A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte II

A nossa viagem cinematográfica à volta do mundo continua, desta vez examinando mais oito filmes de origens nacionais diferentes, incluindo a Austrália, o Brasil e Burquina Faso.


 

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AUSTRÁLIA

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Piquenique em Hanging Rock (1975) de Peter Weir

Em 1900, três jovens estudantes e uma professora do Appleyard College desaparecem misteriosamente durante um piquenique feito em comemoração do dia de S. Valentim em Hanging Rock, uma formação de rocha vulcânica. É esta a premissa de onde se desdobra o mais estrondoso e peculiar filme de Peter Weir, Piquenique em Hanging Rock, onde o cineasta usa uma base narrativa de mistério para construir uma obra que praticamente poderia ser chamado um anti-mistério. Aqui a ambiguidade e a incerteza são de maior interesse que quaisquer conclusões finais e esse sentido de incerteza não se resume somente ao desaparecimento, mas também aos recantos mais obscuros da psique humana. Apesar de ter frustrado muitos críticos, distribuidores e espetadores aquando da sua original passagem pelos cinemas, esta obra veio a ganhar o respeito da cinefilia com o passar dos anos, sendo hoje justamente reconhecido como um dos grandes triunfos da New Wave Australiana.

 

ÁUSTRIA

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A Pianista (2001) de Michael Haneke

Nas últimas décadas, a produção cinematográfica austríaca tem-se vindo a evidenciar como a rainha do cinema de crueldade, sendo Michael Haneke o seu mais célebre autor e provocador. Outras obras na filmografia deste cineasta poderão ser mais chocantes, mas A Pianista é a sua mais cruel criação, pegando num estudo de personagem e injetando-o com uma toxicidade assombrosa. A ajudar Haneke está Isabelle Huppert na mais espetacular prestação da sua carreira como uma professora de piano corroída pela repressão sexual e tornada numa monstruosa visão de quem simultaneamente nos queremos distanciar por nojo e medo e aproximar devido à abjeta fascinação. Pelo caminho, estes dois génios do cinema moderno, acabam por construir um dos mais frios retratos alguma vez feito de uma cidade, mostrando Viena como um mundo de fachadas requintadas onde auditórios enormes são catedrais de cultura ao mesmo tempo que são teatros de miséria humana estudiosamente ignorada até que é tarde demais.

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BÉLGICA

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Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975) de Chantal Akerman

Poucos filmes na história do cinema têm um título tão apropriado como a máxima obra-prima de Chantal Akerman, uma das mais importantes autoras do cinema europeu, pois este é, na sua forma mais essencial, um documento sobre uma mulher e o espaço em que ela habita. A partir de uma gramática cinematográfica que relembra a mestria doméstica de Ozu, Akerman constrói um épico de quase quatro horas sobre o mais mundano e entediante dos quotidianos, hipnotizando a sua audiência com ritmos repetitivos e uma abjeta falta de drama. No entanto, para realmente se apreciar a genialidade deste monumento, há que se generosamente render à proposta estilística e sua austeridade, pois é apenas quando já estamos imersos e atordoados pela normalidade na tela, que se revela o génio de Jeanne Dielman, um filme onde um jantar queimado tem a intensidade que o fim do mundo tem em outras obras menos impressionantes ou essenciais.

 

 

BIELORÚSSIA

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Vem e Vê (1985) de Elem Klimov

Existem filmes cuja magnificência cinemática é de tão alta ordem e especificidade audiovisual que tentar traduzir o seu impacto em palavras é pouco mais que um exercício em completa e inquestionável futilidade – perdoem-nos a futilidade, portanto. Vem e Vê, o último e melhor filme de Elem Klimov, é uma dessas obras, sendo também um dos mais brutais retratos cinematográficos da guerra, seu horror e efeito devastador na mente humana. A partir de técnicas tão imersivas como vanguardistas, o realizador soviético construiu um pesadelo em celuloide que se centra na experiência de Flyora, um adolescente bielorrusso que, durante a 2ª Guerra Mundial, testemunha e faz parte de tais calamidades de crueldade que apenas a palavra “inferno” as pode descrever com justiça. Nunca houve, e talvez nunca haverá, um filme anti-guerra que transpire tanta raiva como este e, talvez por isso, seja um título que é tão imprescindível como é punitivo para a sua audiência. Quando Flyora olha diretamente para a câmara, é como se Klimov nos tivesse dado um murro no estômago e resumido, numa face torturada, a essência do que é o sofrimento e a capacidade humana para o mal. Uma vez visto, este é um filme inesquecível.

 

 

BOLÍVIA

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Sangue de Condor (1969) de Jorge Sanjinés

Aquele que é chamado de Terceiro Cinema é rico e caracterizado por um tipo de filme que, por uma miríade de razões, poucas vezes se encontra nos cânones cinematográficos de nações que se consideram mais desenvolvidas. Falamos, pois claro, do cinema militante, do qual Sangue de Condor é um dos mais célebres e icónicos exemplos. Esta obra realizada por Jorge Sanjinés foca-se, principalmente, na reação de uma população rural face às ações de um grupo de apoio estrangeiro (uma óbvia referência aos Peace Corps americanos) que tem vindo a esterilizar as mulheres locais. A ligação entre a narrativa sensacionalista do filme e as reais medidas tomadas por grupos internacionais na Bolívia pode ser discutível, mas na sua hiperbólica fúria, Sanjinés acabou por conceber aquele que é um dos mais importantes documentos a atacar o tipo de arrogância imperialista que caracteriza tantas dessas iniciativas. Com tal importância panfletária o filme já teria valor, mas acrescenta-se a isso um maravilhoso retrato de uma cultura em perigo de desaparecer assim como uma estrutura cronológica de peculiar complexidade.

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BÓSNIA-HERZEGOVINA

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Terra de Ninguém (2001) de Danis Tanovic

A Guerra da Bósnia foi um dois eventos mais devastadores e fraturantes nas últimas décadas de história europeia e, como tal, o cinema tem sido rico em representações do seu horror e complexas particularidades. Terra de Ninguém pode estar longe de ser o melhor filme a abordar este tema, ou mesmo o mais astuto e inteligente, mas é um dos mais conhecidos e, provavelmente, o mais acessível – afinal, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro não é um troféu usualmente associado a inescrutabilidade e complicadas visões intelectuais. A abordagem estilística de Danis Tanovic deixa muito a desejar, mas como uma parábola, que por vezes quase se torna uma farsa, sobre três soldados, dois bósnios (mais especificamente bosníacos) e um sérvio, encurralados no meio da terra de ninguém, esta é um objeto de irrevogável interesse e valor. O melhor de tudo é, mesmo assim, o efeito bola de neve que os eventos tomam, resultando num circo mediático em que o filme satiriza de modo feroz a impotência e inação das Nações Unidas, os esforços amorais dos media e a desumana absurdez da guerra.

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BRASIL

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Limite (1931) de Mário Peixoto

Duas mulheres e um homem estão à deriva numa minúscula embarcação em alto-mar e, na sua angústia e desespero, acabam por aceitar que vão morrer e recordam-se de vários momentos nas suas vidas. É esta a situação de onde Mário Peixoto desdobra aquela que é a sua obra-prima e único projeto cinematográfico, assim como o mais célebre e importante filme mudo do Brasil, Limite. Devido ao seu uso de técnicas avant-garde inspiradas pelo trabalho inovador do cinema francês de então, muitos chamam a este filme o Cão Andaluz do cinema da América Latina, mas tal denominação rouba valor a esta magnífica obra cujas imagens, apesar de degradadas pela implacável passagem do tempo, ainda parecem radicais e modernas nos dias de hoje. O uso de planos em enlouquecido movimento que enaltecem a qualidade de experiência subjetiva das memórias é de particular maravilha, sugerindo um filme em que câmara, mais do que uma ferramenta de documentação, é o pincel pelo qual o cérebro humano pode materializar imagens mentais. Não é por acaso que este filme era um dos preferidos de David Bowie.

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BURQUINA FASO

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Tilai – A Lei e a Honra (1990) de Idrissa Ouedraogo

A simplicidade com que Tilai, vencedor do Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes, apresenta a sua convoluta tragédia humana é uma das suas mais preciosas qualidades, mostrando uma clareza tão elegante como bruta, capaz de maravilhar o espetador com a sua precisão ao mesmo tempo que lhe despedaça o coração com a sua carga emocional. Esta é uma história de adultério, normas sociais, compaixão e laços familiares que começa com o retorno de um jovem à sua aldeia na África pré-colonial. Aí, Saga descobre que o seu pai se casou com a noiva do seu filho, efetivamente tornando-a mãe de Saga aos olhos da sociedade local. A partir daí estende-se uma tapeçaria de angústias, traições e dor, onde as figuras humanas parecem ser tortuosamente movidas por uma força invisível que os leva a traírem os seus âmagos morais em nome de uma inefáveis noções de honra e legitimidade.

 


 

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Na próxima página, podes encontrar, entre as nossas recomendações, documentários de estonteante criatividade, comoventes melodramas e o mais transcendente filme alguma vez feito sobre religião.


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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