A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte V

Esta parte da nossa volta ao mundo do cinema é tão rica em apocalipses de violência e esforços revolucionários como em sublimes momentos de inocência.


 

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GUATEMALA

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Ixcanul (2015) de Jayro Bustamante

Entre a modernidade e a tradição ancestral, Ixcanul é um extraordinário e misterioso drama da Guatemala onde observamos uma família indígena que vive junto a um vulcão que os separa do mundo exterior como um muro ominoso. A filha nesta unidade familiar é Maria, uma jovem de 17 anos que os pais planeiam casar com um homem mais velho e influente. Infelizmente para as forças paternais, a jovem é como um vulcão adormecido, e o seu desejo depressa explode num caso amoroso com um rapaz que a engravida. E, tal como numa erupção vulcânica, a explosão inicial é apenas o começo de uma sucessão de desastrosos eventos que se vão encadeando numa história trágica mas nunca abordada com sensacionalismo. Filmado com olho de pintor paisagístico e cheio de delicados detalhes, como as cores vibrantes das roupas tradicionais ou as diferenças entre mundos sónicos na cidade e no campo, Ixcanul constrói um impressionante retrato de uma cultura distante assim como uma comovente observação de uma família em crise.

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GUINÉ-BISSAU

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E a Morte o Negou (1988) de Flora Gomes

Talvez o mais importante e conhecido cineasta da Guiné-Bissau, Flora Gomes fez a sua primeira longa-metragem em 1988 e abordou nela um tema até então inédito no seu cinema nacional, a Guerra da Independência Guineense. Mas este não é um mero docudrama de guerra, mas sim um filme com uma forte perspetiva pessoal sobre os esforços anticolonialistas de uma nação. Para começar, Gomes concebeu uma estrutura fortemente bifurcada para contar a história de um casal, primeiro no período de guerra e depois no pós-guerra, quando se tem de encarar uma nova liberdade e um futuro incerto. Mas a visão deste filme não se cinge somente ao realismo que caracteriza tantos esforços do cinema anticolonialista, mas acrescenta uma boa dose de misticismo e imagética ligada ao legado cultural africano a que está dependente uma identidade nacional de imensa importância face ao apagamento cultural da influência e domínio português. Apesar de alguns problemas de coerência narrativa, E a Morte o Negou é uma obra de extrema importância, tanto a nível histórico como estético.

 

 

HOLANDA

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O Soldado da Rainha (1977) de Paul Verhoeven

Aquando da sua produção, O Soldado da Rainha era o filme mais caro e elaborado na história do cinema holandês. Não é por coincidência também, que o seu realizador seja o mais famoso e controverso cineasta a sair dessa nação, Paul Verhoeven, que antes de se tornar no enfant terrible de Hollywood nos anos 90 desenvolveu uma carreira da mais alta importância autoral no seu país de origem. Aqui, este desenvergonhado provocateur abordou o tema da 2ª Guerra Mundial, retratando o domínio nazi da Holanda a partir de uma narrativa orientada em volta de um grupo de amigos estudantes, cada um deles um símbolo de uma diferente faceta da sociedade holandesa e o modo como a guerra a afetou. Apesar de uma estética ligeiramente televisual, a energia e ousadia de Verhoeven conferem a este projeto uma energia, erotismo e mordacidade que normalmente nunca associaríamos a um épico histórico como este.

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HONG KONG

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The Killer – O Matador (1989) de John Woo

No Ocidente atual, o cinema de Hong Kong é maioritariamente caracterizado por filmes de artes marciais wuxia ou pelo romantismo melancólico das obras de Wong Kar Wai. Apesar disso, o género que talvez mais definiu este cinema nacional durante as últimas décadas foi o thriller de ação contemporâneo, onde cineastas como John Woo mostraram o seu génio e se afirmaram como autênticos mestres. Um dos melhores filmes desta corrente estilística e comercial é The Killer, um sanguinário melodrama de ação sobre um hitman que está a tentar salvar uma cantora da cegueira. Chow Yun-Fat protagoniza o filme e tem aqui a sua mais áurea hora, provando que é um dos indiscutíveis reis do cinema de ação. Mas, independentemente do virtuosismo dos seus atores, não nos iludamos, este é um filme de ação e não há história humana que se sobreponha à ação que se desencadeia a um ritmo alucinante e com violência de proporções verdadeiramente apocalípticas. Para quem gostar de um bom festim de ação, excitantes tiroteios e litros e litros de sangue, este é um sonho cinematográfico.

 

 

HUNGRIA

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A Harmonia Werckmeister (2000) de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

Quando falamos de um autor como Béla Tarr, proclamar um dos seus filmes como o seu mais acessível, não quer dizer muito. No entanto, A Harmonia Werckmeister é, sem dúvida, o mais acessível filme deste mestre húngaro para além de ser também uma das melhores obras de cinema europeu de sempre. E é logo a partir da sua primeira sequência que a produção demonstra a sua excelência: um grupo de homens bêbados estão num bar a meio da noite, um deles começa a explicar como a Terra orbita em volta do Sol e coreografa os seus companheiros numa dança planetária. Tudo isso é feito num só plano sequência em que a câmara baila entre os corpos humanos como uma presença fantasmagórica e parece reduzir todos os elementos a simples partículas de vida e movimento. Essa técnica repete-se ao longo do filme que é construído por prolongados planos sequência, articulados de modo a criarem uma narrativa tão simples e divertida como filosoficamente ambiciosa. De certo modo, este é um filme sobre o lugar do ser humano no universo e é a obra cinematográfica que está mais próxima de uma resposta definitiva a esse dilema existencial.

 

 

ÍNDIA

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O Salão de Música (1958) de Satyajit Ray

Antes de Visconti realizar O Leopardo, já Satyajit Ray tinha filmado uma magistral crónica sobre um orgulhoso aristocrata que, numa época de radicais mudanças sociais e políticas, testemunha o seu modo de vida ser tornado numa absurda obsolescência. Para além das suas diferentes nacionalidades, a grande diferença entre estes dois filmes é o seu protagonista, sendo que não existe nenhuma sombra de aceitação no teimoso protagonista de O Salão de Música. Pelo contrário, este nobre empobrecido leva a sua teimosia ao extremo, acabando como um fantasma a vaguear o interior de um palácio que, noutra vida, foi um paraíso de opulência e fausto. No papel principal, Chhabi Biswas oferece uma das melhores prestações do cinema indiano e Ray volta a demonstrar a sua mestria da arte cinematográfica, ao invocar um mundo de memórias reluzentes tão belas como fatalistas. Depois do realismo ríspido das suas primeiras obras, este filme, com os seus longos recitais de música e luxuoso cenário, pode parecer uma tentativa de Ray agradar aos espetadores apaixonados pelo entretenimento escapista de Bollywood, mas não existem concessões artísticas neste que é um dos mais impressionantes feitos na filmografia desta divindade do cinema.

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INDONÉSIA

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O Ato de Matar (2012) de Joshua Oppenheimer, Christine Cynn e Anónimo

Basta olharmos para os créditos finais de O Ato de Matar, onde quase todos os envolvidos são anónimos, para nos apercebermos da coragem necessária para a sua existência. Fazer um documentário sobre o genocídio que ocorreu na Indonésia a seguir ao fracasso do golpe de Estado comunista de 1965 já seria uma perigosa proposta, tendo em conta a atual situação do país em que essa chacina é considerado pela maioria como algo heroico, mas fazê-lo a partir da colaboração aberta desses orgulhosos assassinos é algo inimaginável. Bem, não foi inimaginável para os cineastas que deram aos assassinos a possibilidade de recriarem os seus sanguinários feitos com o esplendor artificial do cinema. Deste modo, mais do que uma simples documentação dos horrores passados, O Ato de Matar é uma assustadora viagem pela psique de quem matou milhares de pessoas e se considera um herói por isso. Os sujeitos do filme são assim cúmplices na sua auto-dissecação, incriminando-se ao mesmo tempo que concebem uma das mais bizarras celebrações do poder do cinema que este mundo já viu. Não há palavras capazes de descrever quão essencial este filme é, sendo um dos mais poderosos retratos da capacidade humana para o mal.

 

 

IRÃO

um minuto de inocência

Um Minuto de Inocência (1996) de Mohsen Makhmalbaf

O cinema iraniano é um dos mais importantes do mundo. Essa é uma verdade incontornável para qualquer cinéfilo que se preze. O seu desenvolvimento de técnicas neorrealistas e inspirada fusão de realidade e artifício têm-se revelado como aspetos verdadeiramente revolucionários e característicos do trabalho de muitos dos seus melhores cineastas. Mohsen Makhmalbaf é um deles e, em 1996, criou uma obra que desafia todas as convenções cinematográficas que alguma vez delinearam uma barreira entre o que é real e o que é ficção. Em Um Minuto de Inocência, Makhmalbaf explora a evolução da sociedade iraniana pós-revolucionária através de dois esforços autobiográficos, do próprio cineasta e do polícia que, na sua juventude, ele esfaqueou. A franqueza com que o filme observa e deixa que os dois homens se apresentem é algo quase inédito na história do meio, e é precisamente o artifício cinematográfico que serve de prisma à descoberta e reavaliação do passado. O cinema e a vida unem-se de modo irrevogável neste glorioso feito, culminando num final belíssimo em que a história é reescrita, a verdade é tornada obsoleta em virtude da compaixão humana e, num ato de generosidade divina, a câmara torna-se numa ferramenta capaz de mudar o mundo.

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Na próxima parte desta volta ao mundo vamos explorar uma das melhores cenas de sexo na história do cinema, não deixando de visitar também as obras de dois mestres, vindos da Itália e do Japão.


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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