Tomberlin, At Weddings | em análise

Com a estreia do seu primeiro álbum, Tomberlin expressa-se tanto quanto se entrega, ao fazer de “At Weddings” um desordenado mas contemplativo caminho. 

Nascida na Florida mas mudando-se de, pelo menos, cinco lugares antes de se estabelecer finalmente em Kentucky, Sarah Beth Tomberlin deixa-nos com a estreia do seu primeiro álbum At Weddings, editado pela Saddle Creek. Oriunda de uma família protestante, pertencente a uma Igreja Baptista, na sua infância não era autorizada a ouvir música secular, tendo o seu gosto por música surgido talvez quando cantava na igreja. Por ter tido aulas em casa até aos 16 e deixado a faculdade após um ano, viveu tudo muito sozinha. A música que ouvia até então eram CDs que comprava às escondidas dos pais, mas foi nesta altura que começou a escrever as suas primeiras músicas. Terá escrito “Tornado” com apenas 18 ou 19, música que mais tarde seria incluída neste álbum, ao abrir portas para aquele que pode ser o início da sua carreira como cantora.

Embora At Weddings tenha um som singular e inconfundível, que logo me transportou, as suas melodias acessíveis e imediatas não são difíceis de adivinhar. Como barco que navega no mar e abre caminho, é cómodo como a acústica da guitarra, o eco do teclado e a sua tão afinada e penetrante voz fazem avançar cada música. Esta travessia torna presente uma autenticidade, algo único, ao contrário do que nos faria esperar a sua previsibilidade melódica.

At Weddings
Sarah Tomberlin

Sarah Tomberlin, sem tentar disfarçar, faz de At Weddings um desabafo. À partida, por haver certas frases que não escapam ao ouvido, como “Love is mostly war/ And war what is it for?”, poderia concluir-se que se encontra, à sua maneira, revoltada. No entanto, o timbre aveludado da voz de Tomberlin, o travo angustiado, sim, mas cheio de quieta melancolia do desempenho vocal e a amplitude das melodias, ornamentais e a oscilar entre os extremos do registo, tudo contraria e boicota a sensação de revolta. Este contraste só aponta para que, em vez de exaltada, Tomberlin pareça antes desapontada. Com possíveis relações passadas, mas principalmente consigo mesma. Avança então, contra corrente, e, simultaneamente, a favor da mesma, ao procurar o caminho que tem de percorrer, quando se apercebe de que para isso tem necessariamente de se descobrir a si mesma primeiro. At Weddings acaba por ser parte desse caminho. Ou fruto dele.

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“Any Other Way”, como o próprio nome indica, abre o álbum com esta ideia de exílio e desalojamento: “Gave me a sudden feeling that I didn’t have a place”. Assim, sempre com os mesmos repetidos acordes da sua guitarra, fica a impressão de alguém que se exaure num movimento circular incessante, cansada não de tentar, mas de não acertar. Acabando no final por repetir, como quem se justifica, que “I didn’t know any other way”.

AT WEDDINGS | “ANY OTHER WAY”

Com muita parcimónia, sem elaboradas e desnecessárias complicações, tirando o máximo dos poucos instrumentos de que se recorre – uma guitarra acústica ou uma simples linha de piano, por vezes um violino, como pano de fundo para a sua voz – Sarah Tomberlin consegue exprimir, ao longo de At Weddings, estados de espírito subtilmente distintos. Quando diz “And to be a woman is to be in pain” em “I’m Not Scared”, mostra-se resignada à sua condição, sabe que tem de viver com isso. Ainda assim, tem consciência do que lhe pode custar, não conseguindo esquecer a experiência passada: “And my body reminds me almost everyday/ That I was made for another, but I don’t want to know that/ ‘Cause it happened once and I always look back”. Entre o conformismo com a realidade que vive e o desassossego que a mesma lhe causa, avança na corda bamba.

AT WEDDINGS | “I’M NOT SCARED”

Apesar das inseguranças e dúvidas, luta por se tornar em alguém melhor, manter-se à tona, sem deixar que o barco alguma vez afunde: “because I’m tough”. Apesar da tenra idade, Tomberlin exprime-se com força e elegância, mostrando-se capaz de se dar a si em versos lapidares, que a sintetizam tanto para si própria como para nós, que a ouvimos no silêncio do seu universo: “And I’m trying to give you everything you want/ And I’m trying to be everything you won’t”.

Tomberlin, At Weddings | em análise
At Weddings

Name: At Weddings

Author: Tomberlin

Genre: Singer-songwriter, Indie-folk, Lo-fi

Date published: 2018-08-10

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  • Carolina Ferreira - 85
  • Maria Pacheco de Amorim - 81
83

Um resumo

At Weddings é a estreia de Sarah Tomberlin enquanto cantora e guitarrista. Um álbum que oferece tanto um caminho a percorrer, como uma experiência singular, capaz de embalar quem se deixa levar. Escrito durante vários anos da sua vida, Tomberlin não só torna este álbum um lugar onde exprimir aquilo por que passou, mas também partilhá-lo.

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Carolina Ferreira

Fotografia, filmes, música. Atenta ao mundo que me rodeia, tento absorver tudo o que possa mais tarde vir a ser uma história. Sempre disposta a sair da minha zona de conforto no que toca a gostos.

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