A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte III

Do Camboja à Dinamarca, esta parte da nossa volta ao mundo através do cinema traz-nos autobiografias sonhadas, romances proibidos e um devastador momento de graça.


 

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CAMBOJA

a imagem que falta a volta ao mundo em 80 filmes

A Imagem Que Falta (2013) de Rithy Panh

O poder da imagem é algo que não deve ser subestimado e nada prova isso de modo mais violento que o apagamento sistemático perpetrado por regimes ditatoriais. Essa falta de imagens, ou literatura ou qualquer tipo de registo artístico e humano, está no centro de A Imagem Que Falta, onde o cineasta cambojano Rithy Panh construiu um exercício em reviver memórias traumáticas ao contar a história da sua vida durante o regime dos Khmeres Vermelhos, onde Pahn, então uma criança, foi o único sobrevivente da sua família. Recorrendo ao criativo uso de tableaux estáticos povoados por primitivas esculturas de madeira pintada, o cineasta deu imagem às suas memórias e expô-las ao mundo em toda a sua dor. Ver este documentário é uma experiência em necessárias contradições: por um lado desejamos que Pahn, e o resto do Camboja, consigam esquecer os horrores do inferno de quatro anos da ditadura, mas ao mesmo tempo este é um filme que sublinha enfaticamente a necessidade de nunca esquecer os erros e pesadelos do passado para que estes não se venham a repetir.

 

 

CANADÁ

MY WINNIPEG A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

My Winnipeg (2007) de Guy Maddin

Apesar de My Winnipeg ter germinado de uma encomenda feita ao canadiano Guy Maddin de um documentário sobre a sua cidade natal, chamar ao resultado final um documentário é ser-se ou extremamente generoso ou extremamente estúpido. Nada neste filme almeja ser o documento de uma realidade factual, assemelhando-se muito mais a uma colagem surrealista de sonhos sobre uma terra odiada pelo realizador. No panorama do cinema atual existem poucos autores mais singulares e ensandecidos que Maddin, cujo trabalho se centra na tentativa de criar um estilo reminiscente de um melodrama mudo dos anos 20, cheio de momentos lúridos e surrealistas, afetado pela influência de alguma substância estupefaciente. De todos os seus filmes, este retrato mentiroso de Winnipeg no Canadá é o seu mais autobiográfico e muito provavelmente o seu mais importante enquanto um autor que entende que o “real” e o “realismo” não passam de pretensões vácuas e que, no cinema, o artifício sonhador é o caminho para o genuíno.

 

 

CHILE

NOSTALGIA DA LUZ PATRICIO GUZMÁN A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Nostalgia da Luz (2010) de Patricio Guzmán

O cineasta de documentários Patricio Guzmán é uma das mais fascinantes vozes do cinema atual devido em grande parte ao modo como os seus filmes parecem conter em si o tipo de complexa associação de ideias e formação de argumentos que esperaríamos encontrar nas mais esotéricas teses histórico políticas no panorama académico e não no cinema. Isso pode sugerir um criador de filmes inescrutáveis e intelectualmente herméticos mas a verdade não podia estar mais longe disso. Os seus filmes são absolutos milagres da síntese e empatia, fluindo com uma facilidade que acaba por esconder a sua ambição da audiência que apenas se vai apercebendo da grandiosidade do que viu quando, mais tarde, reflete sobre as ideias plantadas por Guzmán. Nenhum dos seus trabalhos demonstra melhor esse génio que Nostalgia da Luz, onde o chileno pinta um soberbo retrato do deserto de Atacama onde a astronomia se encontra e relaciona de modo quase existencial com as cicatrizes deixadas pela ditadura de Pinochet. A imagem das esposas, irmãs e mães que procuram as ossadas estilhaçadas dos seus entes queridos no meio da vastidão do deserto é uma das mais poderosas visões a chegar aos cinemas mundiais nas últimas décadas.

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CHINA

PRIMAVERA NUMA PEQUENA CIDADE A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Primavera Numa Pequena Cidade (1948) de Mu Fei

Segundo uma votação do público, levada a cabo em Hong Kong em 2005, Primavera Numa Pequena Cidade é o melhor filme na história do Cinema Chinês. Antes de ser coroado com essa merecida honra, este delicado melodrama romântico do pós-guerra sofreu uma existência cheia de reviravoltas e censura, sendo rejeitado pelas audiências e pelo regime aquando da sua estreia devido à falta de conteúdo político e suposta celebração de valores burgueses. Independentemente de tudo isso, esta obra maestra de Mu Fei é uma das mais belas histórias de amor alguma vez registadas em celulóide. O filme conta a história de uma dona de casa que vive nas ruínas do que, antes da guerra, tinha sido uma cidade próspera e aonde chega um dia o seu amor de juventude que, por acaso, também é um dos amigos mais antigos do seu marido. A elegância dos movimentos de câmara que tornam a troca de olhares num ballet de emoções reprimidas e o uso expressivo de silêncios complementam a história humana com um lirismo apenas rivalizado pelo voz-off omnipresente que abre uma janela aos pensamentos mais íntimos da melancólica protagonista.

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COLÔMBIA

MARIA CHEIA DE GRAÇA CATALINA SANDINO MORENO A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Maria Cheia de Graça (2004) de Joshua Marston

Uma coprodução entre os EUA, a Colômbia e o Equador, filmada entre esses três países, mas maioritariamente em Nova Iorque, com realização de um cineasta caucasiano oriundo de Los Angeles parece uma escolha estranha para representar a Colômbia nesta volta ao mundo. Apesar disso, este é um filme de extrema importância, especialmente nos tempos que correm de campanhas políticas apoiadas em plataformas de xenofobia. Faz isto ao retratar, com necessária empatia, um tipo de história que nos é familiar dos noticiários e jornais onde os peões do submundo da droga são reduzidos a números sem cara ou estereótipos desumanos. Resumidamente, Maria Cheia de Graça relata a experiência de uma jovem grávida colombiana que, depois de perder o seu emprego, se deixa seduzir pelas propostas de um cartel de droga, acabando por ser uma mula para eles. Com 62 preservativos cheios de cocaína no seu organismo, ela parte para Nova Iorque juntamente com outra rapariga. Apoiado num elenco espetacular, incluindo a prestação naturalista nomeada ao Óscar de Catalina Sandino Moreno, este é um filme cheio de fúria idealista que nunca comete o erro de reduzir as suas personagens a símbolos – este é sempre um drama palpavelmente humano e urgente.

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COREIA DO SUL

OASIS A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Oásis (2002) de Chang-dong Lee

Mais nenhum cinema nacional, com possível exceção do Romeno, teve um desenvolvimento tão impressionante e importante no século XXI como o da Coreia do Sul. Como tal, será apropriado apresentar como nossa escolha para esta nação, um dos filmes que deu início à apreciação mundial dos novos e vanguardistas cineastas dessa nacionalidade, Oásis de Chang-dong Lee. Com duas prestações de agressiva e explosiva intensidade no seu centro, este filme conta a bizarra história de amor entre um marginal com tendências antissociais, assim como alguns problemas cognitivos, e uma mulher que sofre de paralisia cerebral e foi praticamente abandonada pela família. Desconfortável e desconcertante na sua intimidade, Oásis oscila entre registos de naturalismo extremo e um sonhador realismo mágico que, de alguma forma, parecem sempre fluir em orgânica harmonia, sombreando, de modo notável, as complexidades inerentes à existência de dois indivíduos que foram rejeitados pela sociedade, assim como a especificidade do ambiente urbano que ambos habitam.

 

 

CUBA

LUCIA A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Lucía (1968) de Humberto Solás

Haverá certamente obras do cinema cubano mais consistentes ou elegantemente construídas que Lucía, mas também é certo que será muito difícil encontrar uma produção mais ambiciosa que esta, tanto de uma perspetiva artística, histórica, cultural ou humana. O jovem cineasta Humberto Solás, que tinha apenas 26 anos quando terminou esta obra, construiu aqui um retrato da sua nação através de um tríptico de dramas individuais, todos eles centrados em mulheres que partilham o nome titular. Cada uma dessas narrativas singulares passa-se num momento fulcral da história Cubana – o período da guerra da Independência e as décadas de 30 e 60 – e cada uma é filmada com uma abordagem estilística diferente, resultando num filme que parece conter em si mesmo algo semelhante a um resumo da evolução do cinema nacional dessa ilha caribe até então, com especial ênfase no cinema pós-revolucionário. Por todas essas razões, Lucía é um marco incontornável na história do cinema cubano, mas o seu valor vai além da sua importância histórica, sendo também uma obra de extraordinária beleza e inebriante experimentação formal.

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DINAMARCA

A PALAVRA ORDET CARL DREYER A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Palavra (1955) de Carl Theodor Dreyer

A história do cinema é rica em filmes sobre fé, mas raramente se veem filmes que foquem o modo como os humanos se relacionam com essa fé, como acreditam e a praticam – ou seja, filmes sobre religião (diferente de filmes religiosos). A Palavra de Carl Theodor Dreyer é um desses filmes, nunca questionando o porquê das crenças das suas personagens ou a sua legitimidade cósmica, mas examinando o papel da religião na vida de uma pequena comunidade, especificamente numa família Luterana. O modo como esta obra-prima examina a espiritualidade das pessoas a partir de conflitos religiosos e existenciais é quase classicamente teatral no modo como se apoia na força dramática do texto, não fosse o estilo absolutamente minimalista de Dreyer. Com os seus movimentos de câmara vagarosos, mise-en-scène onde o vazio se evidencia e o uso do branco luminoso, o realizador construiu uma abordagem fortemente estilizada e cinemática que, a partir de um verdadeiro milagre da sétima arte, consegue capturar em celulóide algo que se assemelha à essência da alma humana. No final de A Palavra, todas estas componentes concetuais, estilísticas e espirituais chegam ao seu apogeu num dos grandes momentos de graça e transcendência na história do cinema.

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No próximo capítulo da nossa volta ao mundo vamos conhecer o James Dean e a Marilyn Monroe do Egito e descobrir a máxima expressão da alegria no cinema de Hollywood. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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