Mosaico de capas dos melhores álbuns de 2019

Os 25 Melhores Álbuns de 2019

Melhores Álbuns de 2019 | Four of Arrows
10. Great Grandpa, Four of Arrows (Double Double Whammy, 25 Outubro)

“Say I’m young enough to change”, canta Alex Menne em “Bloom”. É esta mesma certeza que tiramos de Four of Arrows. A distância que os separou nos últimos tempos não impediu os Great Grandpa de ousar uma mudança de rumo. Se em Plastic Cough sobressaíam a energia e a distorção, agora são as cativantes melodias que suscitam, desde logo, uma certa afinidade com o álbum. Mas é com uma repetida e recompensadora audição que se descobre a complexidade melódica, a subtileza de certos dedilhados de guitarra que denotam influências country-folk ou as pequenas intrusões de math-rock. Uma riqueza de influências inspiradoras do álbum de que só não nos apercebemos porque nos deixamos primeiro levar pelos versos. Entre angústias pessoais ou reflexões sobre a fugacidade do tempo, parece transparecer uma certeza que se concretiza numa esperança no futuro. (MS)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | Solipsisters
9. Katie Dey, solipsisters (Run For Cover, 31 Maio)

Um dos álbuns mais injustiçados do ano, pela ignorância e esquecimento a que foi votado, solipsisters terminou como começou: solitariamente no quarto tanto de quem o compôs como dos poucos que o ouviram. Conviver com este álbum não é só tomar conhecimento do que alguém tem para nos dizer (murmurar será talvez mais o termo) mas é abraçar e absorver todo um outro modo de conceber a música e a vida. É mudar, é repensar o que importa, o que tem valor, é escolher de que lado se quer estar. Neste disco que resiste a quaisquer tentativas de encaixe ou classificação em géneros, Katie Dey enfrenta os seus fantasmas, as falsas ideias sobre si própria que a faziam sentir-se desconfortável no corpo que habita no mundo (não será antes graças ao qual habita o mundo?). Numa massa sonora tão  indefinível como ela própria, questões de vida ou morte, identidade e relação corpo-mente são colocadas sem que se chegue a resposta alguma. Mas a vitória, cujos finos e discretamente eufóricos acentos emergem por toda a nuvem de lo-fi, está precisamente em chegar a formular as perguntas que orientam a existência em direcção ao infinito de que é procura: “Oh God, i wish to see your soul”.

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Great Grandpa, Four of Arrows | em análise

Muitos odeiam o próprio corpo porque se imaginam outra coisa que não a que esse corpo lhes sugere. Mas Katie Dey resistia à carnalidade por sentir que a sua desajeitada finitude a separava do infinito e dos outros, isolando-a do universo. Pela primeira vez, intui que talvez seja precisamente esse corpo que a faz ser e existir no seio de tudo, dando-lhe um rosto: “If we abandoned our shells/ Do you think anyone could tell/ Who we were?” Da corporalidade sensível do instrumental, uma aquática nebulosa de reverberação vocal, sustentada por uma espaçosa e imponente percussão e alumiada por crescendos lancinantes de piano, violinos e violoncelos, irrompem e somem-se as palavras que carregam a vida do eu. Trazem-nos as interrogações que latejam no íntimo da alma, naquele lugar recôndito que tudo conspira por silenciar, a começar por nós próprios. Mas porquê tanto medo, se o que nos espera é a beleza do que ouvimos em solipsisters? Recusar o ruído do mundo, entrar no quarto onde estamos sozinhos connosco próprios e corajosamente escutar o que luta por brotar do profundo da alma, no interior da nossa concha, é passar para o outro lado do espelho e assumir finalmente um rosto diante desse mundo. Num lugar onde massas de gente prestam culto às Gretas ou Trumps do momento e muitos elegem o disco de Billie Eilish como o melhor do ano, será de espantar que ninguém se espante com este álbum? Claro que não. Duh. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | Norman Fucking Rockwell
8. Lana Del Rey, Norman Fucking Rockwell (Interscope, 30 Agosto)

Lana Del Rey escolheu, como via de expressão da sua experiência pessoal (e de cuja autenticidade não duvidamos) o hábito pós-moderno de reciclar o passado e antepor as ficções à vida que estaria supostamente na sua origem. A vida humana, contrariamente à dos restantes organismos, consiste na consciência de si própria por meio da linguagem, das construções com que descreve, com ou sem verdade, literal ou metaforicamente, o mundo e o seu lugar nele. Nada há de errado em assumir e expor o modo como funciona não só a arte mas a própria mente e pilhar a história recente em busca de sonhos idos, nem por isso menos amáveis. Lana Del Rey ressuscita o desejo e abandono das mulheres dos melodramas de Douglas Sirk, a angústia juvenil de que James Dean se tornou símbolo, a liberdade do rock’n’roll, a solidão do film noir e o colorido da Arte Pop para se apropriar e tomar consciência da sua existência ao mesmo tempo que cria, com Norman Fucking Rockwell, um retrato relevante da nostalgia moderna, da omnipresente sensação de termos perdido qualquer coisa de precioso e irreparável. Lana Del Rey fala sobre si mesma por meio das construções alheias, tão interiorizadas que nada mais há para lá delas, até, à maneira da Terra Devastada de T.S. Eliot, gerar um lirismo tão emprestado quão original, uma personalidade tão partilhável quão inalienável: “So I moved to California‚ but it’s just a state of mind/ It  turns out everywhere you go‚ you take yourself‚ that’s not a lie”. Absolutamente de acordo. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019
Melhores Álbuns de 2019 | MAGDALENE
7. FKA Twigs, MAGDALENE (Young Turks, 8 Novembro)

A arte de capa de MAGDALENE metamorfoseia o rosto de FKA twigs num ente estranho mas poderoso, entre o busto grego e a gárgula medieval. Um entre os inúmeros gestos de performance que acompanham o conteúdo lírico e sonoro deste álbum, o trabalho de Matthew Stone consagra indelevelmente outra das figuras que deram uma (certa) identidade à década que finda. Confortada pela imagem de Maria Madalena, ao mesmo tempo que a recria à imagem e semelhança do que pensa ser de mais conforto para si e outras mulheres em iguais circunstâncias, FKA twigs traz à existência uma das pedras preciosas, mas também um dos arquétipos mais espinhosos, que o pop/R&B desta década legará ao futuro. Sintetizando a sua sonoridade extraterrestre com a emotividade deste mundo, a rainha indiscutível do género expõe em MAGDALENE fragilidade e solidão, frustração tornada desejo de poder, feridas por curar e esperança indelével no futuro. FKA twigs permanece seráfica e discreta no seio da turbulência experimental dos seus sintetizadores, desta feita espaçosos e melódicos. Numa voz mais harmoniosa e franca, esboroado o enigma de antes, diz-nos, enquanto o repete para si própria, que a felicidade é possível: “Take a chance on all the things you can’t see/ Make a wish on all that lives within thee”. E nós acreditamos. Por tudo o que não vemos, por tudo o que vive em nós, não podemos não acreditar. (MPA)

Melhores Álbuns de 2019 | Ghosteen
6. Nick Cave & The Bad Seeds, Ghosteen (Ghosteen, 4 Outubro)

Para quem pudesse pensar que Skeleton Tree ou mesmo o documentário de Andrew Dominick, One More Time With Feeling, poderiam ser os trabalhos artísticos de Nick Cave onde a dor não poderia, de forma alguma, ser superada, tal certeza dissipa-se logo na abertura de Ghosteen, em “Spinning Song”. Neste seu novo disco, Nick Cave fala do processo de regeneração de uma ferida exposta – o falecimento do seu filho de 15 anos, em 2015 – num álbum-catarse, tão belo e melancólico quanto doloroso e destrutivo. “Ghosteen” capta de forma magistral a angústia de um pai que perde um filho e medita de forma profunda sobre a dor que sente e como a pode superar. Um álbum absolutamente perfeito, essencial desta década e das décadas que ainda virão. (DR)

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

2 thoughts on “Os 25 Melhores Álbuns de 2019

  • E os Tindersticks? No treasure but hope

  • Cara Maria João, embora todos nós aqui apreciemos os primeiros álbuns dos Tindersticks, o trabalho mais recente da banda – incluindo este último disco – apesar de eficiente e sempre significativo, não tem sido tão relevante que sentíssemos essencial destacar numa lista de apreciação do ano musical, onde gostamos de chamar a atenção para os artistas que criaram alguma coisa de existencialmente profundo, de perfeitamente articulado, de inovador da prática artística, de sonoramente inconfundível e insubstituível, etc. Qualquer selecção será sempre limitada e deixará muitas obras meritórias de fora (e por aqui somos nós os primeiros a sofrer com todos os álbuns que ouvimos, estimámos e não conquistaram um lugar no topo!). O importante é que cada pessoa esteja segura do seu próprio juízo de gosto, podendo oferecer razões pelas quais a sua lista pessoal é de valor e recomendável a outros 🙂 Sugerimos mesmo que cada um conteste a nossa lista com uma outra alternativa, acompanhada de alguma justificação que possa convencer os restantes leitores a ouvir os álbuns da sua preferência. Muito obrigado pela sua interpelação, que revela uma estima pela arte musical e um envolvimento pessoal com aquilo que aqui recomendamos.

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