Sam The Kid e Beware Jack (fotograma do videoclipe de Francisco Gomes)

Beware Jack & Sam The Kid, Classe Crua | em análise

Classe Crua é o álbum pelo qual Beware Jack, Sam The Kid e todos nós esperávamos, sem saber, desde sempre. Agora sabemos. Já faz parte da nossa história. Já faz parte da História.

“Para quê fazer um álbum se ele dura meses?” …

Pois bem, meses depois do lançamento de Classe Crua, cá estamos para falar deste clássico instantâneo e intemporal. Missão cumprida, Sam: Classe Crua é para sempre.

“A cidade brilha, os peões dançam ao sabor do trânsito/É no caudal que vive a criança do destino/Não há espaço para amarras/E também não há mais mar para esse nome/Barbatanas, big fish, sem espinhas, ele vai correr lá/Onde um rio nasce e morre/Histórias, Glória, Microfone” – assim começa esta história, introduzida por Este Senhor, o narrador Carlos Afonso.

Porém, para quem chegou atrasado à sessão, o filme já começou. E é “Cobra Capelo” que faz o papel de “Across 110th Street”, de Bobby Womack, em Jackie Brown, com as devidas apresentações creditadas. Neste filme “tarantinesco”, realizado por Samuel Mira, quem desliza entre os créditos é o cowboy Beware Jack, e o tapete rolante de Jackie é a carrinha pick up de Jack. Dois filmes; dois Tarantinos; um Jack e uma Jackie. Fiquem desse lado, está a dar Classe Crua.

A personagem principal é inevitavelmente Beware Jack, o cowboy, interpretado por Fábio Timas, que troca os desertos pelas praias. Nesta longa-metragem, Beware lança ao mar versos ao sabor da corrente – o seu flow é imprevisível como os ventos e as marés em alto-mar. Mas esta caravela portuguesa chegou ao auge dos seus descobrimentos. Beware Jack, de longa carreira, navegou anos a fio pelos mares do Hip-Hop, trocando conhecimento e mercadorias com ilustres mercantes, tais como os Alcool Club, Nelassassin, Kilu ou Blasph (entre tantos outros), até finalmente atracar no rio que se vê da janela do “quarto-mágico” do Senhor de Chelas.

CLASSE CRUA | “A MINHA PRAIA” (Feat. SAM THE KID)

No entanto, “A Minha Praia” foi o pedaço de costa onde Beware Jack e Sam The Kid embarcaram na mesma nau. Classe Crua foi um cabo difícil de dobrar, e foram precisos cerca de quatro anos para se descobrir esta Terra Prometida, com Sam ao leme, e Beware, o poliglota colonizador que veio converter todos os povos à religião do Hip-Hop, pregada na língua de Camões. Ainda assim, os “Chakras” alinharam-se, e uma obra que se previa gloriosa acabou por surpreendentemente superar as elevadas expectativas criadas pelo tempo, que parecia passar cada vez mais devagar para quem esperava por este disco. Mas tudo tem o seu tempo, e (como sempre) a espera valeu a pena.

Uma hora e quatro minutos de filme faz com que não haja intervalos ou interrupções: Classe Crua começa no início e acaba no fim, sem paragens ou silêncios pelo meio. É que isto é mesmo um álbum com as letras todas (nos vários sentidos). E chegar dez minutos atrasado faz toda a diferença – três músicas perdidas, para ser mais preciso.

Classe Crua divide-se entre a noite e o dia. Contudo, não se fica por aí a profundidade desta dualidade. Cada faixa, e cada sample, representam uma fase do protagonista – umas melhores, outras piores. Umas mais claras, outras mais escuras. Assim é a vida. E esta é a obra de uma vida, com todos os vícios, dúvidas, amarguras, e reflexões que isso acarreta. Classe Crua é a catarse por excelência do artista e do homem, Beware Jack e Fábio Timas, em que o próprio se revela e descobre simultaneamente.

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Por detrás de todo este processo está o divino arquitecto, Samuel Mira, que elevou a sua produção para níveis sobrenaturais. E é a partir daqui que a obra nasce. Isto porque este não é apenas mais um álbum produzido por Sam The Kid. O “mechelas” criou este “filho” à imagem e semelhança do verdadeiro protagonista, entregando-se, assim, o produtor ao rapper, e não o contrário. São os instrumentais que encaixam à risca na história contada, e não a história que se molda consoante os cenários. Sam deu espaço, ou melhor, criou esse espaço para Beware falar; para Beware brilhar.

Não obstante, tanto se esforçou Samuel para dar palco (metafórica e literalmente) a Fábio que acabou ele também por brilhar, e de que maneira. E, em boa verdade, Classe Crua tem tanto de um como do outro. Não poderia ter sido feito sem a relação fraterna espelhada ao longo do disco, e durante toda a criação do mesmo. Se, por um lado, os versos e rimas de Beware são acompanhados pelos próprios versos e rimas de Sam, num cruzamento de histórias, os instrumentais, por outro, ilustram em grande medida os estados de espírito do rapper, e ao mesmo tempo do produtor no lugar daquele. São duas linhas paralelas e coincidentes, e é a história que contam que as une.

No fim de contas, Classe Crua é mais que um álbum de uma vida, ou de duas (como se isso, por si só, já fosse coisa pouca). Este é um disco – é “O” disco – de uma era. É um marco na história do Hip-Hop português, numa altura em que os álbuns caminham para meras compilações de singles. E os singles não contam histórias. Já a história de Samuel e Fábio está para sempre imortalizada. Missão cumprida, Sam, Beware: Classe Crua é para sempre.

Classe Crua
Classe Crua

Name: Classe Crua

Author: Sam The Kid e Beware Jack

Genre: Hip-Hop, Hip-Hop Tuga

Date published: 2019-06-10

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  • Paulo Pena - 95
95

Um resumo

Classe Crua é um disco de duas carreiras – de duas vidas – que se cruzam numa só. Sam The Kid e Beware Jack juntaram-se para criar um álbum numa era em que os álbuns caminham para meros conjuntos de singles.
Classe Crua é mesmo um álbum, à moda antiga, com conceito e história do princípio ao fim. Afinal, a música serve para contar histórias, e Classe Crua é mais um álbum que fica para a história.

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