"Patrick" | © O Som e a Fúria

LEFFEST ’19 | Patrick, em análise

Patrick”, a primeira longa-metragem de Gonçalo Waddington, conta uma história complicada de traumas da meninice e redenções abortadas. O filme está em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Poucos filmes prestam atenção à pele das suas personagens. Não nos referimos a questões de raça, mas de textura e luminosidade, de idade. “Patrick” começa com um gesto que nos leva inexoravelmente a pensar na pele do seu protagonista. Hugo Fernandes aparece-nos numa clínica cosmética, nu e disposto diante de uma sala de janelas frondosas. Sua pele é banhada pela luz natural enquanto uma técnica lhe passa um laser pelo corpo. Primeiro vemos isto num plano geral bem composto e estéril, mas rapidamente a câmara é aliciada por este monumento de virilidade juvenil. Assim voamos sobre o corpo do jovem, assinalando a sua suavidade e falta total de pelos. É algo que sugere a preocupação de um adulto sexual, mas também refere a meninice daqueles que ainda não passaram pelo flagelo da adolescência.

Há também o seu quê de obsceno no movimento de câmara e essa condição só se intensifica quando chegamos à cara do sujeito que está a ser depilado. Hugo Fernandes dá vida a Patrick e a sua cara é um manifesto perfeito de juventude prolongada. Ainda se denotam as feições da criança, mas o sobrolho franzido e a sobrancelha pesada delineiam a cara de um homem. No entanto, a pele e suas texturas voltam a chamar a atenção, desta vez para o acne que lhe rasga a perfeição facial. Entre sexo e juventude, temos aqui um estranho espécime de adolescência prolongada, de erotismo deturpado e de um miúdo preso no meio destas contradições. O realizador Gonçalo Waddington tudo isto sugere e pergunta com somente dois planos.

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Este tipo de engenho minimalista não se prolonga pela totalidade de “Patrick”. Basta vermos a sua retorcida história, que pode ser contada com contenção, mas não deixa de ser um perturbador conto de reviravoltas bizantinas e desejos criminosos. Tudo começa com este jovem sem pelos, este Patrick que vive em França à mercê de um amante francês. É um homem mais velho e abastado que tudo paga ao mais novo em troca do corpo e do prazer. Afeição não parece ser parte do negócio e Patrick é deveras insensível, preferindo passar o tempo livre a embebedar-se e seduzir raparigas, a espancar homens na rua e gravar vídeos de agressões sexuais.

É a gravar um desses pérfidos vídeos que Patrick é intercetado pela polícia. Curiosamente, as autoridades não parecem muito interessados nas manipulações narcotizadas que este jovem terá infligido sobre mulheres insuspeitas. Pelo contrário, a atenção dos polícias centra-se noutro tipo de vídeos pérfidos, uns que mostram como Patrick terá sido a estrela relutante de todo um circuito de pornografia infantil. O nome verdadeiro dele é Mário e, em criança, foi raptado depois de um treino de futebol em Portugal. Aos 18 anos, o menino foi libertado pelos seus captores, mas, ao invés de voltar ao seu país e família, decidiu ficar por França.

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Os anos de abuso tornaram-no numa criatura quase feral, guiado por impulsos que não compreende e sempre com expressão carrancuda a pintar-lhe a cara juvenil. Qual animal enjaulado, ele é reencaminhado para Portugal, para a casa da mãe que nunca desistiu de o encontrar e cujo espírito foi sendo cinzelado pela mágoa e pelo luto. Cada um traumatizado do seu próprio jeito, mãe e filho acabam por despoletar um clima de perpétua animosidade e tensão, magoando-se um ao outro na sua incapacidade para comunicar. Aliás, a única pessoa capaz de transcender a muralha emocional que o protagonista construiu à volta do coração é a prima da mesma idade.

Mesmo assim, a salvação parece estar fora do alcance de Mário, revelando como a verdadeira tragédia de “Patrick” não é o passado infernal deste jovem, mas sim o modo como o trauma lhe tornou o futuro numa impossibilidade. Para complicar ainda mais a situação, há ainda a dependência de uma criança prisioneira a infetar a mente deste jovem que ainda tenta comunicar e agradar ao seu captor de tantos anos. O ritual de depilação no início do filme é parte da cosmética que ele adota para agradar aos ideais de beleza do homem que o raptou e depois rejeitou quando ele era velho demais. A mente do protagonista trata-se de um miasma de psicoses bizarras e traumas fraturantes, uma tempestade de horror tão grande que é difícil compreender o que lhe vai na alma.

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Para crédito de Gonçalo Waddington, o realizador nem finge conseguir entender a psique do seu anti-herói. Por outro lado, o cineasta posiciona o espectador na pele da prima ou da mãe, na pele daqueles que olham para este jovem e são justamente incapazes de decifrar os seus mistérios. Há empatia e até simpatia, mas as distâncias mantêm-se sempre, fazendo de Mário o cruzamento entre uma cifra e a besta feroz que ataca a mãe no sofrimento. O mais impressionante de tudo é que torcemos pela felicidade deste jovem e fazemos o luto dela quando nos apercebemos que a vida de “Patrick” é um fado onde não há espaço para júbilos. Talvez em tempos houvesse, mas já não é assim.

“Patrick” conta-nos esta história improvável com contenção estilística, sendo que Waddington coloca quase todo o sucesso do filme nas mãos do ator principal. Pelo que lhe compete, Hugo Fernandes é estupendo no papel, representando a identidade bifurcada e distorcida deste jovem com tanta clareza como necessária opacidade. Patrick muitas vezes veste uma máscara de inexpressão taciturna, mas Fernandes sabe como tornar essa invariável barreira emocional num mecanismo de caracterização. Há raiva juvenil a esconder-se atrás da pele borbulhosa, há angústias impossíveis de articular a brilhar naqueles olhos. O milagre desta interpretação é como Patrick é um prisioneiro de si mesmo e como ele próprio parece frustrado com a sua inabilidade de comunicar. Trata-se de um trabalho que merece aplausos e só o triunfo de Fernandes já justificaria toda a existência do filme.

Patrick, em análise
patrick critica leffest

Movie title: Patrick

Date published: 2019-11-20

Director(s): Gonçalo Waddington

Actor(s): Hugo Fernandes, Alba Baptista, Lydie Barbara, João Pedro Bénard, Adriano Carvalho, Teresa Coutinho, Carla Maciel

Genre: Drama, 2019, 103 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Patrick” é uma história de trauma e de incompreensão mútua, trata-se de uma tragédia e de um estudo de personagem. Gonçalo Waddington tem aqui uma estupenda estreia enquanto realizador, mesmo que a contenção emocional da obra nem sempre resulte.

O MELHOR: A prestação de Hugo Fernandes.

O PIOR: A cenografia do amante de Patrick no início do filme é uma caricatura de homossexualidade demonizada, com fisionomia masculina em arte por toda a casa e fotografias de jovens despidos nas paredes.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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