Queer Lisboa ’17 | Quand on a 17 ans, em análise

“Quand on a 17 ans”, realizado por André Téchiné e escrito pelo cineasta com a colaboração de Céline Sciamma, é uma pequena pérola de cinema queer que, apesar da sua modéstia e simplicidade, merece ser amplamente celebrado.

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Através do seu trabalho em filmes como “Naissance des pieuvres”, “Tomboy”, “Bando de Raparigas” e “A Minha Vida de Courgette”, Céline Sciamma tem vindo a afirmar-se como a grande cronista cinematográfica da juventude francófona contemporânea. Nestas obras, regista-se sempre uma visão franca, mas subtil me multifacetada, das angústias, desejos, prazeres e complexidades do individuo infantil ou adolescente. Os seus sujeitos nunca são olhados ora com condescendência ou com o tipo de julgamento implícito na maioria de tais explorações cinematográficas. “Quand on a 17 ans” não é exceção.

O filme não é realizado por Sciamma e ela nem sequer é a única pessoa creditada como argumentista, mas a sua contribuição é inegável. Aliás, poderíamos ir tão longe ao ponto de dizer que a sua associação com Sciamma foi a melhor escolha recente na carreira de André Téchiné que, depois de anos a ser celebrado como um dos grandes autores do cinema francês moderno, havia caído numa triste e aparentemente infinita espiral de insipida mediocridade. O seu talento com atores manteve-se mesmo nos piores filmes, mas as obras com o seu nome foram, aos poucos, perdendo a beleza modesta e a acutilância psicológica dos seus melhores trabalhos de outrora, como o eletrizante “Os Juncos Silvestres”.

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“Quand on a 17 ans” lembra essa obra-prima de 1994, tendo como sua dinâmica central, a relação entre um par de rapazes que acabam por se envolver romanticamente um com o outro. Damien é um jovem magro, loiro, muito inteligente e confiante, mas pouco popular, que vive sozinho com Marianne, sua mãe e uma médica caridosa, enquanto o pai está ausente por razões profissionais, a pilotar helicópteros no Médio Oriente. Thomas, pelo contrário, é mestiço, atlético, de poucas palavras e com problemas académicos, sendo que o trabalho na quinta dos seus pais adotivos e a distância que tem de percorrer todos os dias até chegar à escola não ajudam. Ambos vivem num vale dos Pirenéus franceses, algo que Téchiné e o diretor de fotografia Julien Hirsch aproveitam para encher o filme de belíssimas paisagens.

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Inicialmente, os dois não suportam a companhia um do outro, sendo que, apesar de os dois serem párias sociais no ambiente escolar, Thomas age como um bully para com Damien. No entanto, a situação entre os dois complica-se quando a mãe de Thomas, seguindo os conselhos de Marianne, vai para o hospital na esperança de que, pela primeira vez, uma das suas gravidezes não termine em aborto. Isso coincide com uma visita do pai de Damien e o patriarca pessoalmente convida Thomas a ficar a viver com Marianne e Damien enquanto os seus pais estiverem ocupados com as complicações médicas da gravidez, na esperança de assim ajudar o rapaz a melhorar a sua performance académica.

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Se há algo pelo qual Sciamma e Téchiné merecem ser amplamente louvados é o modo como a história dos dois rapazes não segue nenhuma espécie de previsível dramatismo ou fácil linha narrativa. Apresenta-se sim como uma complexa e muito contraditória tempestade de emoções em violenta colisão, o que por vezes resulta em real agressão física e noutros casos em ternurentos toques de reconforto. Em suma, estas parecem pessoas reais e não personagens construídas para um filme e as suas reações nunca parecem ser regidas pelos ditames mecânicos de uma estrutura dramática.

Veja-se, por exemplo, os sentimentos de Thomas em relação à possibilidade de a sua mãe ter um filho biológico. Não há nada de simples na sua mistura de alegria e amor pelos seus pais com o genuíno medo da rejeição, do ressentimento que o flagela. Nem o realizador, a argumentista ou o ator sublinham em demasia esta faceta da personagem, mas apontam-na o suficiente para que a audiência entenda como esse fator afeta o resto do seu comportamento e como Thomas é uma pessoa complexa que, talvez, por vezes nem se perceba a si mesmo. Damien não é mais seguro ou claro que o seu companheiro. O entendimento da sua própria sexualidade é particularmente marcado pela experimentação confusa e imatura.

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A complexidade que Sciamma e Téchiné trazem a esta aparentemente simples história de amor adolescente não se resume somente às paisagens emocionais dos seus protagonistas. Tal como é sua especialidade, Sciamma sugere questões de injustiça e intolerância social na periferia da sua história central, não caindo na ingenuidade de pensar que um rapaz mestiço atraído por outros homens seria alguém perfeitamente aceite, entendido ou assimilado numa comunidade remota. Ao mesmo tempo, os pais dos dois rapazes, por muito breve que seja a sua aparição no filme, conseguem ocasionalmente ser mais interessantes que os seus filhos.

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Marianne, em particular, revela-se como a âncora do filme ao mesmo tempo que é o seu mais explosivo centro emocional. Pela sua parte, Sandrine Kiberlain é espetacular no papel, alcançando a rara façanha de interpretar uma pessoa genuinamente boa sem a tornar numa cifra unidimensional de positivismo emocional. Quando o texto lhe pede maior vulnerabilidade emocional, durante o último ato da narrativa, ela mostra-se igualmente virtuosa e acaba por esculpir o filme à volta da sua presença, transformando o que poderia ser só uma história de amor adolescente, numa celebração de laços afetivos que incluem, não só o romance, como também a ligação entre pais e filhos, entre médicos e pacientes, entre diferentes gerações a tentarem compreender-se mutuamente.

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No final, “Quand on a 17 ans” é um filme muito modesto, sem grandes fogos de artificio performativos ou alarido dramático. Uma história humana filmada de um modo decididamente simples, mas elegante. Um romance complicado, mas apaixonante, e interpretado com sensual clareza e vulnerabilidade por Kacey Mottet Klein e Corentin Fila. Sumariamente, apesar de ter demorado bastante tempo a chegar aos cinemas portugueses desde a sua estreia original na Berlinale de 2016, esta é uma belíssima pérola cinematográfica que merece ser vista e revista, tanto por fãs de cinema especificamente queer, como por amantes de cinema humanista.

 

Quand on a 17 ans , em análise

Movie title: Quand on a 17 ans

Date published: 2017-09-21

Director(s): André Téchiné

Actor(s): Kacey Mottet Klein, Corentin Fila, Sandrine Kiberlain, Alexis Loret, Mama Prassinos, Jean Fornerod

Genre: Drama, Romance, 2016, 116 min

  • Claudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO

“Quand on a 17 ans” marca o regresso qualitativo de André Téchiné ao tipo de triunfais retratos humanos que tornaram famoso no panorama do cinema francês há mais de duas décadas. Escrito com perspicácia observacional e elegância estrutural, interpretado com inspiração e filmado com atraente modéstia, este é um filme a não perder.

O MELHOR:
A complexidade de cada uma das personagens, tal como elas são imaginadas pelo argumento de Téchiné e Sciamma.

O PIOR: A modéstia formal do filme é agradável de se experienciar, mas, ocasionalmente, parece limitar a obra e o seu sucesso.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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