Seamus McGarvey | De romances históricos a super-heróis

O diretor de fotografia (responsável pela iluminação, escolha de lentes, controlo do foco e, ocasionalmente, da composição e operação de câmara num filme) Seamus McGarvey está de volta aos cinemas com Vida Inteligente, a sua primeira aventura pelo mundo do cinema de ficção-científica.

 

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Seamus McGarvey durante as filmagens de ANNA KARENINA (2012)

 

Ainda na sua juventude na Irlanda do Norte, Seamus McGarvey começou a mostrar um interesse em fotografia. Os seus professores encorajaram o jovem a desenvolver esse gosto e, em pouco tempo, McGarvey já andava a criar uma série de sequências fotográficas em que, a partir de imagens individuais, o futuro diretor de fotografia criava pequenas narrativas. Mais tarde, esse amor evoluiu para um interesse cinematográfico que floresceu quando McGarvey começou a fazer experiências com uma Super 8. Foram esses filmes amadores que garantiram ao jovem os seus estudos superiores na prestigiada Escola Politécnica de Londres onde se especializou na área da fotografia em cinema.

 

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BUTTERFLY KISS (1995) de Michael Winterbottom

 

A sua grande oportunidade para entrar no mundo das longas-metragens veio pela mão de um dos mais peculiares autores do cinema britânico, Michael Winterbottom. O filme em questão foi Butterfly Kiss, um drama de teor homossexual que competiu pelo Urso de Ouro em Berlim e deu a McGarvey a liberdade para criar impressionantes visões naturalistas de uma Inglaterra remota, onde duas pessoas vagueiam perdidas e espiritualmente isoladas. Este foi o primeiro de muitos projetos independentes que definiram a carreira de McGarvey nos anos 90. Chegado o final dessa década, em 1999, Seamus McGarvey assinou a fotografia de dois importantíssimos filmes na sua carreira. Primeiro, temos A Zona de Guerra, uma tragédia familiar de cáustica crueldade que McGarvey filmou com a astúcia de um pintor sem nunca quebrar com a estética de realismo duro do projeto. Depois, temos O Mapa do Mundo, um trabalho que, juntamente com Alta Fidelidade em 2000, abriu as portas de Hollywood a este diretor de fotografia irlandês.

 

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A ZONA DE GUERRA (1999) de Tim Roth

 

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AS HORAS (2002) de Stephen Daldry

 

Nos anos que se seguiram, a carreira de Seamus McGarvey foi florescendo. De dramas cheios de Oscar buzz (As Horas), a épicos de aventura (Sahara) e passando até por curtas avant-garde focadas na representação gráfica de atos sexuais (Destricted), não existe grande padrão nas escolhas profissionais de McGarvey. No entanto, há uma constante no seu trabalho e ela é a virtuosa elegância da sua abordagem fotográfica. Apesar de não ter um estilo particularmente único – o próprio McGarvey diz que prefere ter um estilo camaleónico do que uma estética singular e inalterada – há sempre uma eficiência atraente nos seus esforços, especialmente no que diz respeito à iluminação e filmagem das caras dos atores em planos de uma beleza retratual que, em casos extremos, é reminiscente do genial Sven Nykvist.

 

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EXPIAÇÃO (2007) de Joe Wright

 

Essa eficiência despida de marcas autorais, levou à criação de relações profissionais bastante regulares na filmografia de McGarvey. Uma delas é a colaboração do diretor de fotografia com o realizador Joe Wright. O primeiro projeto deste duo foi Expiação em 2007, onde Seamus McGarvey foi confrontado com uma complexa narrativa com rasgos de inesperada metatextualidade combinada com a escala monumental de um épico romântico da 2ª Guerra Mundial. Na primeira parte, ele filma o dia mais quente de um verão inglês dos anos 30 como uma aguarela viva, difusa, quase impressionista como se a história fosse pouco mais que um farrapo de memória. Depois, quando o filme se foca no sofrimento da guerra, a luminosidade incandescente e tons pastéis da fotografia dão lugar a uma abordagem mais robusta e mais classicamente romântica, cheia de salas fumarentas e paisagens pitorescas. Na terceira parte, passada na Londres dos anos de guerra, a Steadicam é constante, traçando movimentos sinuosos por espaços iluminados com luz branca que apaga qualquer romantismo. Há também um epílogo que abertamente refere uma das obras mais famosas de Ingmar Bergman, assim como um famoso plano sequência de cinco minutos que percorre toda a praia de Dunquerque e teve de ser filmado sem cortes devido a uma série de percalços logísticos. O resultado de todo este esforço foi uma muito merecida indicação para o Óscar.

 

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TEMOS DE FALAR SOBRE KEVIN (2011) de Lynne Ramsay

 

Em 2009, O Solista marcou mais uma colaboração com Wright, e, em simultâneo, Seamus McGarvey também se tornou no diretor de fotografia de eleição de Sam Taylor-Johnson que assinou Para Lá da Música no mesmo ano. Em 2011, McGarvey criou outro laço profissional, desta vez com a realizadora Lynne Ramsay. O filme foi Temos de Falar Sobre Kevin, um arrepiante drama sobre a mãe de um rapaz que perpetra um sanguinário massacre na sua escola secundária. O uso da cor, rasgos de memória estilizada e a rigidez das composições fotográficas são partes integrantes da linguagem visual desta obra e é graças a Seamus McGarvey que esses elementos aparecem executados de forma soberba e esteticamente coerente.

 

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ANNA KARENINA (2012) de Joe Wright

 

2012 foi um grande ano para este diretor de fotografia. Por um lado, Seamus McGarvey filmou a obra mais lucrativa da sua carreira (The Avengers) e, por outro, recebeu mais uma nomeação para os Óscares pelo seu trabalho com Joe Wright (Anna Karenina). As filmagens dos dois projetos foram separadas por menos de um mês, mas isso não impediu McGarvey de se render de corpo e alma à visão de Wright, cuja conceção do romance russo como um sonho confinado ao interior de um teatro delapidado foi uma solução pragmática face a um orçamento pequeno, mas deu muitas dores de cabeça a todos os envolvidos. No final., McGarvey mostrou-se apto ao desafio e usou uma abordagem anti naturalista, cheia de mudanças de iluminação constantes e mecanismos de palco para criar um mundo onírico que é sempre filmado por uma câmara em fogoso movimento, tão coreografada como os atores que dançam em cena.

 

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GODZILLA (2014) de Gareth Edwards

 

Anna Karenina foi o último filme que Seamus McGarvey filmou em película. O próprio diretor de fotografia admite que foi com película que ele aprendeu todos os seus truques e a disciplina que lhe tem permitido triunfar na sua profissão, mas, longe de ficar preso a cânones ultrapassados, McGarvey compreende a evolução tecnológica que está a revolucionar a fotografia cinematográfica e tornou-se até num dos maiores defensores de colaborações mais próximas com os criadores de efeitos digitais. É por essa preocupação que uma obra tão épica como Godzilla de 2014 mostra uma coerência visual tão precisa e um sentido de escala extremamente sofisticado. Para esse filme, McGarvey levou as possibilidades do digital a extremos pessoais, ao criar tableaux monumentais com uma luminosidade minúscula que teria sido impossível de utilizar com película.

 

50 sombras de grey seamus mcgarvey

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AS 50 SOMBRAS DE GREY (2015) de Sam Taylor-Johnson

 

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ANIMAIS NOTURNOS (2016) de Tom Ford

 

Em suma, quer seja com película ou digital, em bons ou maus filmes, Seamus McGarvey nunca descansa e nunca se deixa cair em desinspirada mediocridade. Nos Avengers, por exemplo, ele usou os filmes de Douglas Sirk como uma referência que o ajudou a encontrar soluções para as exigências do cinema 3D, que ele pessoalmente detesta. Em projetos mais recentes, como As 50 Sombras de Grey de Sam Taylor-Johnson ou Animais Noturnos de Tom Ford, McGarvey mostra-se capaz de resgatar obras desastrosas e traduzir, de forma belíssima, as ideias dos seus realizadores sem, no entanto, as contrariar. Este ano, ele assina a sua primeira grande aventura no cinema de ficção-científica com Vida Inteligente e, no futuro, tem um drama passado no mundo do circo com Hugh Jackman e Zac Efron nos papéis principais. Uma coisa temos garantida, esses filmes podem vir a ser desastres, mas serão desastres lindíssimos.

 

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VIA INTELIGENTE (2017) de Daniel Espinosa

 

O que pensas do trabalho de Seamus McGarvey? Julgas que ele já devia ter um Óscar? Deixa a tua resposta nos comentários.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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