Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Morbid Stuff
25. PUP, Morbid Stuff (Rise, 5 Abril)

Três anos após o lançamento do criticamente aclamado álbum The Dream Is Over (2016), o quarteto pop-punk canadiano PUP regressa com o seu trabalho mais completo até à data, fruto do longo período que a banda passou, em primeiro lugar, a escrever as letras das canções e, posteriormente, a gravá-las em estúdio na companhia do engenheiro de som Dave Fischmann. O resultado é um disco meticulosamente produzido que, simultaneamente, retém a catarse desencadeada pelas letras pessimistas e mordazmente sarcásticas de Stefan Babcock, frequentemente potencializadas por um estilo de canto desenfreado, e transparece o talento dos PUP para a composição de canções pop cativantes. O conjunto dá ainda a conhecer uma faceta experimental da sua música, denotada na instrumentação country de Scorpion Hill ou na integração de guitarras stoner-rock na estrutura hardcore punk de “Full Blown Meltdown”.

O terceiro álbum de estúdio do grupo de Toronto exterioriza o grave problema de ansiedade de Stefan Babcock de forma jocosa, recorrendo a uma justaposição entre as palavras neuróticas proferidas pelo vocalista e a sonoridade otimista e envolvente, repleta de guitarras harmonizadas, secções rítmicas impulsionadoras e refrães cantados a várias vozes. Mais do que a eficiente exposição de uma mente autodestrutiva, Morbid Stuff é um artefacto que privilegia a sensibilidade pop e o efeito positivo a longo prazo na comunidade ouvinte, ao mesmo tempo que celebra a música enquanto forma de vida. O processo de purificação de Stefan Babcock apoia-se, acima de tudo, neste estabelecimento de laços entre companheiros de banda e base de fãs, assim como na elaboração de uma peça de arte que resulte da interdependência dos seres-humanos envolvidos. Se as letras reflectem nada mais do que um estado de espírito momentâneo (“You shouldn’t take it so seriously/ It’s just music after all/ And half the crap I say/ It’s just things I’ve stolen from the bathroom walls”), já a influência da ética DIY da década de oitenta na mentalidade dos PUP e a valorização da componente social enquanto critério a ter em conta para o sucesso de um projeto permanecem imutáveis. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019 | Two Hands
24. Big Thief, Two Hands (4AD, 11 Outubro)

Se há artista ou banda em destaque inequívoco este ano, então essa banda só pode ser os Big Thief. Depois do tremendo êxito de Capacity, lançado em 2017, a banda de Adrianne Lenker (que tinha lançado um álbum a solo em 2018, número #33 do ano para a Magazine.HD – sim, Lenker lançou três álbuns nos últimos 12 meses) colocou no mundo dois álbuns que têm sido celebrados por quase todos os compêndios de melhores álbuns de 2019 – “U.F.O.F.” e “Two Hands”. Na Magazine.HD, decidimos destacar o último, porventura um álbum mais direto, menos polido e, narrativamente, mais simples que “U.F.O.F.”, mas que se encontra recheado de canções com melodias cruas e imensamente íntimas que revelam as emoções mais intensas que ouvimos em qualquer outro álbum este ano. O single “Not” pode muito bem ser o ponto alto da carreira dos Big Thief. (DR)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Emily Alone
23. Florist, Emily Alone (Double Double Whammy, 26 Julho)

Emily Alone é o resultado do cruzamento da existência e da ideia. Nele encontram-se a dor de tempos sombrios, entristecidos pela rotura, distância e morte, e a exploração do conceito de solidão como condição inescapável de cada homem. Emily Sprague, a alma dos Florist, põe-se a si mesma e às suas interrogações no centro deste álbum de discretos mas inesquecíveis detalhes. Certos versos onde lampeja, simples e lancinante, a verdade, um arpejo que irrompe no eco suave, uma melodia de imperceptíveis sintetizadores, um piano martelado por instantes, tudo se vai gerando e evaporando numa atmosfera estranhamente duradoura para algo tão etéreo. Nas suas exalações fugidias desenrola-se, subtil mas sério, o drama de um sofrimento que procura pacificar-se na demanda por um sentido. Esta indagação existencial não se desenvolve em torno dos porquês do que acontece e que nada mudariam (“I don’t have the reasons why/ But it wouldn’t make anything right”), mas da descoberta de quem se é chamado a ser. Perguntas sobre a origem e o destino, como “Where did I come from?”, “What is my place in this world?” ou “Where do you go?”, povoam este disco onde Emily Sprague exprime suavemente o fulgor da juventude, que brota da vivacidade das únicas questões que importa colocar. Tudo no interior de um cosmos imenso cujo “glow keeps me company”, à procura de uma “heaven’s light” que ilumine a existência, aclarando o caminho, e à espera de alguém que diga “sim” à pergunta sobre se tudo acabará em bem. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | This Is Not the End
22. Spielbergs, This Is Not The End (By The Time It Gets Dark, 1 Fevereiro)

Os Spielbergs, banda norueguesa constituída pelo vocalista Mads Baklien, baixista Stian Brennskag e baterista Christian Løvhaug, têm o ethos rebelde do punk tatuado na pele. Para um género de música cujos estereótipos se alicerçam nas imagens de juventude e vida boémia, a ideia de três adultos, com empregos regulares e uma família, se reunirem numa garagem para tocar música ruidosa e visceral pode parecer uma realidade longínqua. Todavia, não há nada mais “punk” do que o próprio ato de colocar em causa a definição fabricada pela comunicação social desta cultura. Os Spielbergs executam esta tarefa de modo exímio com o seu álbum de estreia This Is Not The End. A sonoridade das faixas que integram This Is Not The End não é particularmente inovadora e um ouvido mais apurado facilmente detetará as influências do rock alternativo dos Dinosaur Jr. nas guitarras distorcidas, nas linhas de baixo propulsivas e na utilização do feedback ou mesmo dos temas irresistíveis dos Replacements nos refrães de canções como “Five On It”.

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Spielbergs, This Is Not The End | em análise

O que distingue, no entanto, os Spielbergs do vasto leque de bandas punk desta década é a colocação da instrumentação ao serviço da exteriorização de inquietações e demónios internos que só um grupo de indivíduos com um extenso e refletido historial de vivência social e espiritual se pode dar ao luxo de exorcizar. This Is Not The End é um exercício terapêutico que prioriza a demanda por uma verdade profunda e o enfrentamento da perpétua sensação de descontentamento que tende a invadir a alma do ser-humano. O pop-punk urgente de “Distant Star” e “Bad Friend” deixa a nu as impaciências e amarguras do quotidiano, contrastando com o pós-rock de “Familiar” e “McDonald’s (Please Don’t Fuck Up My Order)”, onde as paisagens sonoras difusas abrem espaço para uma meditação sobre a função que exercemos no mundo e no dia-a-dia dos nossos entes queridos. A catarse é imprescindível para a libertação pessoal. Só depois de muito uivarmos, espernearmos, prantearmos e ruminarmos é que podemos, finalmente, aceder a um panorama desobstruído da vida, apartado de frivolidades e sempre apoiado na honestidade. “I stand alone/ Forevermore” trata-se apenas de mais um desabafo. Isto não é o fim. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Thanks for the Dance
21. Leonard Cohen, Thanks For The Dance (Sony, 22 Novembro)

Leonard Cohen, o eterno cantor, compositor, trovador, poeta e escritor, símbolo inspirador de várias gerações, morreu a 7 de novembro de 2016, ano em que editou o maravilhoso, genial You Want It Darker, aquele que parecia ser o seu derradeiro álbum, composto ainda durante a sua vida e no qual se despedia: “I’m ready, my Lord”. Meses antes afirmava em algumas entrevistas que tinha planos para terminar alguns livros, músicas e canções. Na realidade foi o filho quem se encarregou de concluir esses planos, qual acto de amor, sem falar da mestria hereditária. Com base nos esboços deixados pelo pai destinados a You Want it Darker, Adam Cohen musicou e produziu esta segunda parte, onde (justiça finalmente feita) a voz de Cohen sobressai como nunca antes, em toda a sua glória, sabedoria e singular capacidade de invadir a alma do mais incauto (“I was born like this, I had no choice/ I was born with the gift of a golden voice”, dizia o poeta em “Tower of Song”, 1988). Este soberbo instrumento vocal , interpretado por Leonard Cohen, foi gravado durante as mesmas sessões de You Want It Darker, acompanhado agora pelos notáveis convidados Daniel Lanois, Beck, Jennifer Warnes, Damien Rice e Feist. Thanks For The Dance pode não ser o melhor álbum da longa e profícua carreira de Leonard Cohen, mas é não só um dos melhores, como tem o sabor das coisa eternas, resultado acumulado da sabedoria e emoções duma vida cheia, ao serviço da arte e da procura do belo e da perfeição lírica e musical. (RR)

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

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