O adeus a "Bojack Horseman", o anti-herói mais irreverente da animação adulta |©Netflix

BoJack Horseman, sexta temporada em análise

“Bojack Horseman” foi uma maravilhosa surpresa no universo televisivo. De comédia leve a parodiar a indústria de Hollywood evoluiu para um complexo estudo de personagem capaz de abordar de forma sublime temas como: ansiedade, depressão, trauma, vício e o não linear caminho rumo ao melhoramento pessoal.  

A comédia negra – se for sequer possível descrevê-la dessa forma –  de animação criada para a Netflix por Raphael Bob-Waksberg, com produção executiva do próprio e de Steven A. Cohen e Noel Bright, e co-produzida ainda pelos intérpretes Will Arnett (“Flaked”, “Arrested Development”) e Aaron Paul (“Breaking Bad”)  chegou ao fim após seis temporadas. O seu sexto e último capítulo foi lançado na plataforma de streaming em duas partes – a primeira a 25 de outubro e a segunda a 31 de janeiro.

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Volvido mais de um mês desde a emissão da segunda metade, sem dúvida consideramos que foi bem mais do que “Nice While it Lasted” (bom enquanto durou), título do seu derradeiro episódio. Vamos reflectindo sobre os eventos finais, de lenta assimilação, que transpareceram nesta sexta temporada – que forçosamente colocou um ponto final numa série que elevou o conteúdo de animação para adultos. O novo modelo de negócio da Netflix, mais focado em fenómenos viciantes em constante rotação, exigiu este fim não obstante o descontentamento por parte da equipa que trouxe “Bojack Horseman” até ao pequeno ecrã ou a impecável recepção crítica.

“Bojack Horseman”, o cavalo que fora nos anos 90 uma grande estrela de televisão em “Hollywoo”, procurou neste último capítulo a redenção, alterou comportamentos e procurou também alterar percepções e, por instantes, parecia estar perto de conseguir atingir um novo equilíbrio. Contudo, foram-lhes antes propostas provações sucessivas – numa sequência de recuperação de erros do passado vertiginosa . Estes erros não foram, nem nunca poderiam ser esquecidos – não seria a mesma série.

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Todd (Aaron Paul) e Bojack (Will Arnett) numa das últimas cenas de “Nice While It Lasted”, o capítulo final da série |©Netflix

Esta criativa proposta, regida por um mundo de animais antropomórficos em convivência com seres humanos, construiu-se em torno da lógica do anti-herói, como outros conteúdos televisivos extremamente populares no século XXI –  “Dexter” ou “Breaking Bad”. Ora, Bojack testa uma e outra vez a nossa capacidade e limiar de tolerância. O nosso protagonista  – nefasto para todos os que o rodeiam, auto-destrutivo, depressivo, ansioso, inundado por auto-comiseração e pelos vícios do álcool e drogas  parece não ter redenção possível ou sequer forma de encontrar no espectador um seu aliado. Não quando é aparentemente incapaz de controlar os mais negros dos seus instintos.

Surpreendentemente, uma e outra vez torcemos por ele. Com mestria, os escritores, suportados pelo argumentista principal e criador Raphael Bob-Waksberg (“Tuca & Bertie“, “Undone”), criam uma ambiguidade desconcertante. Queremos que Bojack seja castigado pela malvadez dos seus actos, e ao mesmo tempo temos esperança depositada na sua redenção. Claro que esta redenção tarda a chegar, substituída antes por uma agridoce suspensão de futuro, não fosse “Bojack Horseman” um dos conteúdos mais devastadores do panorama da ficção televisiva norte-americana.

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Mais perverso ainda – ou acertado –  é que pudemos constatar que diversas das restantes personagens centrais da série conseguiram “finais” mais satisfatórios e promissores do que o da personagem titular. Diane (Alison Brie) compreendeu que Los Angeles –  e tudo o que esta simboliza, o epicentro da crítica da série – fora prejudicial para si, estimulando o pior do seu complicado feitio, tão afim ao de Bojack. Todd conseguiu começar a sarar feridas antigas e encontrou o amor. Princess Carolyn (Amy Sedaris) aproximou-se do quase inatingível equilíbrio entre vida familiar e sucesso profissional que atormenta a mulher da sociedade atual. Mister Peanutbutter (Paul F.Tompkins) compreendeu que a alegria e a tristeza fazem ambas parte da condição humana (ou canina no seu caso).

Embora nada tenha tido um tom muito conclusivo, a conclusão contida muniu-se de uma quietude bela. Excepto para Bojack, claro, que chegou a um novo fundo do poço. Contudo, descobrir que não existe apenas um fundo de poço, mas múltiplos, significa também que existem muitas oportunidades de recuperação – um vislumbre de esperança – e quiçá a possibilidade de ver este conteúdo num outro canal depois do seu fatídico cancelamento?

A equipa de “Bojack Horseman” soube de antemão que esta seria a sua última temporada, um luxo não extensível a conteúdos como “Santa Clarita Diet” e outros originais Netflix. A série conseguiu não terminar num “cliffhanger”, mas o final de Bojack não deixou de fazer-se sentir algo apressado. A divisão em duas partes prejudicou a fluidez do conteúdo até certo ponto, e uma primeira metade mais vagarosa deu lugar a um crescendo de intensidade dramática quase sufocante na segunda. Não sendo uma temporada perfeita, não deixou de apresentar algumas das mais bem concebidas ideias e episódios dos seus seis anos de duração.

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“Free Churro “(T5)  é um monumental sucesso num formato único |©Netflix

Não obstante todos os arcos narrativos que poderiam estar planeados e nunca viremos a conhecer, estes 16 episódios finais – repletos de melancolia  – deram a “Bojack Horseman” um final mais que digno. Este conteúdo televisivo teve diversos episódios fortíssimos ao longo do tempo: o maravilhoso monólogo de “Free Churro” na temporada 5, a pesada história do passado de Beatrice Sugarman com “Time’s Arrow” na temporada 4, a espiral decadente de Bojack e Sarah Lynn na temporada 3 com o episódio “That’s Too Much, Man!” ou o ambicioso capítulo mudo “Fish Out of Water” no início dessa mesma impecável season. Estes entre muitos outros que marcam uma consistência crescente ao longo dos anos, especialmente se compararmos a primeira temporada com as restantes que se lhe seguiram. 

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Diane encontra o seu ponto de equilíbrio criativo e pessoal junto de Guy |©Netflix

Grandes expectativas estavam assim depositadas nestes 16 derradeiros episódios. Certos capítulos destacaram-se claramente. Entre eles, “The Face of Depression”, uma viagem rumo a uma aparente paz ou o décimo episódio, “Good Damage”, no qual Diana procura lidar com a sua depressão mas também e, acima de tudo, com o conceito de trauma . A noção do escritor atormentado como um requisito da criação artística é aqui explorada de forma sublime e criativa. O artista consegue criar na ausência da manifestação dos seus mais profundos demónios internos? Uma hipótese robusta para esta questão é avançada.

Para lá de tudo o que de bom se manifestou neste adeus a “Bojack Horseman” há que destacar o penúltimo episódio da série. “The View From Halfway Down” é já visto por muitos como o magnum opus dos seis anos de duração do conteúdo. Como é evidente, esta acepção é relativa e subjectiva. Ainda assim, é representativa do poder deste capítulo – que merece todos os louvores e possíveis premiações na próxima leva de reconhecimentos no campo da televisão.

“The View From Halfway Down” é um mergulho profundo na psique de Bojack, capaz de evocar, num episódio de 20 minutos, elementos transversais aos 75 capítulos que o antecederam. O nosso protagonista encontra-se num limbo, no qual é confrontado com a sua mortalidade e com todos os erros mais profundos do seu passado. Nesta viagem à mente de Bojack encontramos a manifestação de todos os seus arrependimentos e o seu pesado sentimento de culpa face à morte de quase todos os que povoam esta sequência de sonho alucinante. Uma experiência quase religiosa que nada tem a ver com religião, este 15º episódio da temporada 6 cria uma amálgama perfeita de memórias.

O subconsciente do nosso anti-herói é exposto de forma tão nua e crua que sentimos que nunca antes acedemos a uma mente com a mesma precisão. Este episódio recorda-nos que “Bojack Horseman” não é uma excelente série de animação, é uma excelente série. A animação é um veículo eficaz, bem explorado e que ajuda a singularizar a série – isso é evidente. Contudo, não é a animação que dita a qualidade do conteúdo. Não, são as temáticas que o constituem. Todas estas temáticas se justapõem em “The View From Halfway Down” , sugando o espectador e confrontando-o com uma profunda representação de uma mente à beira do precipício.

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“The View from Halfway Down ” é, quiçá, o mais agonizante episódio da série |©Netflix

Ao longo das suas seis temporadas “Bojack Horseman” abordou os eventos traumáticos que construíram a personalidade dos seus protagonistas. Este trauma acabou eventualmente por os fortalecer, fazer crescer, evoluir, mudar. Por mais pessimismo que possamos encontrar neste retrato sarcástico de Los Angeles e dos seus vícios, a verdade é que a humanidade das personagens centrais nunca é colocada em risco. Não quando mentem, decidem trair, tentar escapar ou quando parecem ter perdido a sua empatia. Todos eles são perseguidos por fantasmas, e embora entendamos o seu passado, nunca a série nos pede para desculpar o seu comportamento no presente. Era tão tentador esperar que o nosso anti-herói central tivesse direito ao perdão do mundo, mas o mundo não lhe deve nada – e o caminho rumo a um novo “eu” apenas pode ser traçado pelo próprio. Assim, dizemos adeus com alguma incerteza mas com um claro sentimento de missão cumprida.

“Bojack Horseman” merecia ter durado mais, mas foi magistral enquanto durou. 

Bojack Horseman, sexta temporada em análise
Bojack Horseman poster

Name: Bojack Horseman

Description: Bojack foi em tempos uma grande estrela de televisão. Agora, procura corrigir erros do passado que o perseguem de forma incessante.

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  • Maggie Silva - 90
90

CONCLUSÃO

"Bojack Horseman" é uma notável criação artística que se despediu com uma sólida temporada final. Tornou não só o mundo da animação mais rica, mas enalteceu também a ficção televisiva num todo. Abordou de forma mordaz temas societários pesados, intercalados com uma descarada crítica à superficialidade da vida em Hollywood e à nossa sociedade em geral. Bojack não consegue corresponder às suas próprias expectativas, às da sua mães, ou às de uma sociedade que descarta aqueles que em tempos colocou num pedestal. Sem dúvida consegue conquistar-nos a nós. Vai deixar saudade!

O MELHOR: A nata da nata - os episódios finais;

O PIOR: A disparidade entre capítulos ao longo da temporada;

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Maggie Silva

Mestre em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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