Emily Sprague (foto de Carley Solether)

Mês em Música | Playlist de Julho 2019

Playlist de Julho | Os álbuns

Remembering the Rockets é apenas o segundo álbum dos Strange Ranger, mas a experiência dos vários membros que compõem a banda já é longa e não falta, por isso, maturidade artística ou humana a este disco ultimamente melancólico. Isaac Eiger encontra-se naquela fase tardia da juventude onde a gravidade das coisas se começa a fazer sentir e a penetrar pelos poros a mente e a identidade. O ritmo ligeiro e a suavidade etéreas de Daymoon (2017) foram substituídas aqui por uma atmosfera no cômputo geral pensativa e vagamente dolorosa.

As melodias cantáveis mas nostálgicas e de andamento mais ou menos arrastado, a lembrar por vezes o grunge (como em “Ranch Style Home” ou “Beneath the Lights”), juntamente com a nebulosidade do eco e da distorção, sublinham o drama de desejar ser pai num mundo ecologicamente ameaçado, da passagem do tempo, de relações que se complicam na intimidade. Os vários e longos fragmentos instrumentais, sobrevoados por vezes pelas vozes flutuantes, etéreas e afundadas na mistura de Isaac Eiger e Fiona Woodman, dão ao álbum um tom jazzístico de improvisação e fluidez que contrasta com, mas por isso mesmo intensifica, as ruminações plangentes dos versos. O resultado é uma versão de slowcore nada minimalista, de textura densa, ritmos dançáveis e elementos de shoegaze, que, se lembra os Galaxie 500 ou os Red House Painters, também converte Remembering the Rockets numa experiência de audição memorável e os Strange Ranger numa das promessas para a década que aí vem.

STRANGE RANGER | REMEMBERING THE ROCKETS

Playlist de Julho | O álbum do mês

Num mês que não abundou em lançamentos de LPs, não foi difícil perceber qual o álbum que sobressaía. Sobre Emily Alone, dos Florist, dissemos na nossa crítica: “Emily Sprague tem razão quando considera este disco uma criação sua enquanto membro dos Florist. Não há nenhum grande desvio da personalidade musical deste projecto e o álbum está bem longe dos trabalhos de música ambiente que a cantautora e produtora assinou com o próprio nome. Ao mesmo tempo, salientar por meio do título que a sua pessoa está na origem deste álbum e no centro do seu conteúdo dá conta de algumas pequenas mas relevantes e evidentes diferenças que percorrem todo o disco.

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Florist, Emily Alone | em análise

A guitarra, com os seus arpejos dedilhados ao de leve ou insistentemente, assume aqui um papel preponderante, ao contrário do que acontece nos Florist, onde partilha com os sintetizadores, em partes iguais, o protagonismo do instrumental. A voz e os versos de Emily Sprague soam, ao mesmo tempo, mais íntimos e mais decididos do que no seio das composições da banda, onde uma e outros flutuam etéreos e dispersos. O eco da voz e a reverberação da guitarra, sobre um fundo de suaves sintetizadores, toques de melódica e acentos de guitarra elétrica, criam uma atmosfera que interioriza as habituais, mas aqui mais maduras e pungentes, interrogações existenciais de Sprague. A morte da mãe, o fim de uma longa, aparentemente estável, relação amorosa e a migração de cidade, de um lado ao outro da América, transfiguraram-nas de devaneios ainda adolescentes numa ferida aberta a urgir uma resposta. Se a performance vocal continua tão ou mais sussurrada do que o costume, a seriedade das meditações que vão sendo tecidas nesta deambulação mental traz um peso, uma gravidade que torna tudo mais coeso, concentrado, resoluto. Mesmo na sua irresolução.”

FLORIST | EMILY ALONE

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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