A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte VII

A nossa volta ao mundo leva-nos agora até Marrocos, onde observamos um grupo de prostitutas, até Moçambique onde vivemos entre o sonho e a guerra, e muitos outros cinemas nacionais.


 

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MALI

A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES A LUZ YEELEN

A Luz (1987) de Souleymane Cissé

O cinema africano tende a ser maioritariamente caracterizado por uma certa pesquisa naturalista ou um impulso etnográfico. Por isso mesmo, é raro encontrar uma obra desse continente com elementos fantásticos, logo quando nos deparamos com um filme assim, há que o valorizar e celebrar de modo particular e especial. A Luz é uma dessas obras, contando uma história quase mítica que poderia bem ser uma peça de folclore transposta para o cinema, aliás muito do filme deve o seu estilo e elementos narrativos a contos e rituais da cultura Bambara. Não que isso implique uma obra inescrutável. É certo que o filme é opaco, mas a sua história é tão simples e dramaticamente eficaz que quase relembra Star Wars, uma espécie de blockbuster folclórico no seu próprio mérito. Filmado com uma elegância e sofisticação estética sublimes, esta é a viagem de um jovem com poderes mágicos numa odisseia pessoal e mística onde é um pai invejoso que prova ser o grande vilão.

 

 

MARROCOS

MUITO AMADAS A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Muito Amadas (2015) de Nabil Ayouch

Apesar de ser um filme cuja controvérsia teve consequências violentas para algumas das pessoas envolvidas na sua criação, Muito Amadas é uma obra desprovida de provocações descaradas. Na verdade, a maior provocação aqui presente é mesmo a franqueza e gentileza humanista com que o realizador Nabil Ayouch retrata a vida de um grupo de prostituas na Marrocos contemporânea. Não há aqui nada de sensacionalista ou lascivo, mas sim uma intimidade maravilhosa que nos permite conhecer estas mulheres como poucas vezes conhecemos personagens fictícias. A ajudar a esta proximidade temos um dos melhores elencos a chegar ao grande ecrã nos últimos anos, liderado por uma titânica prestação de Loubna Abidar que foi indicada ao César de Melhor Atriz. Para além de tudo isto, Muito Amadas é um objeto de cinema radical no modo como violentamente ataca um sistema patriarcal e uma sociedade hipócrita sem nunca cair nas já mencionadas provocações baratas. Este é um filme importante e necessário.

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MARTINICA

RUE CASES NEGRES A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Rue cases nègres (1983) de Euzhan Palcy

Juntamente com filmes como A Tree Grows in Brooklyn de Elia Kazan e King of the Hill de Steven Soderbergh, Rue cases nègres é uma dessas perfeitas obras que consegue capturar a essência de um local e época extremamente específicas a partir de uma miniatura doméstica vista da perspetiva juvenil. Nesta obra da cineasta martinica Euzhan Palcy o protagonista é José, um jovem descendente de escravos que, na década de 30, vive no meio de uma comunidade pobre em que todos os seus familiares trabalham nos campos de canas-de-açúcar sob o controlo de cruéis colonialistas brancos. O final desta história pode ser marcado pela incerteza e por umas quantas lágrimas, mas Palcy nunca tenta manipular a sua audiência com aparatos à la Hollywood, pelo contrário este é um filme de absoluta gentileza, onde a mão leve da realizadora se afirma tão poderosa que é quase difícil imaginar que este filme é uma adaptação literária e não o fruto de algum tipo de esforço autobiográfico, tal é a qualidade imediata e vivida de toda a experiência.

 

 

MAURITÂNIA

TIMBUKTU A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Timbuktu (2014) de Abderrahmane Sissako

Na conjetura em que nos encontramos atualmente, um filme sobre uma comunidade africana a enfrentar a opressão de invasores que impõe leis fundamentalistas islâmicas é uma preciosidade a ser considerada com admiração e respeito. Quando essa obra é, para além da sua importante temática, uma magnífica construção de cinema elegante, solene e esteticamente belíssimo, então temos um verdadeiro triunfo que deve ser visto por todos. Tal é o caso de Timbuktu, onde o cineasta Abderrahmane Sissako pinta com cores intensas um retrato simultâneo da cidade titular sob um novo regime opressivo e de uma tragédia humana e familiar focada num homem que um dia deixa a sua raiva levar a melhor de si e acaba por destruir a sua vida pelo caminho. É certo que podemos acusar Sissako de rejeitar algumas das grandes marcas estilísticas do cinema africano em virtude de uma gramática mais europeia, mas é completamente impossível que um cinéfilo veja as sublimes composições paisagísticas e urbanas desta obra e não ver nelas causa para celebrar ou venerar. A cereja no topo do bolo é o modo como o filme mescla os píncaros do desespero humano com rasgos de bizarro humor sardónico.

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MÉXICO

E A TUA MÃE TAMBÉM ALFONSO CUARON Y TU MAMA TAMBIEN A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

E a Tua Mãe Também (2001) de Alfonso Cuarón

Alfonso Cuarón pode ter ganho o Óscar por Gravidade, mas o seu melhor filme veio 12 anos antes com este drama mexicano em que o autor tece uma complexa tapeçaria de sexualidade adolescente, crítica social, crónica política sobre o estado atual do México e tragédia de uma mulher a sua mortalidade. Todas estas ideias convergem numa obra coerente e em que todos os seus elementos, tanto formais como interpretativos se interligam com abjeta elegância e eficiência. Mas nada disso quer dizer que E a Tua Mãe Também é um mero espetáculo do mecanismo do cinema a funcionar e bem oleado, sendo que, pelo próprio design de todo o projeto, esta é uma experiência que transcende os limites do ecrã e vibra com uma energia calorosa e íntima que praticamente pega fogo à tela. Numa cena onde a câmara de Emmanuel Lubezki desliza pelo espaço e dança em conjunto com o trio de amantes intergeracionais no centro do filme, quase conseguimos cheirar o seu suor, saborear o calor dos seus corpos e vibrar com a mesma energia erótica que os comanda. Franco, poderoso, sofisticado e sem uma ponta de pretensiosismo, esta é uma experiência a não perder.

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MOÇAMBIQUE

TERRA SONAMBULA A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Terra Sonâmbula (2007) de Teresa Prata

No meio da guerra civil em Moçambique, um rapaz encontra um diário ao lado de um cadáver. Aí ele descobre a história de uma mulher em busca de um filho perdido e acaba por se convencer que ele mesmo é a criança desaparecida. Assim um jovem perdido num país em estado de guerra torna-se numa viagem quase homérica onde ele tem como companheiro um velho que o trata como filho e tem sempre uma nova história na ponta da língua. Entre memórias, contos e lembranças escritas, o filme move-se entre a realidade e o mundo mais mágico. Esse movimento expressa-se também na direção de Teresa Prata onde o realismo dá lugar ao lirismo cinematográfico que nunca deixa, mesmo assim, de ser um retrato específico de uma nação e suas especificidades. Adaptado de uma obra de Mia Couto, Terra Sonâmbula foi Menção Honrosa ao Prémio do Público no IndieLisboa de 2008 e é uma das mais belas obras de cinema lusófono da última década.

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NORUEGA

OSLO 31 AGOSTO A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Oslo, 31 de Agosto (2011) de Joachim Trier

A história de um dia na vida de um homem perdido que quer cometer suicídio parece ser a receita perfeita para uma obra de puro miserabilismo à boa moda do cinema europeu. Mas Joachim Trier não é um realizador qualquer e dessa premissa limitada, este cineasta norueguês construiu em Oslo, 31 de Agosto, um filme que funciona muito mais como uma celebração da experiência da vida humana do que como uma marcha fúnebre. Grande parte do crédito desse sucesso pertence ao elenco, especialmente à prestação subtil e vulnerável de Anders Danielsen Lie, mas o filme é muito mais que uma coleção de prestações cuidadas e inteligentes. Com uma abordagem leve, mas esteticamente sofisticada, Trier filma a cidade de Oslo com o olho de um homem apaixonado e usa todas ferramentas ao seu dispor para nos imergir na sua visão melancólica. Sentimos aquela devastadora dor de ter perdido algo que talvez nunca realmente possuímos ao mesmo tempo que nos emocionamos com a simples beleza do mundo que nos envolve.

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NOVA ZELÂNDIA

O PIANO JANE CAMPION A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

O Piano (1993) de Jane Campion

Em 1993, Jane Campion tornou-se a primeira mulher a ganhar a Palme d’Or em Cannes e foi apenas a 2ª realizadora a alguma vez ser indicada para o Óscar de Melhor Realização. Que filme pode ter sido tão inegavelmente magistral que rompeu com as barreiras invisíveis do preconceito inconsciente e tornou tudo isto numa realidade? Bem, foi O Piano, a grande obra-prima da cineasta neozelandesa e um filme que num mundo justo estaria sempre perto do topo de qualquer lista dos melhores filmes já feitos. Esta obra sobre uma mulher escocesa que viaja até a uma ilha inóspita no Pacífico com a sua filha para se casar com um homem que não ama é um dos grandes triunfos de ambiguidade no cinema narrativo, permitindo-nos ver os recessos mais escondidos na mente da nossa protagonista sem nunca nos explicar nada diretamente – tudo é implícito nas prestações perfeitas, na fotografia memorável ou nas melodias de piano que têm um papel central no meio de todo este microcosmo de desejos, repressões e vida. Tal como aconteceu anteriormente com Vem e Vê nesta lista, O Piano é um filme cujo impacto não pode ser contido na palavra humana e tem de ser sentido para ser entendido. Por outras palavras, se ainda não viste o filme, retifica a situação o mais rapidamente possível!

 


 

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Na próxima parte da nossa volta ao mundo finalmente chegamos a terras portuguesas. Consegues adivinhar qual é o filme que escolhemos para representar o nosso cinema nacional?


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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