"When They See Us" | © Netflix

When They See Us, primeira temporada em análise

“When They See Us” é a série certa no momento certo sobre um conjunto de rapazes, hoje homens, no local errado à hora errada.

Há filmes e séries que só queremos ver uma vez. Aliás, há grandes filmes e séries que só queremos ver uma vez. O que separa estas obras da generalidade das criaturas audiovisuais é quase sempre o facto de equivalerem a pesadelos e fotografarem o pior da humanidade, expondo feridas e partilhando traumas. Na sétima arte, “A Vida Não é um Sonho” (2000) e “Temos de Falar Sobre Kevin” (2011) são exemplos recentes desta raça, que acaba de ganhar um par.

19 de Abril de 1989. Trisha Meili, uma jovem mulher de 28 anos, é violada em Central Park, o parque urbano de Manhattan, resultando o ataque brutal num estado de coma de 12 dias. Nessa noite, marcada por vários delitos de menor expressão cometidos por um vasto grupo de cerca de 30 jovens, a polícia “escolhe” cinco e constrói a sua acusação em torno de uma narrativa forçada, coagindo e manipulando 5 rapazes, com idades entre os 14 e os 16 anos, interrogados sem a presença dos seus pais.

When They See Us
When They See Us © Netflix

Antron McCray, Kevin Richardson, Raymond Santana, Yusef Salaam e Korey Wise – os Central Park Five. Cinco inocentes, cinco filhos retirados aos seus pais, cinco seres humanos com direitos e anos de vida (6 a 12) de liberdade que lhes foram roubados. Para sempre.

Discutido em praça pública, o destino do quinteto chegou a ser pisado em Maio de 1989 por Donald Trump, que à época comprou uma página inteira de publicidade no Daily News para defender o regresso da pena de morte. Anos mais tarde, com os 5 homens ilibados depois da confissão do verdadeiro violador (Matias Reyes pronunciou-se em 2001), Trump recusou-se a pedir desculpa, mantendo que os Central Park Five não eram inocentes. Fake news, aparentemente…

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O caso gerou um documentário que estreou em Cannes em 2012, e conheceu agora máxima difusão graças à mini-série da Netflix, escrita e realizada por Ava DuVernay. Aquele que é possivelmente o melhor trabalho da realizadora representa um regresso à sua zona de conforto após uma aventura no mundo da Disney com “Uma Viagem no Tempo” e vinca uma vez mais como sua imagem de marca a reflexão sobre o sistema de justiça e prisional norte-americano, e os direitos humanos numa América racista. “Selma: A Marcha da Liberdade” (2014), “Middle of Nowhere” (2012) e o documentário da Netflix nomeado para Óscar “A 13ª Emenda” (2016) ganham assim, sob a forma de mini-série, um irmão.

When They See Us
When They See Us © Netflix

“When They See Us” é uma série exigente do ponto de vista emocional. Com uma duração aproximada de 5 horas é um binge-watch intenso e custoso que, embora incrível, deixa o espectador impotente e angustiado. Torna-se uma mensagem de esperança, mas pelo caminho assemelha-se ao documentário “O.J.: Made in America” (consumo absolutamente obrigatório) na dificuldade que é assistir ao pior da humanidade.

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Estruturalmente, a mini-série está dividida em quatro partes. “Part One” é o capítulo que faz a audiência sentir maior vontade de intervir perante a injustiça, assistindo aos duros interrogatórios e vendo a confusão no olhar inocente e o cansaço a escorrer pelas lágrimas de 5 vítimas incriminadas por conveniência, reféns de uma autoridade prepotente, abusiva, violenta, nojenta (peço desculpa mas é a palavra que melhor se aplica) e racista. “Part Two” sai da esquadra rumo aos tribunais, onde acompanhamos os julgamentos e vemos serem decretadas as várias penas, sendo Antron, Kevin, Raymond e Yusef julgados como jovens e apenas Korey Wise, o único com 16 anos, julgado como adulto e atirado para a infame prisão de Rikers Island.

“Part Three” segue individualmente os trajetos de Antron, Kevin, Raymond e Yusef, deixando os anos passar por cada um (excelente casting a suavizar a transição dos jovens atores para aqueles que os interpretam em adultos) e mostrando por fim a sua readaptação à sociedade após cumpridas as penas.

When They See Us
When They See Us © Netflix

E depois… bem, depois vem “Part Four”, um episódio capaz de destruir qualquer um, de uma intensidade que levará muitos às lágrimas e que, além de ser um capítulo que funciona de forma quase independente, é um dos melhores episódios da primeira metade deste ano. A etapa final da jornada é dedicada quase na íntegra à tragédia de Korey Wise – que em 1989 se deslocou à esquadra apenas para acompanhar um amigo e acabou como o único elemento dos Five julgado como adulto, passando 12 anos da sua vida entre 3 prisões diferentes a tentar sobreviver.

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Num mundo justo, “Part Four” valeria a Jharrel Jerome todos os prémios possíveis entre emmys, globos de ouro e afins; é um emocionante retrato de sofrimento e esperança, bondade e dor, isolando Korey e deixando-nos temer o pior. A relação com a irmã e com o guarda Roberts (interessante o acrescento inesperado de Logan Marshall-Green, com pouco tempo de ecrã, suficiente ainda assim para deixar a sua marca) deixam qualquer um ao lado de Korey Wise, revelando-se muito inteligente a opção de, ao contrário do que acontece com os restantes 4, ser sempre Jharrel Jerome a interpretar a personagem, envelhecendo com esta. Quem o viu em “Moonlight” e quem o vê agora.

When They See Us
When They See Us © Netflix

Olhando para o elenco além de Jerome, destacam-se os desempenhos de Asante Blackk e Caleel Harris entre os mais novos. Na classe de veteranos, Felicity Huffman e Vera Farmiga conseguem fazer-nos odiar as suas personagens (missão cumprida), Michael Kenneth Williams acrescenta mais um papel ao leque de personagens que fazem dele um dos mais consistentes intérpretes televisivos deste século, e a comediante Niecy Nash reinventa-se.

Com Oprah Winfrey e Robert De Niro envolvidos como produtores, e Bradford Young como diretor de fotografia, “When They See Us” é um murro no estômago. É um conto urbano que todos desejaríamos ser ficção, quando foi realidade.

É uma reflexão sobre justiça, sobre o medo e sobre abuso de poder. É terapia de choque e formação cívica. Recorda um conjunto de rapazes no lugar errado à hora errada e é a série certa no momento certo, como seriam todos os momentos para relatar uma história assim.

TRAILER | “WHEN THEY SEE US”

Já conseguiste digerir “When They See Us”? Em que lugar colocarias a mini-série da Netflix entre as grandes novidades de 2019?

When They See Us
When They See Us

Name: When They See Us

Description: Em 1989, cinco jovens adolescentes são condenados por um crime que não cometeram.

  • Miguel Pontares - 85
  • João Fernandes - 85
  • Inês Serra - 80
83

CONCLUSÃO

O MELHOR - Jharrel Jerome merece todos os prémios possíveis pela sua interpretação de Korey Wise. "Part Four" é um dos melhores episódios da primeira metade de 2019. A série é uma reflexão sobre justiça, medo e abuso de poder, é terapia de choque e formação cívica. É um murro no estômago e um conto urbano que todos desejaríamos ser ficção quando foi realidade.

O PIOR - "Part Three" não está ao nível dos restantes capítulos. O que não é propriamente um problema: é apenas excelente, e não extraordinário.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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