioria da crítica às 22h de ontem e que dura quase 4 horas, não podia ser mais fria: não houve palmas, nem apupos e houve uma saída de fininho, quando muitos já tinham saído antes do final. Este regresso do realizador franco-tunisino Abdellatif Kechiche à competição de Cannes, seis anos depois da polémica Palma de Ouro com ‘A Vida d’Adèle’ (2013), não deixa de ser estranho. A cópia final chegou no limite para a exibição e ‘Mektoub, My Love: Intermezzo’ é o filme-do-meio de uma trilogia, que vai continuar e só pode ser entendida por quem já viu o primeiro filme. Eu próprio fui ver a minha resenha de ‘Mektoub, My Love: Canto Primeiro’. E como vai ser o filme avaliado pelos jurados, que vão apreciar filmes finalizados e como vão eles fazer a ligação, já que ela existe logo no início entre os dois filmes? Bom problema deles…só que mais um vez Abdellatif Kechiche, em ‘Mektoub, My Love: Intermezzo’ voltou a ser radical e colocar aqui o ‘filme-choque’, fechando-nos praticamente três horas numa discoteca, para assistirmos a cenas de engate e dança (ou pole dance), expondo drasticamente os ‘rabinhos das meninas’ (…e vou fugir às apreciações!!!) e mais uma vertiginosa cena de sexo explícito dentro da casa-de-banho. As excepções e ligações ao filme anterior estão num prólogo quase momentâneo com Amin (Shaïn Boumedine), aspirante a argumentista e fotógrafo, — uma espécie de alter-ego do realizador e o ‘giraço’ que todas desejam — que desaparecia com a ‘betinha’ Charlotte (Alexia Chardard) da praia; agora vê-mos Amin a fotografar a Charlotte nua, algo que liga efectivamente com o filme anterior, assim como, o final deste, pode ser o principio do próximo. Isto é claro? Bom, mas convém ver ou pelo menos ter memória do primeiro filme ou ter atenção às conversas da praia, no início que contextualizam todas as situações, que se desenvolvem em ‘Mektoub, My Love: Intermezzo’.

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À pequena praia de Sète, uma vila da Occitânia, virada para o Mediterrâneo, chega Marie (Marie Bernard), uma ‘tenrinha loirinha’ parisiense. Enquanto as outras belas ‘morenas’ do sol, vão explicando a vida ali e as ligações entre todos, Tony (Salim Kechiouche) exibe-se com uma imitação de Aldo Maccione em ‘Le bourreau des coeurs’ (1983), ou o ‘Arranca Corações’, se não me engano; Ophélie (Ophélie Bau) já a grande figura do filme anterior, pensa que está grávida de Tony, e quer fazer um aborto. Faltam apenas três semanas para o seu casamento com Clément, um militar que está numa missão de paz no Iraque; Céline (Lou Luttiau) continua indecisa se gosta mais de rapazes ou raparigas, mas Amin, o seu ex-namorado, continua a ser o homem da sua vida, sem esta se importar que ele se vá entretendo com as outras; Amin, que continua muito na dele, a observar mais mais do que a participar nas loucuras, vê-se seduzido pela ‘saídita’ Marie de apenas 18 anos, que se acha mesmo parecida com Emmanuelle Béart ou Romy Schneider…o ‘certinho’ Amin, conta a Marie que está a trabalhar num argumento para um filme, uma história protagonizada por robôs programados para fazerem perdurar uma espécie de amor incondicional; entretanto Ophélie, mesmo comprometida com o outro não deixa de fazer das suas, e pede ajuda a Amin, para poder fazer o aborto. É neste turbilhão de relações cruzadas, muitos ‘shots’ e bebida, conversas anódinas sobre ‘rabos’ e preferências sexuais por homens ou mulheres e ao som que vai desde ‘Enough is Enough’, de Donna Summer e Barbra Streisand ou Voulezvous dos Abba, muita música electrónica e transe, que se desenvolve as quase 4 horas deste Intermezzo, incluindo uma boa meia-hora de sexo oral. Se isto é o Intermezzo, imaginem o que vai ser o Grand Final? O Verão de 1994 está a acabar, venha daí o verão de 1995, esperemos claro é que o realizador Abdellatif Kechiche se explique um pouco mais.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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