Retrospetiva Jane Campion | O Piano (1993)

O Piano é a magnum opus de Jane Campion e, face à sua magistral grandiosidade, inebriante formalismo e imersivo drama humano, é fácil perceber porquê.

 


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o piano jane campion

Mais do que qualquer outra das suas obras, O Piano define e representa para muitas pessoas toda a carreira e legado de Jane Campion. Trata-se de um filme que ofuscou todos os outros trabalhos da sua realizadora e praticamente se tornou sinónimo do seu nome, ao mesmo tempo que garantiu o lugar de Campion no panteão dos grandes mestres da sétima arte. Passados 24 anos desde a sua estreia no Festival de Cannes, será que O Piano é merecedor de toda esta adoração? A resposta simples é: absolutamente! Na verdade, iríamos tão longe ao ponto de apresentar este filme como uma das raras peças de cinema à qual se pode aplicar justamente o adjetivo “perfeito”, sendo uma das grandes obras-primas da sétima arte. Com tudo isso dito, tal grandiosidade também nos coloca alguns problemas. Afinal, quando estamos perante um objeto artístico de tal magnitude, por onde começamos?

Na esperança de manter alguma ordem e simplicidade, comecemos pelo enredo. Em meados do século XIX, Ada, uma mulher escocesa, é enviada pelo seu pai para a Nova Zelândia, onde um homem abastado comprou a sua mão em casamento. No início, vemos a sua chegada à agreste costa da nova pátria acompanhada pelas suas mais importantes posses, a filha Flora e o seu piano. Ada é muda desde infância e ninguém, nem mesmo ela, sabe a razão para o seu silêncio, sendo que o adorado piano se converteu na sua voz, enquanto Flora é a intérprete que lhe permite comunicar com o mundo. Depois de uma noite passada ao relento, Ada e Flora lá são recebidas pelo futuro marido da pianista, Alisdair Stewart, que, devido à escassez de homens e ignorando as súplicas da noiva, deixa o piano abandonado na praia. Não demora muito tempo, até se tornar evidente que, para Alisdair, a sua mulher é pouco mais que uma nova posse. Uma coisa é certa, ele não a compreende ou aceita a sua bizarra natureza. Quem também não a compreende é Baines, outro expatriado escocês que vive com os indígenas Maori, mas ele sente-se atraído pelo mistério. Por isso, compra o piano a Alisdair e convence Ada a lhe dar lições, eventualmente forçando a mulher a prostituir-se se quiser estar em contacto com o instrumento. A atração mútua acaba por florescer entre os dois, na mesma medida em que Ada fica cada vez mais alienada do seu marido e até da filha.

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Como se veio a tornar costume nos filmes de Jane Campion, o tema principal de O Piano é a identidade. Poderíamos, por exemplo, sumarizar o conflito central como a luta de uma mulher por preservar a autonomia sobre o seu corpo e voz, que os patriarcas da sua vida querem controlar. Veja-se a sua trajetória: Ada é vendida pelo pai, comprada por um homem que vê nela pouco mais que um símbolo da sua caridade com um elemento de gratificação sexual a servir de bónus, e forçada a prostituir-se por Baines. Pelo menos este último, quando se apercebe da monstruosidade da sua atitude, acaba por dar o piano livremente a Ada que, por sua vez, só aí consegue retribuir os afetos do escocês. Num mundo destes, o silêncio torna-se na principal arma que a protagonista tem para reclamar poder sobre a sua pessoa, mesmo que de modo inconsciente. O piano é o símbolo máximo da sua liberdade e o objeto que ela usa para definir toda a sua identidade. Paradoxalmente, isto também cria uma situação em que a posse de um objeto representa um domínio quase absoluto sobre Ada.

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De modo semelhante ao que aconteceu em todos os trabalhos anteriores da realizadora, a temática central é explorada através do que não nos é dito ou exposto. Neste caso, a mudez autoimposta de Ada é o mistério que posiciona a própria heroína como uma espécie de buraco negro de informação. É difícil não sentir compaixão para com Ada, e é verdadeiramente fácil simpatizar e entender as suas reações às injustiças que sobre ela se abatem, mas nunca podemos dizer que compreendemos quem Ada realmente é. Graças ao maravilhoso trabalho de Campion e de Holly Hunter, Ada é uma cifra e um poço de contradições que, mesmo assim, nunca parece um abstrato ou uma estilização vácua, mas sim um incompreensível ser humano complicado de carne e osso. Se Janet Frame representou o protótipo base para a heroína típica de Jane Campion, Ada é a sua versão mais extrema e radical.

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O tema de identidade e domínio sobre a identidade do outro não é algo que se resuma somente à construção da figura de Ada. Alisdair, brilhantemente interpretado por Sam Neill, não é somente opressor de Ada. Também os Maori são, para ele, parte da sua propriedade pessoal como se fossem objetos ou gado. Harvey Keitel interpreta Baines como alguém que reclamou a sua autonomia identitária à força e que inconscientemente exerce o seu domínio sobre os outros sem maldade, mas sim uma negligência nascida do privilégio masculino. Flora, interpretada pela jovem Anna Paquin, é contudo mais interessante que os dois homens do triângulo amoroso. Ela representa a capacidade de Ada para ser tão dominante e opressiva como os homens da sua vida, pois, ao tornar a filha em intérprete, a protagonista levou a que a criança tivesse toda a sua identidade subalterna à voz da mãe. Acostumada a ser uma extensão da sua progenitora, Flora é catastroficamente abalada pela relação de Ada com Baines. Se ela não é a única pessoa que compreende a misteriosa pianista muda, quem é Flora? No seu pânico, ela torna-se numa entidade destrutiva mas Campion, como é seu hábito, nunca ousa julgá-la.

Até agora, apenas nos referimos a elementos interpretativos, temáticos e textuais, tendo chegado a altura de nos focarmos no formalismo de O Piano. Para começar, este é um filme extremamente húmido. Há algo de primordial, quase bíblico na visceralidade selvagem do ambiente que envolve o drama humano, para nada dizer do isolamento de uma comunidade que vive numa ilha abatida pelo que parece ser uma eterna tormenta de chuva e lama. Pintada em tons aquosos de verde, cinzento e azul nos exteriores e âmbares rasgados por sombras negras nos interiores, a fotografia de Stuart Dryburgh traz ao drama esse toque de visceralidade lamacenta ao mesmo tempo que sugere a atmosfera bruta de um romance gótico. A própria Jane Campion admitiu que O Monte dos Vendavais foi uma das suas principais inspirações, especialmente no que diz respeito à simbiose de emoção humana e paisagem.

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Essa peculiar relação entre a materialidade extrema, que é subjacente à apresentação de uma realidade geográfica e temporalmente específica, e a expressão lírica de uma dimensão emocional trespassa outros elementos de O Piano para além da sua fotografia. Os cenários esquálidos de Andrew McAlpine e o severo guarda-roupa vitoriano de Janet Patterson são essenciais nessa evocação visual. Ao mesmo tempo, a montagem orquestra as várias imagens num esquema de cortes bruscos alternados com vagarosos dissolves que vão assim insistindo numa efémera membrana que separa o material do etéreo. Como a cereja no topo de bolo, temos a dimensão sónica do filme, cuja sonoplastia rica em conspícuos sons naturais dá sempre uma posição privilegiada à apaixonante banda-sonora de Michael Nyman, cujo estilo minimalista é um bizarro modulador dos exageros mais necessariamente românticos da música de O Piano. Todos juntos, estes elementos conjuram uma experiência orgástica de puro cinema. É inebriante, hipnótico e completamente imersivo.

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Este conto de fadas adulto, sobre a odisseia pessoal de uma mulher em busca do domínio sobre a sua própria identidade, voz e destino, é um predador voraz, sempre em busca de oportunidades para nos dilacerar com o seu monstruoso investimento emocional, conjurando empatia como um veneno paralisante para nos deixar embasbacados em frente ao ecrã. Ousado, destemido e inspirador na sua representação do olhar feminino, do desejo reticente de intimidade, do tato de uma terra inóspita, da atmosfera de um mundo distante, este é um filme nascido para quebrar barreiras e redefinir parâmetros cinematográficos. No final, não há palavras suficientes para descrever o poder de O Piano, simultaneamente tão simples e tão monumental nas suas ambições, temas, história e soluções formais, que apenas podemos deixar aos leitores um genuíno apelo que, caso não tenham visto esta obra-prima, retifiquem rapidamente a situação. Vocês merecem esta experiência.

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Jane Campion tinha passado toda a sua vida enquanto cineasta a querer fazer este filme, tendo precisado de adquirir suficiente prestígio internacional antes de conseguir obter completa liberdade artística e os recursos necessários para dar vida à sua ideia. No final, O Piano ganhou a Palme d’Or, tornando Campion na única mulher a alcançar tal feito, e foi indicado a oito Óscares, incluindo Melhor Filme e Realização. Hunter, Paqquin e Campion viriam a ganhar estatuetas pelas suas interpretações e pelo argumento do filme. Depois de todo este sucesso, o que se segue na carreira desta cineasta? Descobre na próxima página!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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