Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | The Talkies
15. Girl Band, The Talkies (Rough Trade, 27 Setembro)

A faixa que abre o segundo disco dos Girl Band não é propriamente uma canção, apenas uma respiração ofegante sobre um sinal sonoro intermitente de baixo. Mas, ao documentar um ataque de pânico que o vocalista Dara Kiely teve no estúdio, “Prolix” oferece uma chave de leitura de The Talkies como um retrato universal do que acabou por ser também o drama biográfico atravessado por Kiely nos últimos anos, obrigando a banda a entrar em hiato. Os Girl Band sempre se moveram no interior de um noise-rock industrial e o novo disco não acusa em nada a pausa forçada, nem assinala uma mudança de direcção. Pelo contrário, é uma versão mais coesa e sofisticada da sonoridade com que se apresentaram ao mundo no anterior disco de estreia. A composição das canções é mais intencional e, embora sempre longe da fórmula pop, vive de uma certa repetição com variação pensada para criar tensão e expectativa que, sem chegar a qualquer tipo de resolução, nos surpreende e cativa ao longo do caminho. O resultado é um ambiente industrial fantasmagórico, onde vibra, contínuo e impassível, cheio de eco e solidão, o grito de Kiely. Projecta-se, ao nosso redor, aprisionando e isolando-nos, uma imagem da modernidade alienante como o manicómio em que todos vivemos.

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Vampire Weekend, Father of the Bride | em análise

The Talkies não passaria do buraco negro da experiência traumática de Kiely, cuja força de gravidade nos engoliria vorazmente, se não fossem precisamente os acentos e torceduras da sonoridade industrial. São tão inesperados neste contexto que se tornam comicamente surreais. Malhas que prometem, sem chegar a oferecer, um ritmo dançável, fragmentos de rock’ n’ roll, notas soltas que esboçam, sem a materializar, uma melodia revelam um savoir faire musical que a banda usa para parodiar o passado e gozar com as nossas expectativas. O sentido de humor corrói a tragédia, numa ironia sobre si próprio e os outros que desconstrói o drama, lembrando-nos de que tudo não passa, afinal, de música e a doença mental é-o só, muitas vezes, por referência a certos padrões de normalidade: “That’s just mental/ What is normal?” (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | Father of the Bride
14. Vampire Weekend, Father of the Bride (Sony, 3 Maio)

Se pensarmos que já passaram seis anos desde Modern Vampires Of The City, percebemos que um espaço de tempo como este é sempre impulsionador de mudanças, nomeadamente para quem entra na casa dos trinta, como é o caso de Ezra Koenig. O novo álbum dos Vampire Weekend encontra inspiração nesta metamorfose sendo ele próprio um resultado desta transformação. Father of The Bride parece ter tudo para ser um daqueles álbuns rejeitado pela comunidade de fãs que evoca o passado da banda. As letras alegres e mais despretensiosas resvalam por vezes para o infantil ou saloio, fazendo-nos desejar trocar o espetro policromático do novo álbum pela sobriedade do preto e branco de Modern Vampires of The City. Contudo, o que as letras denotam é uma nova postura perante a vida, que revela, pelo contrário, um amadurecimento por parte do vocalista da banda, que parece ter encontrado na sua vida quotidiana as respostas, ou a forma de encarar algumas questões que o assombravam noutros álbuns. Father of The Bride encerra esta necessidade de soar mais otimista, com letras compreensíveis, acompanhadas por malhas de guitarra, cuja simplicidade abre portas a uma certa criatividade explorada pela banda nas atuações ao vivo, de forma expansiva. Neste novo registo, Ezra não abandona o olhar crítico sobre o mundo, nem embarca num otimismo desmedido, mas apercebe-se de que “a vida continua”. (MS)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | All Mirrors
13. Angel Olsen, All Mirrors (Jagjaguwar, 4 de Outubro)

Se alguém tivesse dúvidas da grande personalidade musical de Angel Olsen, da sua magnética presença e sobretudo do vozeirão que manipula como quer e lhe apetece, bastariam dois minutos perante qualquer das suas atuações ao vivo, com banda ou a solo (felizmente já várias entre nós), para se render a esta grande senhora da melhor cena musical contemporânea. Partindo dum lo-fi acústico e íntimo de início de carreira, seguido de um garage rock mais selvagem no últimos álbuns, os mesmos atormentados temas permanecem em pano de fundo agora em tonalidades mais voláteis, envoltas em arranjos mais elaborados, maduros e requintados, não hesitando perante sintetizadores ou verdadeiras secções orquestrais, sempre emanando a sua química contagiante e uma mobilização rítmica altamente confiante. All Mirrors é, não só mais um prodígio da engenharia e magia de John Congleton (Bill Callahan, Anna Calvi, Sharon Van Etten, Lower Dens, Lucy Dacus, Kimbra, Decemberists, St. Vincent, The Walkmen, Wye Oak, e muitos outros do mesmo calibre), como o auge criativo de uma das melhores intérpretes do nosso tempo. (RR)

Melhores Álbuns de 2019 | House of Sugar
12. (Sandy) Alex G, House of Sugar (Domino, 13 Setembro)

House of Sugar (2019) é a mais recente e consistente manifestação da mente solipsista de Alex Giannascoli, jovem cantautor norte-americano que iniciou a sua auspiciosa carreira com quatro projetos DIY divulgados no Bandcamp e, atualmente, é tido por muitos como um dos principais rostos da música lo-fi. Se os criticamente aclamados DSU (2014), Beach Music (2015) e Rocket (2017) deram a conhecer à comunidade ouvinte a sonoridade experimental e enigmática, os motivos de guitarra contagiantes e a fascinação pelo electronic de (Sandy) Alex G, House of Sugar serviu para consolidar a estética idiossincrática do artista e da música que compõe. O disco é um “conto de fadas” contemporâneo, instrumentado por progressões de acordes cativantes, técnicas de pitch-shift pejadas de uma conotação etérea e perspicaz recurso a violino e piano, onde os seres-humanos que constituem o círculo afetivo de Alex Giannascoli assumem o papel de heróis improváveis e a vivência do autor é convertida em lições intemporais e universais. Desde os primórdios da sua carreira que o artista originário de Filadélfia sempre valorizou a produção de música no lar recôndito, distanciado do “olhar julgador” do mundo circundante. No entanto, o seu “quarto imaginário”, apinhado das dúvidas existenciais que atormentam qualquer alma em fase de maturação, finalmente “rebenta pelas costuras” em House of Sugar, expondo um retrato puro e hermético do seu residente, a partir do qual, porém, é possível estabelecer pontos de ligação com as nossas próprias vidas. (DAP)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | American Football LP3
11. American Football, American Football LP3 (Polyvinyl, 22 Março)

O tempo passa e a espuma e zumbidos em torno do rock vão-se desfazendo. Numa história atribulada, mas por isso mesmo viva, mitos, imagens, excessos são peneirados e fica só a música como expressão artística de si e modo de fazer sentido do mundo e da vida. Os American Football cresceram e a sua sonoridade paciente exprime agora a paciência da maturidade. “Forever has to wait”, para que a eternidade possa ser conquistada, numa narrativa sobre as delícias e agruras do casamento e da paternidade. Colocar o dedo nas diferenças entre os dois discos significativos da carreira dos American Football é, e não é, fácil. Por um lado, a polifonia das guitarras permanece inconfundível,  mas por outro, desapareceu o travo slowcore e as melodias fundem o emo e math-rock de sempre com acentos novos de shoegaze e dream pop. As melodias vocais conservam a monotonia, mas perderam a difidência e vibram agora de intranquilo, prolongado anseio. No universo doméstico de Mike Kinsella, bem contra-corrente, o compromisso não desgasta mas aviva o desejo, talvez porque nunca se pode possuir quem já se tem: “I miss you like a past life/ I can’t remember if/ You were ever mine to miss”. Longe da absorção em si mesmo que caracteriza a adolescência, a vida enche-se de temor e tensão com a presença de um outro, tão real que olhando-o traz o eu à existência, tão indefeso que pode ser magoado, tão frágil que pode desaparecer: “Just the thought of being seen is more than I can take/ I never met a mirror that I couldn’t break”. Mas só assim a vida permanece eternamente jovem, sempre intranquila, sempre em luta, sempre em demanda: “I used to struggle in my youth/ Now I’m used to struggling for two/ I have become uncomfortably numb”. (MPA)

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

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