O linchamento social de Matthew Johnson

Os Hookworms terminaram, devido a alegações feitas no Twitter contra o seu vocalista e teclista, Matthew Johnson. No fim, quem fica a perder são a democracia e a arte.

No dia 31 de Outubro de 2018, ano em que Microshift prometia constar de todas as listas de melhores álbuns, os Hookworms terminaram, cancelando todos os concertos marcados. O líder da banda fora acusado, numa nota publicada no Twitter por Alanna McArdle, vocalista dos Ex-Vöid, de ter abusado sexualmente de uma mulher identificada como “L” com quem Matthew Johnson (MJ) estivera envolvido em 2016. Johnson emitiu um comunicado a negar terminantemente a verdade das acusações, retratando L como uma pessoa psicologicamente perturbada.

É um acontecimento triste em qualquer universo, e não apenas o musical, a marcar negativamente o mês. Quanto ao que se terá realmente passado é preciso esperar até que os factos se clarifiquem e a verdade venha ao de cima. Se as acusações forem fundadas, a situação é deplorável e deverá ser enfrentada e julgada para que as feridas (em ambas as partes envolvidas) possam ter uma hipótese ou início de cura. A este mal (caso se tenha, de facto, dado) acrescem outros dois, mais perigosos só na medida em que parecem ser menos evidentes e estarem traiçoeiramente difundidos no ambiente.

Matthew Johnson - Hookworms
Hookworms

É preocupante nesta situação (mas também noutras semelhantes, como a de Orri Páll Dýrason, baterista dos Sigur Rós) quer a substituição das instituições democráticas por um tribunal popular como via para lidar com o caso, quer a imediatez com que Matthew Johnson foi considerado culpado até prova em contrário. A ausência de quaisquer notas cautelares nos anúncios feitos, inclusive o da própria banda; a aceitação unânime e acrítica do testemunho da acusação pelas imensas pessoas que se pronunciavam nos comentários e em blogs; a velocidade com que se deixou de acreditar em Matthew Jonhson, o moralista impoluto (crença e estatuto já de si muito duvidosos), para acreditar em Matthew Jonhson, o criminoso; todas estas reacções, ainda antes de constituírem uma corrosão do Estado de direito, são sintomáticas de uma perigosa ingenuidade humana, que desconhece a complexidade das situações morais e reage sentimentalmente com base em ideologias mais ou menos na moda.

Perigosa porque propícia a cometer a tirania demagógica do linchamento e a sofrer a tirania autoritária dos Hitlers, Estalines, Trumps e Bolsonaros deste mundo. Ideológica porque suspeito que andamos a tentar corrigir a injustiça de, por muito tempo, a palavra de um homem ter valido mais do que a de uma mulher com a igualmente injusta atitude de dar mais crédito à palavra de uma mulher do que à de um homem. Uma injustiça que é também uma forma de discriminação, porque a palavra de uma mulher não vale por ser verdadeira (para o que precisa de poder ser falsa), mas por ser de mulher. Tanto tempo gasto a erodir e a lutar contra os modelos seculares de angelização feminina, onde não pulsava a sua terrena mas real e humana fragilidade, para criarmos e aceitarmos um novo estatuto especial pelo qual uma mulher é sempre inocente e sairá sempre impune.

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Para além de um problema político mais geral, um outro há, relativo à arte, que tem vindo a crescer nos últimos anos e aqui emerge de novo. Dan Reeves da Faux Discx comunicou (sempre no Twitter) que decidira retirar Microshift da página Bandcamp da discográfica como forma de apoiar as vítimas de abuso sexual. Ainda que o produtor e vocalista dos Hookworms seja culpado, Microshift permanece um grande álbum, independentemente das falhas humanas mais ou menos graves de um dos seus criadores.

A questão aqui não é os domínios do artístico e da moral serem autónomos e não deverem ser confundidos, até porque penso que toda a arte é moral. É antes que Matthew Johnson não pode ser reduzido apenas ao crime cometido (se é que o cometeu) mas, como pessoa que é, o seu quadro moral é mais complexo e abrangente, incluindo coisas como o humanamente interessante Microshift. Um quadro que integra, por exemplo, o sofrido amadurecimento que veio com a destruição do seu estúdio Suburban Home numa catástrofe natural, a morte do seu engenheiro de som, amigo de longa data, e a perda do pai para o Alzheimer e depois para o cancro. Um drama moral que Matthew Johnson teve a capacidade técnica de transformar num documento comovente. O problema não é a moral, mas o moralismo que comete o grande erro de pensar que haja gente imaculada, sem necessidade de perdão e autorizada, ainda por cima sem julgamento prévio, a atirar a primeira pedra. Ou a remover das prateleiras um dos melhores discos do ano, como se a qualidade fosse menor porque o autor, para além de um grande artista, é também um pecador.

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Quando, em Janeiro de 1857, a sociedade francesa levou Gustave Flaubert a tribunal, acusando a sua Madame Bovary de obscenidade, pelo menos era o conteúdo do livro (ou o seu tratamento amoral) que estava sob julgamento. Desta vez é pior porque a Microshift nada se lhe pode apontar, tendo apenas a infelicidade de ser uma obra existencial, que não procura avançar nenhum ponto da actual agenda política, e de ter sido, ainda por cima, criado por um putativo abusador. Esperemos que a verdade venha ao de cima e de um modo que garanta a sua certeza e justiça. Independentemente do desenlace, não retirarei Microshift da minha lista pessoal dos melhores álbuns de 2018, a não ser que daqui até Dezembro chovam outros 50 melhores do que ele. Convenhamos que é pouco provável.

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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