Queer Lisboa ’17 | Beach Rats, em análise

Beach Rats” é um retrato de um jovem de Brooklyn, cujos desejos são incompatíveis com ideias generalizadas de masculinidade. Este é um dos filmes em competição no Queer Lisboa deste ano.

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Nenhum dos jovens homens de “Beach Rats” faz algo pela vida. Melhor dizendo, nenhum deles faz nada na vida ou com a sua vida, e não nos referimos somente a questões de emprego. Eles são todos iguais. Brancos, musculados, suados, com cabelos curtos e vestidos da mesma maneira com calções largos, boxers simples e t-shirts de mangas cavas. Todos eles deambulam por Brooklyn como fantasmas, circunscritos a uma área limitada, apesar do seu dia-a-dia poder trespassar uma superficial ideia de liberdade juvenil. Em breves e regulares interlúdios, drogam-se, bebem, fumam num “vaping parlor” e banham-se placidamente ao sol na praia local. A presença feminina, tão rigidamente definida como a masculina, vai aparecendo ocasionalmente como forma de gratificação sexual que, nas cenas que o filme nos mostra, nunca parece muito gratificante.

Frankie é um desses rapazes, se bem que algumas idiossincrasias pessoais o diferenciam. Para começar, a sua vida familiar é relativamente conturbada, estando a sala de estar da sua casa ocupada pela cama de um pai moribundo, em constante dor devido ao cancro. A sua irmã mais nova está a entrar no mundo do sexo e a transmutar-se em mais uma das raparigas de calções curtos e piercings no umbigo que vagueiam todas as noites por Coney Island. A sua mãe é uma tempestade de dor enlutada contida num corpo humano, sempre com um olhar ora curioso ou reprovador para examinar o seu filho. Para além de tudo isso, Frankie sente-se atraído sexualmente por homens e isso é uma clara violação do ideal masculino que domina o seu mundo e define o modo como ele o encara.

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Histórias de jovens presos dentro do armário por situações sociais opressivas e retratos de masculinidade tóxica são comuns, especialmente no panorama do cinema queer. Com isso dito, poucos são os filmes que tão claramente definem o próprio conceito de “armário” como uma manifestação dessa mesma toxicidade, pelo menos no que diz respeito a homens gay. Imagens culturais sublimadas e interiorizadas pelo indivíduo tornam-se numa arma de auto opressão em “Beach Rats”.

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A certa altura, Frankie diz, a um dos homens que conheceu graças a um site de encontros gay, que ele não sabe o que é que gosta. Isto é uma clara mentira. Ao longo do filme é óbvio, não só que Frankie não se sente sexualmente atraído por mulheres, mas até o seu “tipo” de homem preferido. No entanto, a afirmação soa a verdade, pois Frankie acredita piamente nisso. Quando ele se vê ao espelho, vê um espécime de masculinidade igual a tantos outros, incluindo os seus amigos, e isso é uma ideia incompatível com os seus desejos.

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“Beach Rats” abre com um momento de sublime engenho visual. Frankie tira fotografias ao seu corpo no espelho do quarto. Cada flash da câmara do telemóvel rompe com a escuridão do ecrã negro, revelando-nos fragmentos possivelmente sensuais, mas quase tornados em arte abstrata pela sua apresentação. Há uma imensa desconexão entre as imagens e a pessoa que as tira e que também serve de modelo, como se Frankie estivesse a mirar um corpo que não o seu. Ele vê o seu corpo, ele sente os seus desejos, ele age consoante as suas necessidades epicúrias, mas não consegue aceitar a conflagração dessas ideias. Ele vê o seu reflexo, a sua imagem virtual, mas nunca se vê a si mesmo.

Cada flash é semelhante à explosão do fogo de artifício que tanto se repete pelo filme como um leitmotiv simbólico, breve, efémero e momentaneamente jubilante. As cenas de sexo com homens têm um efeito semelhante na estrutura de “Beach Rats”, oferecendo variações rítmicas e mecânicas a uma obra cuja abordagem formal está sempre a salientar o desconforto do protagonista. Nessas cenas, por muito reticente que Frankie possa parecer, há algo que se liberta na sua postura, algo que se abre no seu olhar vítreo e que se suaviza na sua face sardenta em constante tensão. Todos, enquanto seres humanos, queremos ser felizes, independentemente das formas desta, e, nesses breves instantes, Frankie parece saborear a possibilidade de felicidade. Mas não dura muito.

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Verdade seja dita, Frankie tenta partilhar a sua identidade com os amigos e com a sua namorada. Fá-lo indireta e evasivamente, mas é óbvio quais são as suas intensões quando revela, aos três companheiros do costume, que costuma frequentar sites de encontros gay. Ele usa o subterfúgio de estar em busca de drogas, e tal mentira tem as suas desastrosas e muito previsíveis consequências, mas Frankie está a tentar testar a força das paredes do seu armário. Com cada resposta intolerante, com cada riso cruel, reação incrédula e olhar desconfiado, aquela possibilidade de ser abertamente feliz, vai-se extinguindo e o fumo da sua morte sufoca o filme e asfixia as suas personagens. Não é por acaso que “Beach Rats” termina com a imagem do céu noturno, negro, silencioso e sujo com farrapos de fumo depois do fogo-de-artificio terminar.

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A proposta formal e narrativa de “Beach Rats” está longe de ser particularmente original, mas os esforços da realizadora Eliza Hittman e da sua equipa garantem que a execução da sua premissa seja feita com absoluto primor cinematográfico. A diretora de fotografia Hélène Louvart e o compositor Nicholas Leone são particularmente louváveis, criando uma atmosfera audiovisual de deliberada repetição, de efémera materialidade granular e de frágil claustrofobia.

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Merecedor de ainda a maior destaque é o ator inglês Harris Dickinson, cuja presença em frente à câmara é eletrizante. Frankie não é uma personagem particularmente verbosa ou minimamente articulada, mas Dickinson diz-nos tudo o que precisamos de saber com a sua postura, com o medo que rasga tantas vezes o seu olhar, com o ritmo do seu andar.  Mesmo quando o protagonista está num estupor drogado, depois de mais um ato de auto anestesia disfarçada de hedonismo juvenil, há uma claridade fogosa no trabalho de Dickinson, que, se este filme é um bom indicador, poderá vir a afirmar-se como um dos grandes atores da sua geração em anos vindouros.

 

Beach Rats, em análise
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Movie title: Beach Rats

Date published: 2017-09-17

Director(s): Eliza Hittman

Actor(s): Harris Dickinson, Madeline Weinstein, Kate Hodge, Neal Huff, Harrison Sheehan, Frank Hakaj, David Ivanov, Anton Selyaninov, Douglas Everett Davis

Genre: Drama, 2017, 95 min

  • Claudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

Iluminado por flashes de câmaras e fogos-de-artifício, banhado no odor do suor de corpos masculinos e afogado no pânico interior do seu protagonista, “Beach Rats” é um triunfo formal e humano da jovem realizadora Eliza Hittman.

O MELHOR: A face de Harris Dickinson filmada pela brilhante Hélène Louvart.

O PIOR: O modo como a figura do pai moribundo e a idade dos homens preferidos por Frankie nas suas escapadelas parecem propor uma ligação Freudiana que não tem lugar num filme como este.

CA

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Comments Rating 5 (1 review)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Queer Lisboa ’17 | Beach Rats, em análise

  • Beach Rats

    Estimado Cláudio, considero a tua resenha deste filme praticamente impecável, excelente. A única coisa que me chateou um pouco foi a fala, ao final, de que a possível “proposta Freudiana” no papel de relacionamentos de Frankie “não tenha lugar neste filme”. Ligações freudianas tem lugar tanto nesse filme quanto em qualquer outro, ou na vida real em si. E ainda por cima tratar isso como o possível “pior do filme”… fala sério pô, isso é um baita viés do filme! Eu estava prestes a aplaudir de pé a resenha quando me deparei com esse final que irritou e me fez enviar uma réplica… hahaha. De qualquer forma não desmerece o resto da análise. Parabéns e um abraço.

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