A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte IV

Nesta quarta parte da nossa volta ao mundo, deparamo-nos com dois dos mais enfurecidos gritos de indignação política que o cinema já registou, assim como um dos mais elegantes.


 

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EGITO

A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES ESTACAO CENTRAL DO CAIRO STATION

Estação Central do Cairo (1958) de Youssef Chahine

Durante a década de 50 o público norte-americano e europeu foi exposto pela primeira vez a uma crescente presença de cinema internacional. Filmes da Ásia, de África e da América Latina começaram a ganhar relevância cultural e respeito da crítica, abrindo as portas a um novo tipo de desenvolvimento cinematográfico onde os cinemas nacionais já não eram circuitos herméticos e fechados. No Egito, o filme responsável por esta abertura foi Estação Central do Cairo, uma obra que exemplificava de modo quase perfeito as inovações que se faziam sentir no cinema do Norte Africano. Inspirado no neorrealismo italiano, nas grandes obras de entretenimento de Hollywood e nas teorias formalistas dos soviéticos, o cineasta Youssef Chahine construiu neste filme algo simples mas sublime. Na estação titular vemos o desenrolar de uma trama amorosa entre um ardina aleijado, interpretado pelo próprio Chahine, e o objeto do seu desejo, uma vendedora de limonadas encarnada por Hind Rostom, a Marilyn Monroe das Arábias. Paralelamente a esta convencional narrativa romântica, toda a vida de uma cidade é vislumbrada em histórias paralelas e preciosos detalhes humanos.

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ESPANHA

VIRIDIANA LUIS BUNUEL A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Viridiana (1961) de Luis Buñuel

Subtileza, nuance, conforto e bom gosto não são expressões que se possam aplicar a Viridiana, mas isso não tira qualquer valor à mais ousada criação de um dos maiores génios do cinema, o espanhol Luis Buñuel. Depois de anos de exílio no México, em que o cineasta se afirmou como o mais importante realizador na língua castelhana, Buñuel regressou a Espanha em 1961 para lá filmar um novo projeto. Os antigos apoiantes políticos do cineasta começaram por protestar o que achavam ser uma rendição dele ao poder estatal fascista, mas depressa perceberam que esta não era nenhuma obra de cega propaganda ou conformação. Pelo contrário, Viridiana é a mais ácida sátira que o cinema já viu, atacando com igual fervor a aristocracia, o regime fascista, o absurdo catolicismo e a hipocrisia do apoio do Vaticano à ditadura franquista. Sempre um iconoclasta, Buñuel encheu a sua obra-prima de imagens inesquecíveis como uma freira drogada e vestida de noiva a ser assediada pelo seu lascivo tio aristocrata ou uma recriação da última ceia protagonizado por sem-abrigos embriagados. Este é um dos filmes políticos mais importantes de sempre e é também uma das obras mais blasfemas e corajosas do cinema europeu.

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ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

SERENATA À CHUVA GENE KELLY A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES MUSICAL SNGIN IN THE RAIN

Serenata à Chuva (1952) de Stanley Donen e Gene Kelly

Quando chegou à altura de escolher um filme para representar o cinema dos EUA nesta volta ao mundo, duas coisas eram certas: tinha de ser uma produção de Hollywood e tinha de ser um filme intrinsecamente americano. O que é que poderia ser mais Hollywood que o produto do escapismo de uma produção da MGM? E o que poderia ser mais americano que um musical de grande orçamento e cheio de estrelas de cinema? Bem, talvez um western fosse mais tipicamente americano, mas o raciocínio continua a ser válido, terminando na nossa seleção de Serenata à Chuva, o mais glorioso trabalho a sair das mãos do génio combinado de Arthur Freed, Stanley Donen e Gene Kelly, que é também uma das mais perfeitas e excitantes celebrações da fábrica de sonhos que é Hollywood. Resta-nos uma pergunta final: haverá melhor expressão cinematográfica da maravilha que é a alegria humana do que a célebre sequência em que um eufórico Gene Kelly canta e dança debaixo de uma torrente de chuva numa rua de L.A. construída em estúdio? Não, não há e quem quer que vos diga o contrário é um terrível mentiroso.

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FILIPINAS

NORTE O FIM DA HISTÓRIA A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES LAV DIAZ

Norte, O Fim da História (2014) de Lav Diaz

Em toda esta lista dificilmente haverá um cineasta cujo trabalho seja mais inescrutável ou menos acessível que o de Lav Diaz, o realizador filipino responsável por traduzir a trama do Crime e Castigo de Dostoyevsky para o específico panorama da história política e social das Filipinas. Esse projeto de inspiração russa é Norte, O Fim da História que, coincidentemente, é também o mais acessível filme na oeuvre deste autor asiático. É claro que a palavra “acessível” é aqui usada de modo relativo, afinal estamos perante um filme de mais de quatro horas que requer, pelo menos, um breve conhecimento de literatura russa e da cultura filipina para se poder ter esperança de perceber a sua narrativa. Com tudo isto dito, esta é uma obra de miraculosa elegância cinematográfica que, apesar da sua longa duração, nunca perde a sua urgência ou eletrizante energia dramática. É um inesperado triunfo do cinema moderno, tão sofisticado na sua forma como na sua filosofia e complementado com um virtuoso elenco que nunca se deixa esmagar pela escala épica de todo o projeto.

 

 

FINLÂNDIA

HOMEM SEM PASSADO AKI KAURISMAKI A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

O Homem Sem Passado (2002) de Aki Kaurismäki

Um homem chega a Helsínquia num comboio noturno. Não sabemos o seu nome. Pouco depois da sua chegada ele é espancado com tal violência que perde a memória, esquecendo-se mesmo da sua identidade. Um início destes parece prometer mais tragédia que comédia mas a verdade é que O Homem Sem Passado é um dos mais hilariantes títulos a integrar esta volta ao mundo, sendo a perfeita montra para o humor unicamente escandinavo que o cineasta finlandês Aki Kaurismäki tem vindo a aperfeiçoar na sua filmografia. O realizador usa a miséria humana como ponto de partida para criar uma tapeçaria de comédia tão absurdista como delicada, onde por muito grotescas que as personagens sejam a câmara nunca as trata com algo abaixo da mais respeitosa dignidade. Esta obra essencial do cinema europeu moderno conta ainda com duas espetaculares mais-valias: a prestação premiada em Cannes de Kati Outinen e a límpida fotografia de Timo Salminen.

 

 

FRANÇA

JEAN RENOIR A REGRA DO JOGO LA REGLE DU JEU A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Regra do Jogo (1939) de Jean Renoir

É difícil imaginar nos presentes dias de complacência cultural, que em 1939, aquando da sua distribuição original, as audiências revoltaram-se de tal modo contra A Regra do Jogo, que o filme foi praticamente banido e o seu realizador teve de se auto exilar nos EUA de modo a poder continuar a trabalhar. Aliás, é um milagre que este filme exista intacto, tendo sido quase destruído antes de ser redescoberto cerca de vinte anos depois, no período pós-guerra onde as críticas sociais de Jean Renoir já se tinham provado mais proféticas e inteligentes que vacuamente provocatórias. E, há que dizer, tal destruição teria sido um dos mais imperdoáveis crimes na história da arte ocidental pois existem poucos filmes que mais justamente possam ser agraciados com a palavra “perfeito”. Não existe em A Regra do Jogo um plano mal planeado, um movimento de câmara sem propósito, um detalhe do cenário que não seja necessário, uma prestação medíocre ou um figurino que não seja elegante ou preciso na sua construção de rígidas estruturas sociais. Se é possível um filme capturar todo o clima sociopolítico de uma nação num momento específico, será certamente esta astuta sátira.

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GEÓRGIA

DESDE QUE OTAR PARTIU A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Desde que Otar Partiu (2003) de Julie Bertuccelli

Três gerações de uma família vivem juntas em Tbilisi na Geórgia, a idosa Eka, sua filha Marina e sua neta, Ada. Longe deste grupo de mulheres está Otar, o irmão de Marina que, há anos, emigrou para França e cuja morte despoleta a trama deste gentil retrato intergeracional. Numa desesperada tentativa de proteger a sua mãe, Marina constrói uma elaborada mentira para que Eka pense que o seu filho ainda vive mas, como seria de esperar, as mentiras acabam por ser reveladas numa sequência de eventos que consegue partir o coração das audiências mais estoicas e insensíveis. No entanto, a ambição da cineasta francesa Julie Bertuccelli, a realizadora de Desde que Otar Partiu, vai mais além que da simples miniatura doméstica, almejando também a um exímio retrato da Geórgia contemporânea e da dolorosa realidade da emigração. A tornar tudo isto num inquestionável sucesso está um elenco formidável, liderado pela atriz russa Esther Gorintin que constrói em Eka um lancinante retrato de dor maternal e devoção familiar.

 

 

GRÉCIA

A VIAGEM DOS ARTISTAS O THIASOS A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Viagem dos Artistas (1975) de Theodoros Angelopoulos

Acima nesta página falámos de Viridiana, um filme que cuspia abertamente na cara de um regime ditatorial e que elogiámos pela sua coragem. A Viagem dos Artistas do modernista grego Theodoros Angelopoulos é um filme que possui uma fúria tão intensa como essa obra-prima espanhola, mas a sua crítica política está bastante longe da ousadia explícita desse outro filme. Pelo contrário, esta obra, em que o mais importante cineasta da Grécia aponta um dedo acusatório ao colapso da sua nação, obscurece a sua carga política a partir de uma abordagem simbólica, densa em metáforas, pontuada por uma visão abstrata da passagem do tempo e que faz um generoso uso do drama da Antiguidade Clássica como base estruturante da sua opaca narrativa centrada numa trupe de atores viajantes. Não vamos mentir, este filme é um desafio mesmo para o mais empenhado e paciente dos cinéfilos, quase requerendo um curso universitário para ser decifrado, mas nada disso invalida a sua épica ambição ou que, fora da filmografia do seu autor, não exista mais nenhum filme minimamente semelhante a esta obra única. Mesmo que só por essa última razão, este é um filme imperdível e essencial.

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Na próxima etapa da nossa volta ao mundo vamos aventurar-nos por cinemas nacionais tão singulares e díspares como os epítetos vanguardistas do Irão ou o melodrama provocatório do enfant terrible do cinema holandês. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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