© FOX Entertainment Group

The Hot Zone, mini-série em análise

The Hot Zone” é um abre olhos assustadoramente real, que nos contamina da cabeça aos pés com o “monstro” de todos os vírus, o “Ebola Zaire”.

Vivemos num século viral: avalanche de fake news e “homemade” videos disseminados pela internet; proliferação crescente do neo-populismo exarcerbado contaminador das sociedades; hackers invadem os computadores pessoais com “malware” e “ransomware”; novos agentes patogénicos são fabricados em laboratório…No século XIX, o cientista francês Louis Pastour, ao estudar o vírus da raiva, descobriu que todas as doenças eram causadas por “algum tipo de vida dimuta”, que multiplicava-se num organismo hospedeiro e transmitia-se repentinamente para outro, contaminando-o numa cadeia de transmissão ininterrupta. Por isso, uma questão impõe-se: com tantas formas de vírus à solta, será que somos nós, humanos, o patógeno mais destrutivo e perigoso de todos?

Lê Também:
National Geographic | O que não podes perder em Março

Baseado no best-seller homónimo de Robert Preston “The Hot Zone” ou “A Zona Crítica”, numa co-parceria do canal National Geographic com o estúdio televisivo Fox 21 e a produtora de Ridley Scott (Scott Free), que aliás é produtor executivo desta mini-série dramática criada por James V. Hart, Brian Peterson e Kelly Souders. Ao longo de seis tortuosos episódios, a história verídica do audacioso jornalista do “The New Yorker”, que vivenciou in loco todos os horrores do monstruoso ébola, leva-nos até aos primórdios do primeiro surto deste filovirus (uma das quatro estirpes mais letais de biossegurança máxima (NB4)) na atual República Democrática do Congo (Zaire), algures no final da década de setenta. O episódio piloto “Arrival”, não perde tempo em despejar-nos a sua carga viral, enquanto o suposto paciente zero vai espalhando a sua febre hemorrágica num ingénuo voo comercial entre o Quénia e Nairobi, que culmina com um jorro de sangue no hospital local. Seguindo uma ordem cronológica que vai cruzando o presente (1989) com o passado (1976) para acautelar o futuro, avançamos 10 anos nessa linha temporal assintomática, aonde a última colheita do temível vírus permanece adormecido num inofensivo tubo de ensaio proprietário da (USAMRIID) – o laboratório do exército americano de pesquisa de doenças infecciosas, aonde se desenrolará o grosso das peripécias.

The Hot Zone Análise
© FOX Entertainment Group

Mas antes de entrarmos  no “berçário” militar, aonde os vírus mais letais à face da Terra fazem a sua sesta, o argumento faz questão de nos levar para o seio familiar da meticulosa tenente-coronel Jaax (Julianna Margulies), insinuando a presença maligna na inocência pacífica de mais um dia como outro qualquer. E é num desses dias de banalidade rotineira, que a veterinária patologista do exército pica o ponto em “Fort Detrick”, aonde uma recém amostra de tecido biológico símio implora para que seja analisada. Sem tempo para empatar o espectador com conversa fiada, Jaax, sob o olhar atento do seu assistente, enfia-nos logo a pinça ensanguenta pela retina adentro, matriculando-nos numa de muitas fascinantes e hipertensas lições de microbiologia laboratorial. Mas a narrativa não pretende apenas esmifrar a parte científica da coisa, edifica a sua causa nobre em torno das efervescentes dinâmicas profissionais entre Jaax e os seus dois colegas de trabalho, em particular na interação com Peter (Topher Grace), cujo ego estratosférico não quer caber naquele metro quadrado com múltiplo de 3. Num triângulo relacional hierarquizado na figura feminina, mais que lutar contra qualquer ameaça viral, luta-se pela mobilização das consciências individuais em prol de um bem superior. E nesse quesito, Margulies contagia-nos com a sua calma pragmática e um charme postural admiráveis, na demanda pela verdade absoluta acerca do potencial devastador do bicho, contrastando com a arrogância leviana e condescendente de um Topher Grace com um look tão vintage quanto o seu machismo retrogrado.

Lê Também:
Cosmos: Mundos Possíveis estreia no National Geographic

Aliás, só à data dos acontecimentos aqui narrados, é que as oficiais femininas começavam a encarreirar-se pelas fileiras mais altas do exército, um feito que a tenente-coronel Nancy Jaax representa com toda a elevação e firmeza, mesmo quando um capitão de elite dos “Rangers” a toma por uma atraente escolta com apelido masculino. Mas tanto a temática do género como a temática familiar e outras, são apenas cambiantes que ajudam a preencher os hiatos da trama, que centraliza-se principescamente no pequeno grande organismo assassino. Com a dose de suspense muito bem maniatada, Nancy corre agora para protocolizar a confirmação do teste ao ébola num dos primatas provenientes da cela 053 da “Hazleton” – uma instalação de quarentena de macacos para fins de pesquisa científica. E é precisamente aqui, que reside o busílis do problema, na periclitância de um surto comunitário com taxa de mortalidade de 90%, mesmo às portas do Capitólio, em Washington, D.C. Ensacada da cabeça aos pés, num fato Racal fosforescente oxigenado por um ventilador através de uma bateria portátil, é assim que, Jaax, vai “dançando” vagarosamente com o microrganismo em pipetas e placas de Petri, numa claustrofobia e minuciosidade procedimental de suster a respiração.

The Hot Zone Análise
© FOX Entertainment Group

Numa maratona desenfreada contra a escassez de tempo, porque os vírus não esperam que estejamos preparados para ele, atacam logo quando menos esperamos, a tenente-coronel recorre à expertise do seu mentor, Wade Carter (Liam Cunningham) para consubstanciar a sua descoberta e ter uma voz tarimbada na mesa de negociações com as altas patentes e agências sanitárias. Mas antes do estimado professor e a prezada aluna unirem esforços para conter a proliferação da doença em solo americano, o pano de fundo desvia o seu rumo para a sedutora paisagem arenosa do “Corno de África”, aonde uma dupla da CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) é chamada ao local a fim de aferir da veracidade de um relatório médico deveras perturbador: “Uma praga que se alastra pela selva. Perdeu-se tudo o que fazia destas pessoas humanas.” E é neste passado a caçar agentes virulentos de classe superior, que Carter e o seu colega Rhodes (James D’Arcy) começam o safari pelo rio que deu nome ao vírus, para encontrarem aquilo que Stephen King descreveu como “uma das coisas mais pavorosas que alguma vez leu em toda a sua vida”. Com uma argumentação palpitante, que vai subindo de tom ao sabor dos caprichos insidiosos do mal, a fotografia camaleónica de François Dagenais (The Magicians) e Cameron Duncan (Preacher) não atinge a nota artística de um “Chernobyl“, mas possui uma certa finesse na sua apresentação imagética.

Lê Também:
Famosos em Perigo com Bear Grylls T5, primeiras impressões

Doravante, os três episódios finais vão-se mutualizando entre o vazio da atuação política, a consciencialização de Jaax para uma resposta célere, e a evolução do crescimento deste bebé aniquilador no terceiro mundo, sempre com o foco primordial na tentativa de contenção do vírus nas únicas paredes que o separam da liberdade total. No limbo de hesitações e entraves jurisdicionais, vamos regressando, aqui e ali, à fomentação do drama familiar, sobretudo no que diz respeito à posição parental em termos de quem é ou não dispensável em “estado de guerra”. O marido de Jaax (Noah Emmerich) – também ele veterinário militar – é, por isso, um interlocutor dinâmico na riqueza moral e emocional desse discurso mais íntimo, diversificando todos os alçapões humanos gerados por um mísero grão de areia com vida própria. Num último fôlego de alta rotação tensional, uma equipa multidisciplinar de jovens soldados, com o devido aparato têxtil anti-infeccioso, leva a luta para a jaula do lobo, aonde uma macacada raivosa aguarda a sua eutanásia, numa missão extenuante que tem tanto de arriscada como de heróica. O incidente com o vírus ébola em Reston, alertou a opinião pública para os perigos da sua existência, mas numa altura em que a epidemia do HIV roubava os holofotes, toda a operação de limpeza passou despercebida na obscuridade.

Ainda hoje, ninguém sabe explicar como foi ali parar…

The Hot Zone

Name: The Hot Zone

Description: Baseado no best seller homónimo de 1995 do jornalista Richard Preston, The Hot Zone reconta a terrível história verídica da chegada do vírus ébola a solo americano. Em 1989, quando este vírus assassino aparece subitamente nos chimpanzés num laboratório em Reston, VA, não há cura conhecida. A Drª. Nancy Jaax, uma veterinária heróica do Exército Americano a trabalhar com uma equipa secreta da SWAT, coloca-se em perigo mortal enquanto tenta gerir o surto antes se espalhar para a população humana.

  • Miguel Simão - 85
  • Inês Serra - 80
83

CONCLUSÃO

"The Hot Zone" é mais uma grande produção para televisão, que pese embora algumas imprecisões históricas e científicas, agarra-nos ao televisor como espigões sedentos de curiosidade e temor. Com um elenco famoso e uma realização airosa, a mini-série de seis episódios da National Geographic poderia ser um pitéu para os amantes do terror ligeiro, mas hoje, até para esses, o terror é mesmo terror a sério.

O MELHOR: Interpretações carismáticas engrandecem a história de base verídica; tensão e suspense em doses industriais; altos valores de produção; cinematografia elegante; indumentárias de arregalar o olho.

O PIOR: Algumas inconsistências relativas à intensidade e ritmo; ligeiros desvios da realidade.

Sending
User Rating 5 (1 vote)
Comments Rating 0 (0 reviews)

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending