A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte VI

Autores iconoclastas, um tríptico de romances em tempo de guerra e uma das melhores cenas de sexo já filmadas marcam presença na nossa volta ao mundo do cinema.


 

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ISRAEL

HATUNA MEUHERET A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Hatuna Meuheret (2001) de Dover Koshashvili

Quando pessoas desinformadas pensam no que será o cinema israelita, provavelmente vão imaginar filmes sobre o volátil clima político desse país, mas a verdade é que o cinema de Israel é muito mais que uma coleção de tragédias bélicas. Tome-se como exemplo este magnífico filme que tem, entre muitas outras luminosas mais-valias, uma das melhores cenas de sexo já filmadas. Nesse momento carnal, o encontro de dois amantes é representado com tanto erotismo como elegantes detalhes narrativos que ajudam a definir os dois protagonistas como mais nenhuma instância no filme, em parte devido à intimidade desta ocasião. É raro o filme com esta franqueza sexual que não sublinhe a sua transgressão, mas Hatuna Meuheret regista o momento com a mesma gentileza que permeia toda a sua duração, onde um filho a chegar à meia-idade traz o desespero à sua família quando recusa todas as tentativas de lhe arranjarem o casamento, preferindo ficar na companhia da sua namorada, uma mãe divorciada. Tradição e dever familiar colidem de forma dolorosa, mas nunca temos qualquer histrionia, mas sim uma história humana complexa e maravilhosamente interpretada.

 

 

ITÁLIA

A TERRA TREME LUCHINO VISCONTI A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Terra Treme (1948) de Luchino Visconti

Em 1943, Luchino Visconti criou um filme a que muitos chamam a primeira obra de neorrealismo italiano, Ossessione. Apesar dessa opinião popular, é mais correto denominar esse primeiro esforço do autor como um filme proto-neorrealista, sendo que só em 1945 é que o estilo seria verdadeiramente definido com Roma, Cidade Aberta de Rossellini e só em 1948 é que Visconti iria trazer ao mundo a sua primeira obra verdadeiramente neorrealista. A Terra Treme, no entanto, não é uma obra acorrentada aos dogmas formais que rapidamente sufocaram esse importante movimento artístico, mas sim uma proposta alternativa de um neorrealismo onde as vidas comuns são capturadas com o lirismo épico de um mito antigo. Assim, como que antecedendo os mais tardios desenvolvimentos do seu cinema nacional, Visconti concebeu, neste retrato de uma família de pescadores empobrecidos, um híbrido onde se junta o realismo social com a estilização operática que viria a caracterizar não só o cinema de Visconti mas também a obra de autores da nossa atualidade como Sorrentino e Bellocchio. Este é portanto um verdadeiro marco cinematográfico, único, profético e de uma beleza assombrosa.

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JAMAICA

THE HARDER THEY COME A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

The Harder They Come (1972) de Perry Henzell

Ivan Martin é o herói de The Harder They Come, uma espécie de blaxploitation made in Jamaica. Ele é um rapaz das zonas rurais que viaja até à grande cidade e acaba por se envolver no submundo de gangsters violentos ao mesmo tempo que tenta alcançar o sucesso musical. Dinheiro, celebridade e tragédia encadeiam-se do modo usual, sendo que não é o enredo, mas sim a execução, que valoriza esta obra. Para começar, o estilo vigente no projeto é uma inebriante mistura de realismo urbano puro e duro com rasgos de estilização pop, um contraste que apenas é exacerbado pela estética errática que faz com que cenas seguidas pareçam pertencer a filmes diferentes (há 3 diretores de fotografia creditados). Mas não é o visual ou a energia da sua montagem que mereceram ao filme este lugar na seleção, mas sim a banda-sonora que foi responsável por introduzir o reggae ao mundo. Bob Marley, por exemplo, deveu a sua lenda a este filme e à sua espetacular coleção de canções que atuam quase como um coprotagonista a guiar toda a ação num característico ritmo caribe.

 

 

JAPÃO

BOM DIA YASUJIRO OZU A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Bom Dia (1959) de Yasujiro Ozu

Devido à recente canonização de Tokyo Story como um dos melhores filmes de sempre, a atual perspetiva reinante sobre Yasujiro Ozu é quase exclusivamente definida pelas suas lacrimosas histórias de drama à escala doméstica. Isto é entendível, afinal, foi no período pós-guerra que o nipónico aperfeiçoou o seu estilo singular e o trouxe aos seus maiores píncaros em retratos de dor humana contida em gentis quadros familiares. Apesar disso, Ozu não foi um cineasta somente responsável por fazer filmes para fazer chorar as pedras da calçada. Na verdade, grande parte da sua filmografia inicial foi dedicada a comédias, entre elas uma charmosa farsa de 1932 sobre dois rapazes que começam uma greve da fala como modo de protesto aos adultos que, na sua mente, os estão a injustiçar. 27 anos mais tarde, ele filmou um remake intitulado Bom Dia, onde estão presentes todas as marcas da sua sofisticação tardia combinadas com o doce sentido de humor das suas origens. O resultado final desta viagem através das décadas e da maturação autoral foi um dos melhores filmes vindo das mãos de um dos únicos cineastas a que a palavra visionário pode ser empregue com justiça.

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LIBÉRIA

JOHNNY MAD DOG A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Johnny Mad Dog (2008) de Jean-Stéphane Sauvaire

Nas últimas duas décadas têm estreado tantos filmes sobre crianças soldado em África que praticamente nasceu um novo subgénero de cinema. Infelizmente, quantidade não equala qualidade e a maior parte destes filmes tendem a cair num de dois grupos igualmente infelizes: projetos que inadvertidamente tornam estas situações em dramas excitantes e por isso as glamourizam e tornam uma comodidade, e documentos sensacionalistas de miséria humana que fazem mais para banalizar estes horrores do que para sensibilizar as audiências. Mas é claro que nem tudo é mediocridade e, de vez em quando, aparece-nos pela frente um filme sobre crianças soldados que nos corta a respiração sem nunca nos anestesiar para o assustador facto que estas realidades existem e não são apenas algo negligenciável que só existe nos ecrãs ou nos jornais. Johnny Mad Dog é uma dessas obras, contando a história de uma jovem que tenta salvar a sua família e de um rapaz embriagado na carnificina da guerra. As personagens dentro da narrativa podem romantizar a sua condição, mas o filme nunca comete o mesmo erro, sendo sempre poderoso, urgente e cheio de vitalidade.

 

 

LITUÂNIA

A CASA SHARUNA BARTAS PAULO BRANCO A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Casa (1997) de Sharunas Bartas

Sharunas Bartas não é um realizador que agrade a qualquer cinéfilo. Para se dizer bem a verdade, encontrar alguém que realmente adore os seus severos trabalhos de silêncios prolongados é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Mas para quem esteja na mesma sintonia que este peculiar cineasta lituano, os seus filmes poderão ser autênticas revelações cinematográficas. A Casa, produzido por Paulo Branco, foi um dos seus primeiros projetos a ser atacado com uma crítica recorrente – que Bartas se estava a repetir sem desenvolver nada no seu percurso como realizador. Isso pode ser bem verdade, mas se Bartas nunca evolui o seu discurso cinematográfico pelo menos aperfeiçoou-o nesta obra, onde a palavra humana é somente presente em dois monólogos sendo o silêncio, o vazio espacial e a força da face humana os principais elementos construtivos de toda a experiência. Assombroso, hipnótico e frustrante, este filme é um estudo em melancolia existencialista expressa através de uma formalidade severa mas belíssima na sua qualidade lírica. O conceito do lar nunca foi abordado deste modo na história do cinema e só por isso, este é um filme a recordar.

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MACEDÓNIA

BEFORE THE RAIN A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Before the Rain (1994) de Milcho Manchevski

Três histórias de amor entrelaçam-se e pintam um retrato da Europa contemporânea (em 1994). Esta proposta parece um tanto ou nada cliché e, depois de uma imensidão de narrativas mosaico terem tomado de assalto os cinemas mundiais, não há muito neste tipo de filme que vá surpreender uma audiência atenta. No entanto, essa falta de inovação ou surpresa não é um necessário indicador de falta de valor e, na verdade, Before the Rain é um filme que consegue igualar de modo admirável as suas nobres intenções com a sua concretização. Filmado quando a Europa ainda fumegava com as guerras jugoslavas, este filme serviu para abrir os olhos a muitas audiências ocidentais que, como é habitual, separavam as notícias dos seus telejornais de qualquer realidade humana. Nesse sentido, o terço do filme passado em Londres é o seu mais impactante, mostrando como as feridas destes conflitos se estendem a todo o mundo, rasgando com sangue e dor a humanidade que se deixa arrebatar pelo ódio e pela ignorância. Apesar de algumas escolhas formais menos inspiradas, o filme é um irrevogável triunfo, em muito ajudado pelo trabalho exímio de um elenco de luxo.

 

 

MALÁSIA

NÃO QUERO DORMIR SOZINHO A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES TSAI MING LIANG

Não Quero Dormir Sozinho (2006) de Tsai Ming-liang

Tableaux de longa duração, narrativas inescrutáveis e expressas com a mínima verbosidade possível e uma abordagem opaca que parece ativamente procurar a confusão da audiência – este é o cinema de Tsai Ming-liang, que, apesar desta descrição assustadora, criou um dos mais singulares e excitantes cânones pessoais no cinema mundial contemporâneo. No seu único filme filmado inteiramente na Malásia, Não Quero Dormir Sozinho, este cineasta sino-malásio captura o que parecem ser duas narrativas paralelas sobre dois homens, interpretados pelo mesmo ator, que são de algum modo vitimados e dependem dos cuidados alheios para sobreviver. Nada é muito claro aqui, mas isso não torna a experiência do filme menos prazerosa, basta ignorarmos a confusão e nos deixarmos levar pelo lirismo nascido nas sarjetas e nas sombras urbanas com que o realizador tece o seu feitiço. Neste jogo, Tsai Ming-liang vai casualmente dilacerando quaisquer noções de realidade material em nome de algo mais ilusório, abstrato e sonhador, mas não por isso menos imediato ou vital. Um poema do mundano e do marginal em forma de filme, esta obra é algo que merece ser apreciado com uma mente aberta.

 


 

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Uma terra sonâmbula, um piano submerso, um grupo de prostitutas desesperadas, uma ménage à trois escaldante e uma viagem noturna pela capital norueguesa estão à tua espera na próxima parte da nossa volta ao mundo. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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