PAUS - Madeira (2018)

PAUS, Madeira | em análise

O som é tudo menos tropical mas o disco é sobre a Madeira, ou como cada homem é uma ilha. Isto dito por uma banda tão colectiva que tem por coração uma bateria partilhada.

No tema que dá título ao álbum, canta-se que “sou mais do que já fui”. Frase abrangente, que não deixará de nos vir à mente em muitas circunstâncias, enquanto as vivemos, por descrever o que vivemos. Para já, aplica-se bem ao disco em si e ao progresso que significa na discografia dos PAUS. Avanço na difícil arte do paradoxo, porque ao mesmo tempo que é um disco mais coeso do que os seus predecessores, com direito a lado A e lado B, cada um com a sua overture, nunca as canções foram tão únicas e carismáticas, facilmente isoláveis entre si enquanto fluem, sem solavancos, umas nas outras.

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Parte deste sucesso das canções de Madeira deve-se a um maior domínio do único instrumento que sempre ofereceu dificuldades à banda. Os discos anteriores assistiram à progressiva tentativa dos PAUS de encontrar a sua voz, desde o puro instrumental, que os isolava em demasia da tradição portuguesa com que tanto se identificam, às harmonias, difíceis quer de se ouvir numa sonoridade agressiva, quer de cantar ao vivo enquanto se presta atenção ao domínio do próprio instrumento e ao diálogo com os restantes. A solução apresentada em Madeira assinala a descoberta do caminho certo a seguir.

O uníssono gritado em melodias minimalistas gera uma coerência tanto interna, com a voz a moldar-se ao instrumental enquanto lhe aumenta a fúria, quanto externa, ao ligar a banda às raízes do melhor punk português. Mas não só. As letras, como outros elementos na sonoridade dos PAUS, acusam influências mais sincrónicas. Veja-se o verso que, embora grafado como “rodeado a mar, sem condição”, é cantado repetindo o “a mar”. A repetição traz consigo um jogo de palavras típico da tradição lírica do hip-hop, com o segundo “a mar” a ouvir-se inevitavelmente como “amar”, dada a proximidade com o “sem condição” e a temática da canção.

PAUS, MADEIRA | “MADEIRA”

As imagens aéreas que enchem o vídeo de “Madeira” remetem para a erupção vulcânica com que se descreve na canção a experiência amorosa, aludindo ao seu poder gerador do indivíduo, da ilha que emerge do oceano e passa a existir em virtude do magma expulso das entranhas da terra. O amor “tem forma”, “tem norma” e dá substância ao eu, permitindo-lhe aquela liberdade de que tudo flui. Por isso, a ilha nasce sempre já ligada a todo o cosmos. Estas ligações são o assunto do outro grande tema do disco, “L123”, cujo título remete para a inevitável relação entre Lisboa e as mais longínquas periferias, que assegura a sobrevivência de uma e outras. Todas as ilhas pertencem a um arquipélago, qualquer ponto é o lugar de cruzamento de infinitas linhas, cada homem depende.

PAUS, MADEIRA | “L123”

E de que depende a sonoridade dos PAUS, particularmente neste disco? Os vários membros resistiram sempre às tentativas de categorização do seu trabalho artístico, pensando-se a si como “uma ilha no meio de tudo o que nos rodeia”. Ao recusar géneros a banda não está a fazer género. De facto, o único rótulo que normalmente se lhes atribui é o de pós-rock, mas este não é senão outro nome para rock sui generis, para a exploração de fronteiras tão diversas quanto as bandas sob as quais normalmente recai o rótulo.

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A sonoridade dos PAUS não nasce de pôr em prática um conjunto pré-existente de regras, habituais dentro de um género, mas é fruto das contingências e de um orgânico desenvolvimento histórico. Nasce das pessoas que se quiseram juntar para tocar, com as influências específicas que cada um e todos juntos foram absorvendo, os instrumentos que ocorre tocarem, através dos quais são si mesmos, e da dinâmica comunitária que cultivam no método de tocar, compor e gravar. Sem ser projectada, não é porém instintiva ou espontânea, mas resulta do diálogo consciente com o que acontece, enquanto acontece. Numa história particular que gerou e transfigura continuamente um género do qual as únicas instâncias são os discos que dela saem e da qual Madeira é, até mais ver, o culminar.

PAUS, MADEIRA | “SEBO NA ESTRADA”

Madeira não soa, por isso, particularmente tropical. É verdade que o espectro da ilha da Madeira assombrou, desde o início, a produção do disco, com a banda a gravar no seu estúdio HAUS sabendo já que participaria no Festival Aleste, no Funchal. Há sugestões do ambiente que se imagina que a ilha tenha, através de alguns ritmos, dos timbres de certas linhas dos sintetizadores e, acima de tudo, das letras, que giram em torno da grande metáfora da insularidade. Desta sonoridade entre o africano e o sul-americano, o maior exemplo talvez seja o instrumental de “970 Espadas”. Mas, mesmo aqui, depressa a agressividade da secção rítmica e a distorção industrial das linhas de teclados assumem o controlo e emerge a origem urbana desta ex-centricidade.

PAUS, MADEIRA | “970 ESPADAS”

O som será multi-cultural, mas de um multi-culturalismo originado e proliferado nas fronteiras de Lisboa. As alusões tropicais apenas pontuam o que é, no coração, uma experiência de música ambiente experimental, cheia de ritmo e violenta aspereza punk. A grande marca, em Madeira, permanece a personalidade inconfundível de uma certa sonoridade colectiva, gerada toda a partir do centro que a bateria siamesa de Quim Albergaria e Hélio Morais ocupa.  No caso deste disco, porém, todas as periferias são, como nunca antes, sintetizadas numa única e imparável torrente, cuja propulsão visceral atira o ouvinte sempre para diante até que já só tenha tempo de se surpreender chegado ao fim. De uma jornada, essa sim, do mesmo calibre que uma viagem à Madeira.

PAUS, MADEIRA | “OLHAR DE ROJO”

PAUS, Madeira | em análise

Name: Madeira

Author: PAUS

Genre: rock alternativo, pós-rock

Date published: 2018-04-06

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  • Maria Pacheco de Amorim - 80
80

Um resumo

Madeira é o melhor disco que os PAUS compuseram e produziram até agora. Coeso, mas cheio de canções. Atmosférico, mas sempre propulsivo. Pontuado de alusões a lugares exóticos, mas numa base urbana e industrial, que avança sem parar, como uma torrente de lava. E agora, finalmente, com uma voz clara e forte, à qual não resistimos juntar a nossa, tanto nos fascinam estas canções. Porque quando se ama, é "sem condição".

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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