Love is Strange – O Amor é uma Coisa Estranha, em análise

Em Love Is Strange – O Amor é Uma Coisa Estranha, Ira Sachs constrói um comovente retrato de um casal de dois homens na casa dos 60 recentemente casados, sua família e amigos durante uma difícil crise pessoal.

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Filmes sobre personagens nas últimas décadas da sua vida são uma raridade no panorama geral do cinema, mas, nos últimos anos, parece que este tipo de histórias humanas têm vindo a merecer posição de destaque no cânone do cinema independente. Nomeadamente quando se fala de narrativas com um casal em crise no seu centro, como é o caso de títulos como Amour, Fim-de-Semana em Paris, Radiator e 45 Anos, entre outros. Neste tipo de retrato, cineastas têm vindo a explorar o peso de uma vida experienciada em conjunto, a sussurrada ameaça da mortalidade iminente e o modo como uma relação amorosa e familiar se vai transmutando e desenvolvendo ao longo dos anos, com a história de vida muitas vezes expressa em fugazes detalhes comportamentais ou em rápidas lembranças verbalizadas. Love is Strange – O Amor é Uma Coisa Estranha de Ira Sachs, segue essa recente tradição com algumas notáveis exceções que o distanciam e individualizam.

A mais superficial distinção será certamente a de que aqui o casal central é composto por dois homens. Ben e George são dois nova-iorquinos na casa dos 60 que, após quase quatro décadas vividas juntos decidem casar-se, agora que tal é legalmente possível no seu estado. É no frenesim risonho do dia do seu matrimónio que a narrativa de Love is Strange realmente se inicia. Ainda nesse dia feliz, o casal tem uma celebração no seu apartamento, onde conhecemos seus familiares e amigos, todas pessoas progressivas e com uma considerável capacidade económica que terão a sua generosidade e disponibilidade pessoal posta à prova no resto da narrativa.

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Isto porque, apesar de muitos poderem ver esta história de um casal homossexual recém-casado como uma narrativa completamente contemporânea, as sementes deste enredo foram plantadas nos anos 30, com Make Way for Tomorrow de Leo McCarey. Tal como os protagonistas desse filme, Ben e George são separados devido a questões económicas e logísticas, sendo que aqui existe o amargo detalhe que tal precariedade financeira é uma consequência direta da sua feliz união matrimonial. Apesar de trabalhar há anos como professor de música numa Escola Católica, a homossexualidade de George nunca havia sido problema para a instituição até que ele a “oficializou” com o seu casamento. Sem possibilidade de manter o seu apartamento ou presentes meios para adquirir uma nova habitação, o casal vê-se dependente da ajuda da sua família e amigos, mas, devido a problemas de espaço, George vai viver com os seus antigos vizinhos, um jovem casal de polícias, enquanto Ben encontra abrigo com o seu sobrinho e respetiva família.

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Inicialmente todos parecem estar perfeitamente dispostos a ajudar o casal e promessas de que isto é apenas uma situação temporária são proferidas indiscriminadamente, mas gradualmente a audiência e os intervenientes rapidamente se vão apercebendo que esta separação será muito provavelmente algo permanente. De igual modo, as linhas de stress começam a tornar-se impossíveis de ignorar, especialmente no que diz respeito à relação de Ben com a mulher e o filho do seu sobrinho, Kate e Joey. Ela é uma escritora que trabalha em casa e necessita de paz e silêncio, algo que a presença de Ben conspicuamente dificulta, enquanto ele é um jovem adolescente que apenas vê neste velho familiar um incómodo e irritação.

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Seria fácil apontar para estas atitudes e nelas ver pessoas demasiado absorvidas nas suas preocupações egoístas para terem módica humanidade e empatia para com Ben e George, mas Ira Sachs tem o gentil génio de ativamente mostrar a perspetiva destas personagens secundárias. Poder-se-ia dizer que, desse modo, Sachs está a emular o trabalho de McCarey que também não se retraiu de representar quão difícil poderia ser o fardo de tomar conta dos seus protagonistas idosos, mas o realizador de Love is Strange leva isto mais longe, quase que reconfigurando o filme como uma história não de toda uma família confrontada com uma difícil situação pessoal. Não que isso torne as injustiças menos dolorosas, pelo contrário. Com este nível de empatia e cuidadoso registo naturalista, Sachs encontra a beleza e angústia escondidas por entre a vida mundana, celebrando e dissecando relações inter-geracionais, familiares e amorosas com uma precisão soberba e que raramente chama atenção para si própria.

Isto é conseguido, em parte, pelo modo como o realizador delega muito deste difícil trabalho aos seus atores que estão perfeitamente aptos ao desafio, especialmente John Lithgow e Marisa Tomei como Ben e Kate. Ele, um ator com uma infeliz tendência a exagero e teatralidade, consegue criar aqui uma caracterização de sublime subtileza e perspicácia, alcançando aquela que é, talvez, a sua melhor interpretação cinematográfica. Tomei também está perto de poder chamar a esta prestação a mais brilhante joia na coroa da sua filmografia, sendo que quase rouba o filme das mãos dos dois protagonistas através de uma personagem secundária cuja interioridade e conflito são tão eximiamente telegrafados que acaba por se tornar a mais forte presença humana em cena.

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Mas é também no génio dos seus atores que Sachs e Love is Strange encontram a sua maior fragilidade. Ao dar prioridade narrativa aos conflitos familiares, o filme quase que negligencia a história de George e a comovente prestação de Alfred Molina. Esse desequilíbrio é ainda mais sentido quando falamos da relação dos dois homens que, depois dos momentos iniciais, raramente são vistos em conjunto. Isto, tal como a elíptica montagem que obscurece a passagem do tempo, faz com que a audiência sinta duplamente a separação do casal, mas também é uma constante fonte de frustração. No entanto, quando os vemos juntos, o trabalho de Lithgow e Molina quase incendia o ecrã na sua beleza. Os dois atores iluminam anos de vida em conjunto e evolutiva paixão com pequenos momentos, reações e leituras preciosas. O auge desta parceria interpretativa é mesmo a última noite que ambos passam juntos, por entre as ruas de Manhattan numa sequência que é tanto um passeio romântico como uma elegia a uma vida de felicidade e afeto conjunto.

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No entanto, aquando dos seus momentos finais, é difícil caracterizar Love is Strange como um fracasso ou mesmo como uma tragédia. Quando observamos o jovem sobrinho de Ben no meio das solarengas ruas de Nova Iorque, a melancolia está tão presente como a esperança e  a felicidade que vem da simples observação da beleza da vida, da juventude que tem tanto para viver e dos mais velhos que tanto já experienciaram. Com Love is Strange, Sachs faz o magistral truque de encontrar o universal no específico, pois podemos dizer que esta é uma história que poderia representar qualquer casal, mas isso seria mentira. Através de detalhes na cenografia, texto e figurinos, os cineastas asseguraram que esta é uma história intrinsecamente ligada a este tempo e ao cenário urbano e cultural de Nova Iorque. Tal não desvaloriza o filme, mas eleva-o ao rarefeito clube de obras que entendem que a diferença e a singularidade humana não são as antíteses de ideias progressistas de igualdade ou de empatia humana.

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O MELHOR: As comoventes e detalhadas prestações do elenco principal.

O PIOR: A relativa falta de atenção que Sachs concede à perspetiva de George.


 

Título Original: Love is Strange
Realizador:  Ira Sachs
Elenco: John Lithgow, Alfred Molina, Marisa Tomei
Midas Filmes | Drama | 2014 | 94 min

Love is Strange

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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