Sam The Kid, Beats Vol.1: Amor | Replay

Beats, Vol.1: Amor conta uma história de amor, através de samples e instrumentais, que bem podia ser a história de cada um de nós. E, no fundo, é mesmo.

À procura da banda sonora do amor? Ei-la: Beats, Vol.1: Amor. E para os ouvintes premium, a boa notícia é que esta obra prima de 2002 já se encontra finalmente disponível no Spotify, apesar de ter sido a Apple Music, anos antes, a primeira plataforma streaming a fornecer este álbum em formato digital.

Pois bem, sobre Beats, Vol.1: Amor, recuemos até ao ano de 2002. Pouco tempo depois de Sam The Kid se apresentar à praça do Hip-Hop “tuga” (até então pouco povoada) com os seus primeiros álbuns, Entre(tanto) e Sobre(tudo), no século passado – mais precisamente em 1999 – nasce Beats, Vol.1: Amor, cerca de três anos depois. E foi graças ao amor, que serve de tema e inspiração a este álbum de instrumentais, que Samuel Mira nasceu.

Sam The Kid - Beats Vol. 1: Amor
Sam The Kid

Sam The Kid lançou-se no mundo da música armado com uma simples caixa de ritmos. Hoje, é um dos grandes produtores a nível nacional, tanto no hip-hop, onde foi pioneiro e líder numa altura em que ainda estava tudo por descobrir, como no panorama nacional da música portuguesa. É um dos nomes escritos em maiúsculas na nossa história musical, e tornou-se, continuando a sê-lo activamente, numa referência seja em que género for.

As caixas de ritmo passaram a MPC’s (Music Production Controller), e desde então Samuel não largou mais o seu brinquedo. Hoje, continua a produzir como sempre soube: com uma MPC e música dos 7 cantos do globo. Dá vida à música que ninguém ouve, através da arte do sampling, ressuscitando cada faixa perdida num vinil inanimado, esquecido e mal ouvido (mal amado). Sam leva estes discos mortos ao “sétimo céu”, no seu “quarto mágico” em Chelas, e ressuscita-os dando-lhes a vida eterna que merecem. É esta a “Beleza” do sample: tornar uma parte de uma música (ou de uma gravação) maior que a própria enquanto um todo.

Lê Também:
Ano novo, novo Nerve

Neste momento, ao ouvir o álbum em questão ao mesmo tempo que escrevo estas palavras, também eu sou um Sam The Kid, e o meu computador é a minha MPC, onde primo as teclas ao ritmo de cada faixa, como se estivesse a tocá-la na hora, e escrevo sobre (tudo) “O Keu Kero”. A composição de hoje é Beats, Vol.1: Amor, em palavras, uma vez que o álbum é de instrumentais, e as melodias dão voz às poucas palavras declamadas. Sam é um rapper conhecido essencialmente pela qualidade da sua escrita, acima de tudo, mas é em Beats, Vol.1: Amor que transmite mais sentimento, sem dizer muito, onde conta uma história (da relação dos seus pais) do início ao fim. Não nos revela propriamente nada mas conseguimos perceber tudo, desde o momento em que se conheceram, passando pela “Sedução”, até ao nascimento (em meados da sétima faixa) de Samuel, culminando na separação dos protagonistas deste romance, e toda a panóplia de sentimentos que “Vem” com esse final.

Este álbum é um dos clássicos intemporais, e a história que conta é transversal a qualquer amor, em qualquer era ou geração. Por isso, ouvi-lo é sentir o “Eternamente Hoje”. É viver o passado sem lá estar, o presente que não nos pertence, e o futuro inevitável ainda por acontecer. A produção de Sam é inigualável e cheia de identidade. Apesar de, ao longo da sua carreira, já ter explorado inúmeros caminhos ao nível da produção, a sua marca é evidente e nunca passa despercebida. Para os ouvidos mais atentos, um beat do Sam é reconhecível a milhas (sonoras) de distância. Isto porque a relação que o mesmo tem com a MPC é um caso sem igual – a maneira como se entendem mutuamente; como se tocam; como se expressam um através do outro – é a sua “Alma Gémea”.

Desde “A Fundação” do movimento Hip-Hop em Portugal que o foco estava na mensagem marginal, no verdadeiro sentido da palavra, que os rappers pretendiam transmitir. Porém, talvez tenha sido por intermédio do primeiro álbum de instrumentais de Sam The Kid, um dos principais activistas do movimento nos anos 90, que o Hip-Hop nacional começou a ser visto, e ouvido, com outros olhos, e outros ouvidos, dentro de casa, pela opinião geral, como algo mais que música de rua (e o que esse rótulo significa). Sam, como tantos outros, incendiava o papel onde escrevia os seus versos, na esperança que o público visse os sinais de fumo que indiciavam o calor inerente às suas maquetes. Contudo, foi através de Beats, Vol.1: Amor que fez “Fogo Sem Chama”, captando assim a atenção desejada de, pelo menos, ouvintes de outras bandas.

Sam The Kid - Beats Vol.1: Amor
Napoleão Mira

A capa deste disco tem como figura central o então jovem Napoleão Mira, pai de Samuel, também ele poeta e senhor das suas palavras. O amor retratado no disco deu origem ao talento de Samuel para retratar esse mesmo amor, por meio de uma MPC2000. No entanto, uma MPC não cumpre a sua função se não lhe derem música. No fundo, ninguém cumpre a sua função se não houver música algures no processo. Todavia, para a MPC, é um gira-discos que fornece os materiais para ser fabricada a arte para a qual foi concebida, como o gira-discos presente na capa do álbum, no qual, depois de um ou dois “Lances” de olhos, podemos ver o pai de Samuel a “girar”.

Posto isto, dúvidas não restam acerca da história de amor subjacente a esta peça. Ainda assim, dentro de uma história de amor cabem todas as outras. Nesta, o amor de Sam pela MPC, pelo hip-hop, pela música, encaixa perfeitamente, e se ouvirmos o mesmo álbum n’ “A Manhã Seguinte” tendo presente, ao invés, esta história, tudo continua a fazer sentido. Samuel tanto se serviu das melodias e dos samples para darem espaço ao que dizia no papel, “Até Um Dia” serem as próprias melodias e samples a falarem por si, dando voz àquela que neste não se ouve.

Lê Também:
O Melhor Hip-Hop de 2018

Como qualquer história de amor, também esta (ou estas) tem dissabores e episódios tristes. O amor precisa da tristeza para ser amor, pelo que é graças a esse amor findado que Sam The Kid fez uma das maiores obras da música portuguesa (e a maior da sua carreira, a meu ver). Por isso, não há espaço para o “Arrependimento”. As histórias (de amor, concretamente) começam e acabam, nem todas com um final feliz, mas não há nenhuma que não seja feliz enquanto dura. E são essas “Memórias” que mantêm vivas as histórias de amor.

Beats, Vol.1: Amor é um hino ao amor sob todas as formas. É um álbum para todos ouvirem, seja qual for a vossa, a nossa, história de amor. Sobre a(s) minha(s) história(s) de amor, é este o álbum que oiço “Quando a Saudade Aperta”, e assim que a primeira faixa do disco começa a tocar, esteja onde estiver, estamos só “Eu E Tu”. Esta é a minha história de amor pelo Beats, Vol.1: Amor, pelo hip-hop, pela música, que dia após dia, ”Recaída” atrás de recaída, me faz cumprir a minha função: escrever sobre o meu amor pela música, a arte para a qual fui concebido. E se há coisa que aprendi com a música, as histórias de amor, e o Beats, Vol.1: Amor é que “O Amor Não Tem Fim”.

Sam The Kid, Beats, Vol.1: Amor | Replay
Sam the Kid - Beats Vol 1 Amor

Name: Beats, Vol.1: Amor

Author: Sam The Kid

Genre: Hip-hop, Hip-hop instrumental

Date published: 2002

  • Paulo Pena - 90
90

Um resumo

Beats, Vol.1: Amor é uma história de amor com 17 capítulos, contada por Samuel Mira, Sam The Kid, autor, personagem secundária e principal. Um álbum de instrumentais que fala connosco como nenhum álbum cantado o faz, e numa carreira prolífera como a de Sam The Kid, este álbum é capaz de ser o seu projecto menos conhecido e de maior valor. Sam é um rapper exímio no domínio da palavra, mas frente a uma MPC, qualquer beat que faça vale mais que mil palavras. É ouvir e ler, e o resto é com vocês.

Sending
User Rating 0 (0 votes)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending