"Diamante Bruto" | © Netflix

Cine Quarentena: O Diamante Sandler

Desta vez não fui ao baú, mas finalmente vi o belíssimo ‘Diamante Bruto’ (‘Uncut Gems’), dos realizadores nova-iorquinos Josh e Benny Safdie, com Adam Sandler numa interpretação do outro mundo.

Não queria fazer uma análise exaustiva do filme, — já foi aqui feita — mas fiquei muito impressionado por os realizadores de Good Time (2017) escolherem o Adam Sandler para protagonista deste Diamante Bruto, que só agora consegui ver nesta pausa forçada. Quem diria que Sandler seria capaz de interpretar soberanamente este thriller intenso e um tanto comovente também, sobre as desventuras de um joalheiro judeu, muito peculiar, da Rua 49 de Nova Iorque, a cidade-território dos Irmãos Safdie? E tenho que dizer isto porque fiquei ‘esmagado’, porque além de ser um filme muito bem esgalhado, é uma obra exemplar pela sua extraordinária originalidade: a história de um gajo que não interessa a ninguém!

© Netflix

Depois de um estranho e enigmático início que nos liga ‘harmoniosamente’ de uma mina de pedras preciosas no interior de África, a uma colonoscopia ao intestino do corpo humano do protagonista, acompanhado por batida de música electrónica, ‘Diamante Bruto’ (‘Uncut Gems’) arranca logo a um ritmo frenético com diálogos rápidos e um Sandler que age quase sem parar, gordo e em gestos desengonçados. É incrível! E segue, entremeando conversas dispersas, muitas vezes sobre quase nada ou sobre dinheiro e merdas, combinados com uma batida de música, sempre a abrir. É impressionante como os Irmãos Safdie nos contam esta história dum tipo completamente doido que está envolvido num círculo vicioso ou melhor numa espécie de tornado (e não de teia), de que não consegue (ou não quer) de forma nenhuma escapar: Howard Ratner (Adam Sandler) é um joalheiro do Manhattan Diamond District, que deve dinheiro a toda a gente e que faz de tudo para permanecer nesse jogo perigoso e nesse elevado grau de adrenalina, montando um esquema de relações, negócios e apostas, na qual vai cobrindo uma dívida com outra, e que para lhe cortarem esses elos, (é o que vamos assistir) vai tornar-se, apenas numa questão de tempo. ’Diamante Bruto’ é por isso uma prodigiosa combinação de suspense, drama e comédia, que nos mantém sempre agitados e nervosos o tempo todo. Quase tanto como o protagonista, dominado sempre por uma tremenda ansiedade sobre o que lhe pode vir a acontecer, mas que aproveita ao mesmo tempo e com um certo prazer, essa espécie de corrida na montanha-russa.

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TRAILER DE ‘DIAMANTE BRUTO’

A tensão gerada pelos Irmão Safdie a partir do argumento e o trabalho de Sandler são notáveis e vão no sentido de um alucinante crescente até desfecho final, que de certa forma é um tanto imprevisto. No centro do filme está  Adam Sandler, um actor que carrega em si sempre muitas expectativas, sejam elas boas ou más. Na verdade, Sandler é um actor brilhante que sabe fazer boas comédias, mas que tem também muito fracassos. Talvez, devido ao seu estilo muito particular de se exibir fora e na indústria do cinema — assinou um contrato de exclusividade com a Netflix — algo que lhe tem trazido tantos admiradores como detratores.

diamante bruto critica
© Netflix

Na escolha para este papel, entra sem dúvida uma utilização consciente dos Irmãos Safdie da figura de Sandler e daquilo que ele representa e provoca nos espectadores, — além das suas origens judaicas — algo que está entre a atracção e a repulsa; e não estando em causa em qualquer das situações, uma justificada concordância em relação ao seu enorme talento como actor. Um pouco o que acontece também com outro extraordinário comediante: Jim Carrey. Por isso a escolha não poderia ser mais apropriada porque Adam Sandler demonstra que além de ser um extraordinário intérprete, é capaz de construir um personagem complexo, que vive na fronteira quase real, entre comédia e a tragédia urbana. ‘Diamante Bruto’, é sem dúvida um dos melhores filmes desta temporada. Agora com as salas de cinema fechadas, é um filme a não perder em exclusivo na Netflix.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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