O Tempo Contigo (2019) de Makoto Shinkai | ©Big Picture Films

O Tempo Contigo, em análise

“O Tempo Contigo”, o filme mais recente de Makoto Shinkai, chegou às salas de cinema nacionais no passado dia 20 de fevereiro de 2020. Será que a nova fantasia do realizador consegue não desapontar depois do seu extraordinário e marcante “Your Name”? 

“Cinco Centímetros por Segundo” (2007), “O Jardim das Palavras” (2013) ou “Your Name” (2016) – informalmente intitulado em português “Teu Nome” – são algumas das obras de referência de um realizador de animação japonesa que conquistou já uma considerável legião de fãs.

“Your Name” ou “Kimi no Na wa”, no original japonês, tornou-se, em 2017, a longa-metragem de anime mais lucrativa de sempre – suplantando o anterior campeão de bilheteiras internacionais: “A Viagem de Chihiro” de Hayao Miyazaki.

Combinando as  invulgares receitas mundiais de Makoto Shinkai com a sua tendência para o drama, enredos agri-doces e fantasia ligada à espiritualidade e ao Shinto – religião fundadora japonesa – com uma clara crítica social incorporada, não é surpreendente que o mundo e o Japão lhe tenham começado a chamar “o próximo Miyazaki”. Contudo, esta comparação não só é injusta como errónea. Fiquemo-nos então pelo universo específico de Shinkai  – dominado por temporalidades, paralelos e dicotomias espácio-temporais – e pelo que este tem para oferecer.

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“Your Name” é uma bela fantasia melodramática sobre duas almas inexplicavelmente ligadas pelo fio do destino, numa história repleta de desenvolvimentos inesperados e imagens marcantes. A expectativa para este “Weathering With You”  era assim elevadíssima, construída ao longo dos três anos de espera entre as duas obras. Estreado no Japão em julho de 2019 – e em inúmeros outros países – o filme que chega agora a Portugal arrecadou já mais de 186 milhões nas bilheteiras mundiais. O seu sucesso comercial levou a que o Japão o seleccionasse como entrada para a categoria de Melhor Filme Internacional nos Óscares de 2020. Apesar de não se ter tornando nomeado oficial, esta escolha exemplifica o poderia de Shinkai na indústria da animação japonesa.

Uma vez mais, com “O Tempo Contigo” , ou “Tenki no Ko” no original, encontramo-nos no reino da adolescência, dos sonhos, esperanças e ambições para o futuro. Futuro esse bem capaz de trair os sonhadores que nele desejam viver. A história é, de novo, centrada num rapaz e numa rapariga, e na ligação espiritual e humana que os une.

Hodaka em “O Tempo Contigo” (2019) |©Big Picture Films

Conhecemos Hodaka, um jovem algo problemático de 16 anos. Hodaka fugiu de casa, no campo, para tentar a sua sorte na sufocante e impessoal Tóquio. Pouco demora a sentir-se perdido e alienado, e apesar deste se tratar de um filme de fantasia a sua vertente sóbria e realista intromete-se, de forma frequente, na narrativa. A sequência inicial de “Weathering With You” é a que mais deixa esta tendência transparecer,  e é também uma das mais ricas do filme. Conhecemos uma Tóquio suja, triste, claustrofóbica e pouco convidativa para quem aqui procura começar uma nova vida.

Tudo muda quando um faminto Hodaka conhece uma gentil rapariga, Hina, que o ajuda num momento difícil. Hina é órfã e vive com o seu irmão mais novo, Nagi. Quando Hodaka descobre que Hina é uma “rapariga solar” – capaz de controlar o tempo – começam um novo negócio em conjunto. A sua empresa depende de Hina alterar as condições metereológicas numa estação em que chove torrencialmente em Tóquio. Como rapariga que controla a chuva, criando pequenas bolsas de dia solarengo, Hina encontra a sua nova vocação e os três amigos vivem em harmonia durante algum tempo. Contudo, tudo tem um custo e estabelecer uma ligação entre os ecossistemas da terra e do céu apresenta pesadas consequências.

O Tempo Contigo
Uma celebração feita de luz |©Big Picture Films

“O Tempo Contigo” constitui-se como uma narrativa mais simples e linear do que a prévia longa-metragem deste realizador. Marcada por alguns eventos previsíveis, o rumo da história começa a desenhar-se antes de chegarmos ao clímax da obra. Adicionalmente, o filme parece estar prestes a terminar por diversas vezes e diversas das transições entre cenas são abruptas e assemelham-se a genéricos iniciais de séries de animação japonesa. Por vezes, “Weathering with You”, apesar da sua beleza inegável, parece dividir-se em diversos capítulos, o que não abona a favor da sua estrutura enquanto longa-metragem.

O belo romance adolescente  entre Hina e Hodaka está em primeiro plano, e é mais premente do que qualquer outra temática do filme. Não obstante, a abordagem dos elementos naturais e dos fenómenos espirituais remete-nos para uma ligação ancestral à religião Xintoísta nipónica. Se estas três crianças, esquecidas por uma sociedade excessivamente condicionada por regras rígidas, são os sujeitos que ilustram uma notória crítica social, e se esta manifestação representa, de forma inequívoca, o mundo atual, o trajeto da sua aventura remete-nos também para valores ancestrais.

Weathering with You
Hina em “O Tempo Contigo” (2019) |©Big Picture Films

Existe uma certa quietude espiritual inerente aos eventos catastróficos da obra. A natureza e a vida na terra são cíclicas, e se o filme pode ser visto como uma crítica ao aquecimento global e à mão que o homem tenta forçar nos eventos naturais, há que reforçar que esta visão não se torna nunca agressiva, absoluta ou pregadora. A arrogância e certezas humanas não mudam o facto de esta Terra estar aqui há muito tempo (cronológico). Apesar de nunca assumir uma posição concreta em relação a algumas das questões que critica, “O Tempo Contigo” deixa-nos com diversas perguntas e possíveis interpretações para os seus eventos.

Longe de ser um filme perfeito, e antes um pautado por alguma simplicidade, “O Tempo Contigo” não deixa de merecer a sua atenção mediática e distribuição internacional. Aqui ficamos, à espera do que o trabalho de Makoto Shinkai nos trará no futuro e de que forma criticará o presente nunca esquecendo o passado. De que forma honrará a espiritualidade do povo japonês, não esquecendo as exigências das metamorfoses da “modernidade”. De que forma nos transportará para mundos fantásticos e ainda assim palpáveis…

O Tempo Contigo, em Análise
O Tempo Contigo Poster

Movie title: O Tempo Contigo

Movie description: Tudo muda na vida de Hodaka quando conhece uma rapariga capaz de controlar os fenómenos metereológicos.

Date published: 2020-02-23

Director(s): Makoto Shinkai

Actor(s): Nana Mori, Kotarou Daigo

Genre: Fantasia, Romance

  • Maggie Silva - 76
  • Filipa Machado - 75
76

CONCLUSÃO

"O Tempo Contigo" é mais uma bela história pertencente ao universo coeso do realizador Makoto Shinkai. A distância entre a terra e o céu torna-se mais curta neste filme, e o cenário realista de um presente cinzento vê-se, de forma inesperada, indissociável da espiritualidade ancestral japonesa. Este equilíbrio entre a idade contemporânea e uma temporalidade mais transversal confere ao filme grande parte do seu charme.

O MELHOR: A capacidade de conciliar uma crítica social inerente ao nosso tempo com uma transcendência ancestral.

O individual sobrepõem-se ao colectivo no final da obra, algo invulgar na estrutura societária japonesa.

O PIOR: Apesar de a história ter a capacidade de estimular o sentido crítico, não deixa de se apresentar de uma forma bastante simples. O carácter previsível torna-se limitativo.

A animação é deslumbrante, mas por vezes entra em conflito entre si. A robusta arte de fundos e o falso 2D em primeiro plano criam uma harmonia perfeita. Contudo, certos edifícios em partes pontuais do filme apresentam uma animação demasiado realista ( os arranha-céus nos planos mais gerais, por exemplo) que desarmoniza o plano quando a comparamos com a aparente animação tradicional que desenha o primeiro plano da acção.

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Maggie Silva

Mestre em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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