"Gilda" | © Columbia

Clássicos em Casa | Gilda (1946)

Nestes dias em que todos estamos fechados em casa, é boa altura para explorar as maravilhas do cinema clássico que se encontram disponíveis para o público português. Começamos por recomendar um delicioso film noir de 1946 com o striptease mais sedutor da História do Cinema – “Gilda”.

Pelo final dos anos 30, os EUA começavam a recuperar da Grande Depressão e o seu cinema estava a evoluir consoante os gostos populares. O escapismo que tinha servido de bálsamo para as almas infelizes de um país desgraçado agora chegava às antípodas do glamour e excesso. Basta olharmos para o glorioso ano de 1939 e seus clássicos como “E Tudo o Vento Levou” ou “O Feiticeiro de Oz”. No entanto, todo esse sonho foi estilhaçado com o rebentar da 2ª Guerra Mundial e todos os horrores que daí se vieram a descobrir. O mundo em 1946 era algo completamente diferente e as suas audiências demandavam algo mais que o escapismo adocicado de outrora.

gilda
© Columbia

Nessa conjetura, nasceu o film noir, um cinema cínico e niilista, urbano e recheado de personagens amorais que refletiam o espírito dos tempos. O género trouxe consigo novos arquétipos e paradigmas cinematográficos, entre eles a figura da femme fatale. Em reação a uma sociedade em que as mulheres tiveram de, durante os anos da guerra, preencher empregos masculinos, Hollywood vinha vilificar a autonomia feminina. Divas independentes e sexualmente confiantes eram agora como que enviadas de Satã, prontas a levar homens inocentes para a miséria. Tão gananciosas como belas, estas anti-heroínas serviam de objeto de desejo e de alerta social conservador.

A ironia destas narrativas misóginas, é que a figura da femme fatale veio dar oportunidade a muitas atrizes para desenvolver personagens complexas no grande ecrã. No panorama destas tentadoras perigosas, a figura central de “Gilda” é a mais icónica e memorável. A história do filme passa-se numa visão exótica de Buenos Aires, entre becos escuros e casas de jogo, onde um trapaceiro profissional cruza caminho com um magnata do crime e os dois se ajudam um ao outro. A relação dos dois tem o seu quê de homoerotismo, mas tais dinâmicas nunca podiam ser clarificadas no cinema de 1946. Por isso mesmo, acrescenta-se ao cocktail de tensões sexuais um elemento feminino.

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Ela é Gilda, a nova esposa do senhor do crime e antiga amante do seu amigo. Ela é interpretada por Rita Hayworth e é uma personificação da magia do cinema em forma de Afrodite. Usando a sua sexualidade como uma arma, esta mulher destrói o equilíbrio do drama e inventa teias de ciúmes que só podem acabar em desgraça. O que é interessante, contudo, é quanto ela não é uma femme fatale no modelo clássico. Acontece que, não obstante a sua aparência provocadora, Gilda é fiel e não nutre maldade pelos homens que a desejam. É claro que, no mundo do cinema noir em que o ódio é mais luxuriante que a paixão, tais virtudes não a safam da punição masculina.

De facto, “Gilda”, que foi produzido e escrito por mulheres apesar de Charles Vidor ser seu realizador, acaba por ser um filme sobre chauvinismo enquanto força destrutiva. Na cena mais famosa da obra, quando Gilda canta “Put The Blame on Mame” e sugere toda a sensualidade de um striptease com o tirar das luvas, as suas palavras falam de um cosmos em que os homens estão sempre prontos a culpar as mulheres pela sua infelicidade. O resultado de todas estas ideias é um filme tão belo quanto cáustico, um conto cruel de degredo humano que conta com a melhor performance na carreira de Rita Hayworth. Trata-se de um clássico brilhante que é bem mais complexo do que alguns pensam.

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© Columbia

Podes alugar “Gilda” no Apple iTunes e RakutenTV. Não percas as delícias perversas deste clássico exemplo de film noir.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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