Pormenor da capa de Four of Arrows (2019)

Great Grandpa, Four of Arrows | em análise

Em Four of Arrows, os Great Grandpa floresceram até se tornarem o que sempre foram, fundindo folk, emo e math-rock numa maravilha pop que transcende qualquer influência.

Por serem de Seattle, por ninguém saber bem o que é o grunge, desde o início que, bem contra vontade sua, os Great Grandpa foram metidos nesse saco onde cabe tudo o que meta distorção, arraste a voz e use flanela. Ou, claro, venha de Seattle. Ouvidos e olhos mais inocentes terão dificuldade, contudo, em reconhecer qualquer uma destas coisas na banda formada em torno do casal Goodwin. Já nem a parte de Seattle, dado que, por diversas circunstâncias, os vários membros tiveram de se separar, abandonando o apartamento onde viviam juntos e alguns mesmo a cidade natal. A baixista Cassie teve de migrar para Milwaukee para se pós-graduar em enfermagem, logo seguida do marido, o guitarrista e principal compositor Pat Goodwin. O guitarrista Dylan Hanwright e o baterista Cameron LaFlam ficaram em Seattle, a trabalhar o primeiro como produtor de música e o segundo como professor de História e Inglês numa escola. A vocalista Alex Menne, em lugar incerto por agora, prepara-se para se juntar ao casal em Milwaukee. Esta dispersão obrigou a repensar a vida, à luz tanto dos obstáculos e nostalgia da distância, como de novas dificuldades vividas em primeira pessoa ou encontradas noutros à volta. Obrigou também a repensar o processo de composição e a visão que os Great Grandpa tinham de si como uma banda de garagem, desaparecida a proximidade física pressuposta pelo conceito. Se tudo isto, e muito mais, levou a um surpreendente salto de qualidade musical, já os géneros e influências no interior dos quais os membros da banda sempre se moveram permaneceram intactos. A diferença está só em que, escondidas as inspirações e a habilidade técnica durante muito tempo, a banda conseguiu por fim revelá-las no mesmo instante em que as transcendia numa voz agora sua.

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O EP de estreia, Can Opener (2016) e o primeiro longa-duração, Plastic Cough (2017), mostram uma banda a testar a dinâmica de grupo, com os membros a aprender a tocar juntos, e a ensaiar várias direcções sonoras, por tentativa e erro mas sem grandes preocupações. Neles ouvem-se já a descontracção, a abertura ao risco e o espaço deixado ao acontecimento que estarão na origem da experimentação, desta vez paciente, deliberada e eficaz, do segundo disco Four of Arrows. Não obstante, o som de garagem dos registos anteriores em nada fazia prever as novas composições de pop orquestral, tecidas de melodias tão atractivas quão difíceis de reproduzir, pontuadas de subtis fragmentos de math-rock e terminadas por longas codas pós-rock. Mas esta suavização da sonoridade foi o que a banda sempre procurou, tendo apenas esperado até estar segura de si para o fazer: “Sempre quisemos fazer estas composições e sons mais suaves, mas tínhamos medo porque é difícil de conseguir. É menos uma evolução do que uma real representação dos nossos interesses” (Stereogum).

A Pat Goodwin devem-se os esboços das canções, que a mulher Cassie e, a seguir, o resto da banda texturizam e transfiguram. As suas influências formativas vão desde rock clássico, folk e country até estilos mais progressivos como emo e math-rock, cultivados em algumas das bandas anteriores em que tocou. Apesar desta cultura musical e habilidade técnica, o desejo foi sempre entrar em comunicação com o ouvinte: “Eu gostava muito de música clássica, de jazz; dediquei-me à música como um assunto de estudo. Mas também adoro música acessível. Adoro o relato de histórias. Adoro música pop. Penso que a universalidade disso é muito especial” (Guitar.com). O método seguido no novo álbum foi colocar o virtuosismo ao serviço “da emoção, da narração e da melodia”, “do núcleo espiritual da canção”. O primeiro manifestou-se na graciosidade e eficácia com que se realizaram as segundas, e só depois então “ter também coisas musicais mais subtis, como pequenas mudanças de escala, mudanças de modos, alterações do compasso: limitámo-nos a deixar que a música o determinasse por oposição a escolher fazê-lo conscientemente.”

FOUR OF ARROWS | “ENGLISH GARDEN”

Para Four of Arrows, o produtor Mike Vernon Davis incentivou os Great Grandpa a experimentar em estúdio, realizando gravações alternativas com instrumentação diferente; a musicista de estúdio Abby Gunderson saltou a bordo para tocar violino e violoncelo; a guitarra acústica em que Pat Goodwin compõe as canções alcançou lugar proeminente, trazendo consigo as influências folk e country do casal; e a banda arriscou tudo, sabendo porém o que queria e voltando à ideia original quando necessário. “English Garden” foi escrita apenas um dia antes de entrarem no estúdio mas isso não demoveu os Great Grandpa de construírem, a partir do esboço de Pat, uma das melhores e mais progressivas canções do disco. Abrindo com uns dedilhados nostálgicos de guitarra, aos quais depressa se juntam os do banjo, a canção faz pleno uso do violino de Abby Gunderson e a estrofe melódica depressa se transfigura numa contra-intuitiva, mas sempre magnificamente melódica, ponte de math-rock, antes de entrar num refrão eufórico na sua melancolia. Em “Mono No Aware”, seguindo sem hesitações o conselho de Chris Walla, gastaram oito horas a reconstruir a parte final da canção. Acrescentaram uma ponte pensativa e agridoce para introduzir o refrão extra sugerido pelo antigo membro e produtor dos Death Cab For Cutie e terminaram num fervilhante crescendo. Já em “Digger”, o caminho foi de desconstrução. Mike Vernon Davis tentou metamorfoseá-la numa espaçosa canção pós-rock, mas soando-lhe injusto o sentimento e pressentindo a necessidade de um registo mais humilde, Pat acabou por retirar a reverberação da bateria que o produtor colocara e voltar ao andamento mais rápido inicial da demo.

Com toda a abertura à novidade, ao acontecimento e às sugestões alheias, os Great Grandpa nunca perderam o controle artístico e o álbum transpira uma personalidade deliberadamente lavrada a partir do seu desejo de colocar uma história de audição e toda a proficiência musical ao serviço do sentido e economia da canção. Nada mais apropriado do que intitulá-lo “Four of Arrows”, carta que significa, no Tarot, a necessidade de descansar e reflectir pacientemente sobre tudo o que se viveu antes de abraçar o desafio seguinte. Para Pat Goodwin, “o ponto do Tarot é fazer sentido das coisas, não adivinhar o futuro; retirei o ‘Quatro de Espadas’, que simboliza descanso e recuperação, e pareceu-me uma metáfora evidente do ponto em que todos nos encontrávamos”. O novo álbum é claramente fruto de um período de retiro e reflexão, em que, mais do que recuperar forças, a banda se descobriu a si mesma.

FOUR OF ARROWS | “MONO NO AWARE”

Não foi por acaso que “Mono No Aware” liderou a promoção de Four of Arrows. O título do single principal é uma expressão japonesa que significa literalmente a nostalgia, sofrimento ou transitoriedade de todas as coisas. Pat Goodwin retirou o termo dos romances de Kazuo Ishiguro, em que andava embrenhado, por sintetizar tão bem as circunstâncias e o conteúdo lírico do álbum. E, de facto, se Four of Arrows é tão interessante é por levar a sério a ideia de que “euphoria impregnates perfect sadness”. No espaço de uma mesma canção, a euforia da fórmula pop é entrelaçada com a difidência introduzida por imprevisíveis torceduras dessa fórmula, perceptíveis só a quem investe tempo a ouvir repetidamente o álbum. O resultado é um retrato leal da vida, com todos os seus contrastes e amálgama de tristeza e alegria. Em “Rosalie”, Carrie Goodwin conta a história de uma paciente de 80 anos, cuja lenta degradação acompanhou como enfermeira. Em consonância com o assunto pesado, a canção começa num arrastado 12/8 e uma melodia angustiante onde se descreve “a soul decomposing, a body alive”. Ao chegar ao primeiro refrão, o compasso muda para um acelerado 4/4, com uma batida country, prometendo um alívio ou mudança dos acontecimentos. Mas o ritmo mais animado apenas introduz o quotidiano alienado de Rosalie, com os seus “stretched screams, swollen speech, void of meaning”. E, na realidade, a melodia nunca perde a sua inquietação. Juntamente com o desempenho vocal cada vez mais exasperado de Alex Menne, conduz a canção ao seu final emo, denuncindo a solidão que se esconde nos recantos do bulício diário.

A perplexidade da velhice, em que “as pessoas podem morrer antes de estarem de facto mortas”, não é o único reflexo desta percepção da efemeridade de tudo, no centro de Four of Arrows. A ferida profunda que um divórcio abre numa família é o tema da outra canção cuja letra foi escrita por Carrie. “Split Up the Kids” pode-se gabar de ter uma das raras melodias realmente belas e pungentes de um álbum, que, apesar de melodicamente tão infeccioso, é a este nível bem mais disfórico do que aparenta à primeira vista. Com um andamento excepcionalmente lento para o resto do álbum, a canção representa um momento de calma e instrospecção. Nela, por meio da voz de Alex Menne, cheia de dor pelo drama alheio e a tremer no último “we’ll just stay the same”, a autora relata o único dia em que viu os avós paternos juntos. Numa longa separação causada pelo adultério da avó, em que o avô ficara em casa com os filhos rapazes e a avó saíra levando consigo as raparigas, o desencontro era tão procurado que um dia o avô entrara disparado no carro só porque a avó chegara mais cedo do que era suposto para visitar os filhos: “Gray is in their hair now, still the anger shows in waxen brows”. Marido e mulher só se reencontraram no fim e a neta interroga-se sobre o porquê de cinquenta anos de ira, se o vulto da morte paira sobre todos, se nem a avó, nem o avô, nem ela, se nenhum deles “is barely even there”: “Before his open coffin, Grandma stands beside the fifty years she left behind/ Sadness holds me tighter, seeing them together just one time”.

FOUR OF ARROWS | “DIGGER”

Apesar do seu conceito central, Four of Arrows está bem longe da atitude de resignação que acompanha muitas vezes a consciência da impermanência de tudo, compreensível numa altura em que a banda atravessa um período de instabilidade, mudança e incerteza quanto ao futuro. As melodias eufóricas e exasperadas, a distorção das guitarras, o ritmo dançável, tudo clama pela vida. Tudo grita o desejo de ser, cortando com aquilo que o esvazia e esboroa (“I can’t help you if I can’t help myself”) e aceitando o combate da existência: “You just gotta keep hanging on and it won’t be long/ Don’t let life take your hard work/ I know you feel done but you’re still so young/ Sometimes living is hard hard work”. No interior do “mono no aware” que conduz a narrativa do álbum, e tantas vezes o olhar sobre a existência, está o “digger” que vive em cada um de nós. Assim se chamava o cão de Pat e Carrie, porque “costumava entrar num transe intenso, quase maníaco sempre que cavava um buraco no jardim”, ficando “obcecado com estes fossos aparentemente inúteis”. No idiolecto da banda, Digger perdurou como imagem deles próprios quando se punham “a esgaravatar no perigoso jogo do questionamento existencial” e a canção com o seu nome tornou-se um tributo àqueles que “escavam demasiado fundo”, porque se “é mais seguro nunca sair de noite”, “talvez percamos alguma coisa na escuridão”.

Nesta demanda pela vida e pelo seu sentido, não estamos sós. Para um álbum que abre com a ideia de que “all things fade into dark water”, Four of Arrows está cheio da presença dos antepassados e da sua sabedoria: “I learned this phrase from my father/ He said ‘no perfection can ever bring joy’/ Or, ‘there’s none without it’/ Like a life that has a start but no end”. Em “Bloom”, é a companhia dos amigos que sustenta durante os momentos adversos da travessia da vida, ajudando a arriscar e o espírito a florescer: “Say I’m young enough to change”. Cheia de tensão agridoce, esta canção é o momento culminante de um álbum todo ele sobre a entrada na vida adulta e as angústias e incertezas que flagelam este momento tão particular do crescimento, onde tudo está em fluxo. De um lado, a ânsia de viver, o medo de perder alguma coisa e a exaltação das melodias da estrofe e do refrão. Do outro, um pedido pela paciência necessária para amadurecer e tornar-se si próprio: “I get anxious on the weekends/ When I feel I’m wasting time/ But then I think about Tom Petty/ And how he wrote his best songs when he was 39”. Este pedido despe-se de todas as palavras no crescendo final, paradoxalmente anti-climático. A melancolia da coda boicota a confiante euforia do corpo da canção ao mesmo tempo que é, ela própria, boicotada pelo seu movimento ascensional. Este termina num “I’m hoping to bloom” que tanto revela a suspeita aninhada nos versos esperançosos e idealistas da canção quanto reitera o desejo de que tudo na vida se encaminhe para um porto seguro, “shining like the north star, guiding me”.

Este desejo de florescer já não é apenas uma incerta, e muito menos vã, aspiração. Four of Arrows representa para a banda um passo de gigante neste caminho de maturação. “Do I progress or just run in that spot?” À laia de resposta, os Great Grandpa regressam, no final do álbum, a uma das suas canções mais antigas. Ouvindo-os percebemos quão longe se encontram já da primeira vez em que a gravaram. Apenas esboçada em Can Opener, “Mostly Here” alcança agora a perfeição e aqui o seu lugar, no preciso momento em que pode ser deixada para trás: “Bite with no teeth/ all the lives we’ve lived/ And all the lives to be/ are full of trees”. Aos Great Grandpa cresceram os dentes e, mais do que nunca, não são precisas cartas para adivinhar o futuro. Num mundo onde “all things must evolve or fade”, a banda escolheu desabrochar, vencendo a efemeridade de tudo.

GREAT GRANDPA | “MOSTLY HERE” AO VIVO

Great Grandpa, Four of Arrows | em análise

Name: Four of Arrows

Author: Great Grandpa

Genre: Emo, Indie-folk, Math-rock

Date published: 2019-10-25

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  • Maria Pacheco de Amorim - 84
84

Um resumo

Four of Arrows é um prodígio de crescimento. O ânimo largo que os Great Grandpa já tinham revelado no EP Can Opener (2016) e no álbum de estreia Plastic Cough (2017) floresceu agora numa obra que sintetiza organicamente uma sonoridade virtuosa de emo e math-rock com uma intuição e sensibilidade pop, capaz de estabelecer, por isso, um laço com o público ao mesmo tempo que comunica uma personalidade única. Promessa já verificada, os Great Grandpa deixam-nos uma reflexão sobre a transitoriedade de tudo que resistirá à passagem do tempo, provando que a história é feita, afinal, de pequenas mas significativas cristalizações do eterno.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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