Queer Lisboa ’17 | God’s Own Country, em análise

God’s Own Country”, o filme que abriu o Queer Lisboa 21, é um comovente retrato do amor que floresce entre dois homens no condado rural de Yorkshire em Inglaterra. Esta é a primeira longa-metragem do realizador Francis Lee.

queer lisboa god's own country

“God’s Own Country” é tanto um filme sobre paisagens como é um filme sobre pessoas. Aliás, o seu título refere-se a um nome usualmente dado a Yorkshire, o condado inglês cujas terras lamacentas e céus nublados pintam este belíssimo filme numa constante tempestade de pincelados em cinzento e castanho. Apesar de tal descrição floreada, há aqui uma cuidada falta de sentimentalismo, que permite ao espetador encontrar beleza na paisagem agreste ao mesmo tempo que o seu protagonista. Assim, de opressivos, os oceanos de nuvens negras tornam-se em algo sublime, as terras inóspitas tornam-se espetáculos de magnificência natural, e até a dura vida dos animais de quinta, que tanto vemos habitar estes terrenos, ganha uma dignidade outrora ausente face ao choque do seu sofrimento.

A transfiguração paisagística é, como já referimos, um reflexo da evolução do protagonista de “God’s Own Country”. Quando o conhecemos, Johnny Saxby é um jovem carrancudo de poucas palavras. Várias cenas passam até ouvirmos qualquer verbalização da sua parte e, quando isso acontece, é feito só para os ouvidos de uma vaca. Ele vive e trabalha numa quinta aparentemente condenada à ruína, e as suas responsabilidades estão apenas a aumentar à medida que o seu patriarca, uma vítima de AVC, vai ficando cada vez mais frágil. Para além do seu pai, a avó de Johnny é a única outra habitante da quinta, sendo que a sua mãe há muito deixou a família e a miséria da sua existência rural.

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Não é difícil perscrutar, em Johnny, um desejo de seguir as pisadas maternas, ou pelo menos o ressentimento que nasceu da impossibilidade de tal atitude. Johnny sente-se preso às suas responsabilidades familiares e a uma região onde nada acontece. Ele mostra hostilidade para com os seus amigos que puderam ir para a faculdade, longe daquela terra, e quase todas as noites vai beber até cair inconsciente. Johnny também é gay, algo que não parece ser segredo para ninguém, mas a sua vida sexual resume-se a algumas escapadelas rápidas no camião de transporte de animais ou na casa-de-banho do pub local. Quando um homem, com quem Johnny acabou de ter sexo, lhe pergunta se ele não quer ir beber um copo, o nosso protagonista responde-lhe com o mesmo tipo de incredulidade cáustica com que o seu pai, noutra cena, reage à ideia de o jovem ir passar uma noite à cidade próxima de Bradford.

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Este homem, que odeia a sua vida e nunca permite a si mesmo ser feliz, é um claro fruto da geografia e da família que o viram crescer. Existe afeto entre as três gerações que vivem na quinta, mas estas são pessoas que aprenderam a manifestar emoção somente através do trabalho, sendo que, por exemplo, uma mãe apenas revela quão apavorada está com a saúde frágil do filho quando está sozinha, quando ninguém pode ver a sua vulnerabilidade. Apenas o trabalho e a subsistência parecem importar e isso torna-se numa prisão, num veneno que isola as pessoas. Tudo vai mudar para Johnny com a chegada de Gheorghe, um imigrante romeno, contratado para ajudar nos partos das ovelhas durante uma semana.

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Inicialmente, ninguém trata o forasteiro de modo mais agressivo que Johnny, que o antagoniza e lhe chama cigano (este filme é um poderoso documento narrativo contra a xenofobia do Brexit), mas a atitude do jovem vai mudando aos poucos. O realizador Francis Lee e o ator Alec Secareanu bem trabalham no sentido de fazer o próprio espetador apaixonar-se por Gheorghe, capturando em si uma calma e ternura que parecem até aí ausentes do filme, especialmente no cuidado dos animais. Contudo, não há nada de ternurento na primeira vez que os dois homens desfrutam carnalmente um do outro.

A cena começa como uma luta na lama, dando a agressividade animalesca lugar ao desejo fogoso, intenso e estranhamente erótico na sua brutalidade. Lee filma os corpos eletrizados pelo desejo com uma franqueza magistral, encontrando aí erotismo casual e orgânico, nunca forçado. O toque, contudo, é capturado como algo titânico, tanto quando se dá entre amantes a tentarem confortar-se um ao outro, como quando se dá entre um pai e um filho a necessitarem da ajuda um do outro. Uma das cenas mais emocionalmente esmagadoras do filme não tem, por exemplo, nada que ver com romance, tratando-se de um gesto de devoção filial, numa situação em que o patriarca necessita da ajuda da sua progénie e lha agradece.

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“God’s Own Country” é um filme de paisagens, como dissemos antes, mas é também um romance. Aliás, o desabrochar do amor entre os dois homens parece coincidir com o momento de maior celebração paisagística do filme.  Para além tudo isso, este é um estudo de personagem focado em Johnny, mais do que em Gheorghe. Ao longo do filme, testemunhamos a sua abertura a um novo mundo de possibilidades, vemos a sua postura alterar-se, sorrisos começarem a rasgar a sua face, empatia a registar-se no seu modo de olhar o mundo.

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Pelo final, parece que estamos a ver um homem totalmente diferente. Quão gradual e impercetível esta transformação acaba por ser é um testamento ao trabalho espetacular do ator Josh O’Connor, que tem extraordinária química com Secareanu. O filme é assim uma celebração do modo como o amor de um ser humano pode ajudar outro, como as nossas relações com outras pessoas moldam quem somos, como o mundo material em que crescemos nos define para bem e pior.

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Haverá quem diga que isso faz de “God’s Own Country” uma história de amor universal, mas tal é negar a especificidade queer destas personagens. Essa classificação é feita para assegurar uma audiência heteronormativa que aqui há algo que lhes possa interessar, apesar de mostrar homens a ter sexo com homens. Por esse subentendido “apesar”, recusamo-nos a usar o termo “universal”. Este é um filme queer, mesmo que saia dos padrões e fórmulas típicas de tais narrativas, como sôfregas histórias de saídas do armário, ou lutas contra sociedades intolerantes. Essa mesma recusa, apenas faz desta joia cinematográfica um objeto de ainda maior valor no panorama do cinema LGBT+ da atualidade.

 

God's Own Country, em análise

Movie title: God's Own Country

Date published: 2017-09-18

Director(s): Francis Lee

Actor(s): Josh O'Connor, Alec Secareanu, Gemma Jones, Ian Hart, Patsy Ferran, John McCrea

Genre: Drama, 2017, 104 min

  • Claudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

“God’s Own Country” conta história de um homem, para quem intimidade pessoal não é algo natural,e o modo como ele descobre, pelo amor de outro homem, a chave para expandir os seus horizontes e a para a felicidade. Este é um triunfo inegável do realizador Francis Lee e toda a sua genial equipa.

O MELHOR: O grande foco que Lee dá a mãos, aos fluidos corporais, à terra e sujidade, assim como à escala do ser humano para com a paisagem e a sonoridade de uma existência rural. A autenticidade sensorial do ambiente é essencial ara o sucesso do filme e eleva-o acima de outras obras semelhantes, dentro e fora do panorama do cinema queer.

O PIOR: O modo como o filme tenta, ocasionalmente, expressar a perspetiva individual de Gheorghe, mas acaba sempre por deixá-lo muito mais indefinido que Johnny.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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