Vampire Weekend, Father of the Bride | em análise

Seis anos depois da obra-prima, os Vampire Weekend regressam com um membro a menos e um álbum a dobrar. A Father of the Bride não falta a ousadia duma vida reencontrada.

Ezra Koenig abre o novo álbum dos Vampire Weekend declarando que não se deixa convencer por promessas de um futuro radioso. Não tanto (embora também) porque a história do século passado tenha ensinado que os paraísos terrenos não existem, mas porque alguns anos de vida chegam para aprender que não passamos de farsantes, “cheating through this life and all its suffering”. O aflorar desta consciência, para lá de todos os limites (e são vários) de que se possa acusar Father of the Bride, é o fascínio da nova e há muito aguardada dádiva da banda da Ivy League, agora já sem Rostam Batmanglij nas suas fileiras (embora o produtor e multi-instrumentalista tenha contribuído para algumas das faixas).

Muito tempo passou desde que os Vampire Weekend nos deixaram um dos grandes testamentos da música pop desta década. Modern Vampires of the City é, na sua plena e incomensurável perfeição, impossível de superar. Nele, Ezra Koenig tece a narrativa da angústia que assola a juventude quando esta se aproxima do final, das perguntas existenciais que emergem em tempos difíceis e do inevitável diálogo que se acaba por travar com as próprias raízes. Em doze canções de pop barroco, cujas origens na música do mundo e de câmara setecentista são agora bem mais difíceis de detectar, desenvolve-se uma sonoridade sempre em célere staccato mas também mais espaçosa, oscilando entre ritmos frenéticos e melodias melancólicas. No centro desta história está a luta pessoal, sofrida, de Koenig com a hipótese de resposta colocada pela sua tradição religiosa judaica ao desconforto existencial, lapidarmente sintetizado num verso de “Finger Back”: “I don’t wanna live like this, but I don’t wanna die”.

FATHER OF THE BRIDE | “HARMONY HALL”

Este mesmo verso, incluído na letra do primeiro single, “Harmony Hall”, serve de mote à glosa que, seis anos depois e muita água passada sobre o moinho, os Vampire Weekend nos oferecem em Father of the Bride. O título refere-se, antes de mais, ao filme do mesmo nome protagonizado por Steve Martin, um remake do original de Vincent Minnelli. Ezra Koenig explicou que “é sobre os laços que prendem, as relações entre comunidades, entre os homens e Deus, entre as pessoas e a terra onde vivem”. De certo modo, o regresso às perguntas existenciais surgidas num tempo e expressas num álbum que Koenig vê como próprias do final da juventude e o fecho de um ciclo faz-se agora no contexto deste tecido de pertenças e compromissos, das suas frágeis alegrias e inevitáveis tensões.

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As questões que o atormentaram não desapareceram, como diz aliás em “Harmony Hall”: “I thought I was free from all that questioning/ but every time a problem ends, another one begins”. Mesmo assim, a tempestade passou e Koenig descobriu-se do outro lado, ainda vivo: “Conheço muita gente que sofreu seriamente com crises de significado e valor ao chegar perto dos trinta. Mas quando, de uma maneira ou outra, se consegue atravessá-las, olha-se à volta e pensa-se ‘Bom, ainda aqui estou’. Provavelmente não se aprendeu o sentido da vida, mas aprendeu-se que a vida continua.” (Junkee) Do outro lado está um novo lar em Los Angeles, a vida com Rashida Jones, que interpela explicitamente em “Stranger”, e agora um filho. Embora “things have never been stranger”, a inquietude pacificou-se no calor de uma casa, onde finalmente se repousa: “I used to look for an answer/ I used to knock on every door/ But you got the wave on, music playing/ Don’t need to look anymore”.

Olhando para trás, Koenig distancia-se da narrativa dos primeiros três álbuns dos Vampire Weekend, identificando neles uma trajetória que começa na quase tolice para ir escurecendo progressivamente sem qualquer alívio. Sem negar que tenha havido períodos sombrios, hoje percebe que a vida “é bem mais um zig-zag” (Sterogum). Esta sinuosidade dos caminhos e atalhos, subidas e descidas da existência, por um lado, e o seu carácter agridoce, por outro, estão na origem da grande dimensão do álbum e da sua diversidade sonora.

FATHER OF THE BRIDE | “SUNFLOWER”

É a vida com a sua desarrumação e profusão de detalhe, tantas vezes incompreensível no todo mas sempre valiosa no pormenor, que o álbum pretende retratar. As canções inspiram-se nas mais variadas tradições sonoras, desde country, folk, jazz, hip-hop, tecno, pop e rock da década de 60 ou ritmos latinos, reformulando-as em sínteses abstrusas, como no caso de “Sympathy”, onde do flamenco a banda retira uma das suas melhores e mais agressivas canções de sempre. Muitas parodiam de forma arbitrária momentos particulares da história cultural, tecendo-se de referências difíceis de rastrear de tão acidentais que são e dependentes do capricho ou livre associação de Koenig. Em “Rich”, por exemplo, sobre uma sample da linha de guitarra e maracas da “Please Go Easy With Me” de S.E. Rogie, um artificioso jogo de palavras em versos de sabor popular é entrecortado por um violino que teria feito as delícias de John Ford. Tudo soa excessivo e nada faz muito sentido junto, mas essa era a ideia. Ou a falta dela, em detrimento do gozo por cada coisa que existe: “Uma guitarra aflora, e não volta […] para mim há uma pura alegria nisso”. A cada proposta de canção minimalista, Koenig replicava exigindo um som mais desalinhado e distorcido: “Quero sentir-me um pouco mais vivo. Essas são as coisas que significavam vida para mim”.

Este frenesi desconhavado de empréstimos, aliado a algumas melodias no limite do saloio, que só o desempenho sincero e carismático do vocalista conseguem salvar, é talvez a maior falha de Father of the Bride. O álbum teria ganho em elegância se tivessem sido deixadas de fora algumas das canções onde estes traços são mais evidentes por falta de outros valores que os redimam. Não o foram porque Koenig, para quem a vida se parece mais com um álbum duplo, fala de “encontrar as formas e estruturas que permitam fazer uma coisa que se sente como verdadeira”. Simpatizo com a ideia, mas em última instância a arte é sempre uma abstracção e só enquanto tal permite dar a ver qualquer coisa na vida que retrata. A indulgência do autor teria beneficiado aqui da sua edição crítica de ouvinte. O próprio Koenig sugeriu cortar seis canções e confesso que segui o conselho. Acabei, de facto, com uma coisa que se parece mais com um álbum, mais próxima daquela “terra da canção […] um pouco separada das batalhas diárias que temos de travar” de que fala o compositor. Embora talvez, por isso mesmo, me tenha afastado daquela vida que ele nos quis oferecer em toda a sua imperfeita abundância.

VAMPIRE WEEKEND | “THIS LIFE”

 

Só um álbum duplo permitiria pôr lado a lado a alegria e a tristeza entre as quais ziguezagueia a existência. Chegada a maturidade, “mais do que apresentar o sofrimento e o amor como coisas gigantes que só acontecem aqui ou ali na vida, percebe-se que elas estão plenamente entrelaçadas no tecido do quotidiano” (EW). O álbum espraia-se para dar nota das glórias e agruras de cada vínculo, como prometido no título. Não faltam temas que se debrucem sobre o estado da nação, porque “anybody with a worried mind could never forgive the sight/ of wicked snakes inside a place you thought was dignified”. Mas estamos bem longe do tom denunciativo que Koenig associa à juventude, porque “o tu acusatório nem sempre resolve os problemas” e, no fim de contas, a serpente enrosca-se nesse “genocidal feeling/ that beats in every heart”. Para além de que, sem deixar de ser político e até ambientalista, Father of the Bride permanece a história do laço que prende Koenig à mulher com quem partilha a vida. A consciência da fragilidade que habita nos próprios ossos fá-lo abrir a comédia romântica com a única promessa possível a um homem, destruindo o mito cor-de-rosa ainda antes de a história arrancar: “I can’t carry you forever, but I can hold you now”. Daí por diante, não haverá momento algum da narrativa em que uma proclamação de felicidade não venha assombrada pela certeza ou o temor do mal iminente: “We took a vow in summertime/ now we find ourselves in late December” ou “Baby, I know pain is as natural as the rain/ I just thought it didn’t rain in California”.

Esta ambivalência culmina na sátira que a genial “We Belong Together” parece fazer dos temas finais de Grease 1 e 2. O primeiro constata frivolamente que “we go together/ like rama lama lama ka dinga da dinga dong” e “that’s the way it should be”, enquanto o segundo, mais melancólico, promete que “we’ll be together, always together” mesmo se “we all had our doubts”. Para Koenig, “we go together” como uma série de coisas, algumas coincidentes, outras contrastastes e, por isso, complementares, parecendo evidente que “we belong together”. Nada nesta certeza permite deduzir, contudo, o final feliz que todas as comédias românticas dão por garantido. E o nosso herói canta – num refrão cuja melodia sou capaz de jurar evoca a do Grease 2 – que “it don’t mean we’ll stay together”. Mas é precisamente esta não necessidade lógica ou empírica que torna espantoso acordar cada dia com o outro ao lado, ainda ali apesar dos erros do dia anterior. Faz exclamar “Hallelujah, you’re still mine” e obriga a colocar a hipótese de uma lei mais alta do que a da comédia romântica (“If there’s not some great design/ how’d this pair of stars align?”), a única capaz de trazer esperança a uma realidade onde “all I do is lose but, baby/ all I want’s to win”. E assim dá a glosa a volta ao mote, terminando (como todas as glosas) no mesmo lugar, um pouco mais à frente.

VAMPIRE WEEKEND | “JERUSALEM, NEW YORK, BERLIN”

Vampire Weekend, Father of the Bride | em análise
Vampire Weekend - Father of the Bride - capa

Name: Father of the Bride

Author: Vampire Weekend

Genre: Indie rock, pop barroco, worldbeat, indie folk

Date published: 2019-05-03

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  • Maria Pacheco de Amorim - 80
  • Maria João Sá - 70
  • Daniel Rodrigues - 90
80

Um resumo

Em Father of the Bride, Ezra Koenig dá-nos um novo capítulo da narrativa aberta na sua anterior obra prima de 2013. Do tu acusatório à pergunta pelo tu e ao acusar-se do eu, tem sido fascinante assistir ao crescimento deste rapaz e dos seus companheiros da Ivy League. Num álbum que habita a difícil fronteira entre a paródia pós-moderna e o puro mau-gosto, as referências multiplicam-se, o pastiche e a colagem sonora crescem, nem sempre na melhor direcção, e a lírica simplifica-se, às vezes em imagens de cartão do dia dos namorados. Mas o virtuosismo, o carisma e a sinceridade dos Vampire Weekend, colocados aqui ao serviço da história do aflorar da consciência pessoal, transfiguram a matéria-prima discutível num retrato franco e comovente do quotidiano que todos somos chamados a viver.

Canções incontornáveis: "Harmony Hall", "This Life", "Sympathy" e "We Belong Together"

Canções eliminadas (aposto que estavam curiosos): "Bambina"; "Big Blue"; "Rich Man"; "Married in a Gold Rush"; "My Mistake"; "Spring Snow".

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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