Shepherd in a Sheepskin Vest (Pormenor da capa de álbum)

Bill Callahan, Shepherd in a Sheepskin Vest | em análise

O ciclo da vida e da morte, a quietude doméstica e o papel do músico juntam-se em Shepherd in a Sheepskin Vest para desenhar um retrato de Bill Callahan em 2019.

Será a minha imaginação a criar relações onde ninguém as vê, mas ao olhar para a capa de Shepherd in a Sheepskin Vest, com a cabeça do artista reclinada ao centro, a dividir o fundo nos vários campos surreais tecidos pela poesia do álbum, vem-me à mente a pintura de Marc Chagall. Ovelhas a sair do peito do pastor (espelhando as crianças de “Watch Me Get Married”) relembram-me o surrealismo rústico do exilado russo de ascendência judaica, ao mesmo tempo que, entrando no ouvido do músico, aludem à Arcádia e à poesia pastoril. A grande nuvem no canto superior direito leva-me até aos amantes em perene voo de enlevo, só para me fazer reparar, regressando à capa, que para lá se trepa pelo “hill with a view of reality” que é o amor – qual Ícaro de asas de cera ou foca montada numa das bicicletas do E.T. Lá em baixo, ondulam mutáveis, sempre em fluxo, as águas primordiais do oceano, origem da vida e ameaça de morte, cujo horizonte contemplamos, cada qual a reboque do “tugboat” que lhe foi destinado para a travessia da existência. O oceano onde reencontramos, se é que alguma vez lá esteve, o azul imenso com que Chagall pintava este mundo e o outro.

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Pode-se dizer que Bill Callahan passou a vida e a longa carreira, primeiro como Smog e depois sob o próprio nome, à procura da sua voz. Investigou as infinitas modulações e matizes do minimalismo musical, sendo a simplicidade o mínimo denominador comum entre o noise pop lo-fi e a instrumentação heterodoxa dos inícios de Smog na década de 90 e a sofisticada cantautoria folk e country do Bill Callahan de agora. Abandonando aquele balido, algures entre o emo e o slowcore, enterrado na mistura, reconciliou-se com o canto no seu natural barítono e descobriu a subtileza das inflexões emotivas no pano de fundo da impassibilidade narrativa. Estabilizou as fontes de imagens e metáforas até se tornarem a marca da sua idiossincrasia. E aperfeiçoou um fluxo de consciência que encontra o ápice na veloz, flexível e articulada intersecção de planos presente no lirismo de Shepherd in a Sheepskin Vest.

A sensação de que só agora Callahan finalmente repousou caracteriza o novo álbum. Um repouso que não é paralisia, mas tranquilidade na fluidez da existência (“life is change/ even death is not stable”), conduz aqui a música e nela se exprime. Bill Callahan foi sempre um camaleão, não se filiando em género algum mas lidando, sem preconceitos e cheio de curiosidade, com todos os géneros. Tendo começado, nos seus tempos mais experimentais, por uma colagem instável e incongruente de elementos pilhados de todo o lado, ao assimilar a riqueza de possibilidades da tradição, acabou por conquistar uma voz própria e criar diferentes soluções de coesão e identidade sonora para cada álbum. Mas nunca como em Shepherd in a Sheepskin Vest foi tão exímio e interiorizado este metamorfismo, onde subtis identidades afloram por segundos só para desaparecer logo a seguir, qual Mystique a reagir a uma imprevista mudança de planos ou circunstâncias.

Lampejos ora de Nick Cave, ora de Nick Drake, ora de um indefinível e atemporal registo country vibram-lhe no timbre, transparecendo nas melodias e nas histórias, para no final soar sempre e só a Bill Callahan. O violino e a harmónica country preguiçosos de “Black Dog on the Beach” avançam, sem solução de continuidade, pelo bar adentro de “Camels”, onde um blues levemente psicadélico entra em dissonante frenesim para provar que “I take notes agressively”. E afugentam este último para o universo pastoril melancólico de “Circles”, criado por guitarras folk, dedilhadas ao som de acentos de flauta e sintetizador. Esta fluência e mobilidade das águas do rio à superfície (usando uma imagem tão querida de Callahan) é guiada, impercetivel e seguramente, por um leito perpétuo que se dirige inabalável em direcção ao oceano. Prodígio da maturidade, é uma confiança de fundo que confere a Shepherd in a Sheepskin Vest uma forte identidade e coesão, no seio da escorreita e escorregadia instrumentação ao pronto serviço dos voláteis humores da voz, e confirma que “the center holds together”.

BILL CALLAHAN | “WATCH ME GET MARRIED”

De onde se repousa olha-se para trás, enfrenta-se o passado e a sua procura angustiada. “The past has always lied to me/ The past never gave me anything but the blues/ Oh, what’s a hot poor boy to do?/ Empty the nest for the cuckoos/ And wander, wander, wander”, canta Callahan em “Young Icarus”, usando um desses arquétipos culturais que constituem a “coluna da existência”. Mas esta moderna versão do imprudente que, ignorando o conselho do pai e incorrendo na insolência, almejou abraçar o sol padece do mal maior que é não ter sequer um Dédalo que o admoeste:

Não tinha um mentor para quem olhar e a quem ouvir. Julgo que deve ser por isso que vivi o começo dos 20 anos de forma tramada, a colidir por todo o lado e a tentar alcançar as respostas por mim mesmo, porque ninguém me tinha dito o que é alguém gostar realmente de nós, como nos tratam quando gostam realmente de nós. Ninguém me ilustrou isso. Quando falo com outras pessoas, elas falam dos conselhos que os pais lhes deram. Sinto que tive basicamente de me fazer a mim próprio por meio de tentativa e erro. (The Quietus)

A existência não permanece contudo determinada pelo passado. Há, antes de mais, a limpidez do amanhecer que permite recomeçar – a manhã é madrinha, dando novamente o ser a tudo. Depois, a inexorabilidade de uma demanda pessoal, que atira para diante e da qual ninguém se pode demitir: “I can’t stop the quest/ I mean, who can stop the quest?” Nela, aprender com a antiga errância é possível e ser para os outros o pai que não se teve, dar-lhes os conselhos que não se receberam: “Don’t let yourself get so blue/ That you make rash decisions for two/ Else you’ll harm yourself and another/ Who mistook you for a guide/ When you’re still a rogue tide”. Por fim, não é o fado, mas o destino, “swerving in the road in front of me”, que conduz a vida levando-a até ao porto seguro: “Nunca acreditara realmente na existência ‘daquela pessoa’, julgava que encontrávamos alguém que parecia ser bastante bom e tentava-se fazer a coisa funcionar. Mas agora acredito nisso. Não é tudo canja, mas sente-se que é suposto ser, e far-se-á de tudo para que continue, porque se precisa disso” (Pitchfork).

Bill Callahan disse recentemente que não conhecia muitos álbuns sobre o casamento e a paternidade (na verdade, este ano não têm faltado histórias de beatitude doméstica, com Remind Me TomorrowFather of the Bride e, até certo ponto, American Football 3): “Só queria provar que a vida não termina quando assentamos”. O retrato da vida caseira em Shepherd in a Sheepskin Vest, apesar do cenário campestre povoado de ovelhas e do seu pastor, não elimina as tensões – os leões, lobos e bestas – que se entrelaçam nos gestos diários de que é feita a paz familiar. O ideal, sempre para lá do horizonte, enche o repouso de movimento, atraindo a si, lá da lonjura onde, difícil de perscrutar, se encontra. “I know it’s a distance from here to the stars” canta o poeta à sua amada, enquanto se dá conta de que “God’s face on the water/ though plain to see/ It’s still hard to read”. Mas qualquer coisa de encontrado e presente pacifica a procura e dá-lhe uma direcção, sem eliminar a aventura da contínua descoberta: “True love is not magic/ it’s certainty/ And what comes after certainty?/ A world of mystery”.

SHEPHERD IN A SHEEPSKIN VEST | “THE BALLAD OF THE HULK”

O mistério é também, sobretudo, o do ciclo da vida e da morte. “Nascer e morrer pareceram-me, de várias maneiras, muito semelhantes”, reflectiu Callahan a propósito do nascimento do filho e da morte da mãe, acontecimentos que se tinham dado no espaço de apenas cinco anos e os quais acompanhara tão de perto: “é o começo e o fim também”. Há neste álbum a presença obsidiante, embora não inédita, dos momentos fundacionais da existência humana, que lhe marcam a história e a demarcam do cosmos, e de que o uso de imagens bíblicas retiradas principalmente dos livros do Génesis e do Apocalipse é sintomático. Por entre as figurações surrealistas que situam as acções comezinhas do quotidiano num plano onírico e miraculoso, estes factos decisivos aos quais o poeta, quase sem reparar, vai regressando ancoram o caótico fluir do relato no terreno sólido e profundo do verdadeiro. Coisas tão simples como o gozo de pronunciar a expressão “my wife” apontam para um real que está longe de poder ser definido empiricamente, até porque “se a vida fosse toda ela as coisas à superfície que nos são bastante aparentes, teríamos cometido um suicídio colectivo” (The Quietus). O amor, a vida e a morte são o leito invisível do rio, o ponto fixo na mutabilidade contingente da existência histórica, e a sua descoberta é a conquista da maturidade, patente em Shepherd in a Sheepskin Vest.

No princípio havia a música. Compô-la era do que Callahan precisava para se sentir “um ser humano de valor”. Entretanto outras coisas aconteceram que relativizaram a sua importância e retiraram-na do topo “ou, pelo menos, tornaram-na uma entre três candidatos ao primeiro lugar”, aludindo à mulher e ao filho que lhe tomaram a atenção nos vários anos que passaram desde o lançamento de Dream River em 2013. Mas as coisas vividas sem que delas se tome consciência e a elas se cante um hino de louvor perdem-se. Se esta responsabilidade é de todos, a alguns cabe o talento e o papel de dar voz aos restantes. Não tardou que Callahan sentisse a urgência de converter em música a sua ventura doméstica e legasse aos ouvintes e à posteridade um documento que comprova a possibilidade de criar raízes. As mesmas águas que dão origem à vida (“we crawled out of the water/ obsessed with evolution as ever”) correm agora da caneta por meio da qual o poeta exerce a sua identidade, o seu “effort to describe” (“clear water flows from my pen”). E esta tomada de consciência da vida que é o canto surge para dar origem à humanidade no poeta e em nós, arrancando-nos do cansaço ao devolver-nos o desejo de compreender: “I sing for answers/ I sing for good listeners/ and tired dancers”.

Bill Callahan, Shepherd in a Sheepskin Vest | em análise
Bill Callahan - Shepherd in a Sheepskin Vest

Name: Shepherd in a Sheepskin Vest

Author: Bill Callahan

Genre: Folk, Country, Lo-fi, Experimental, Cantautoria

Date published: 2019-06-14

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  • Maria Pacheco de Amorim - 85
  • Rui Ribeiro - 90
88

Um resumo

Shepherd in a Sheepskin Vest é provavelmente o melhor álbum da carreira de Smog/Bill Callahan, o resultado do longo amadurecimento do seu ofício e do recente encontro da felicidade doméstica. Como já vem sendo habitual na obra deste cantautor, é só com uma repetida audição que as canções revelam toda a sua discreta e minuciosa excepcionalidade musical. E a menos que sejamos aqueles "bons ouvintes" a quem Callahan dirige o seu canto, não perceberemos os fragmentos de verdade quotidiana escondidos nas vielas dos versos, tecidos num pano de fundo de imagens herdadas da sabedoria milenar. Neste álbum, Callahan transforma um particular e significativo momento do seu tempo num documento para todos os tempos, ao qual regressaremos vezes sem conta, quando esta década tiver terminado há muito.

Canções incontornáveis: "The Ballad of the Hulk"; "Morning Is My Godmother"; "Watch Me Get Married"; "What Comes After Certainty"; "Call Me Anything"; "Tugboats and Tumbleweeds".

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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