A Volta ao Mundo em 80 Filmes | Parte VIII

A nossa volta ao mundo traz-nos agora até às profundezas da comédia checa e palestina, às glórias do cinema português, ao turismo sexual na América Latina e muito mais.


 

<< Parte VII | Parte IX >>

 


PALESTINA

Intervenção divina elia suleiman a volta ao mundo em 80 filmes

Intervenção Divina (2002) de Elia Suleiman

É impossível ignorar o imbróglio político em que a Palestina se encontra quando discutimos o seu cinema. Aliás, isto é um fácil raciocínio sendo que será impossível para as pessoas dessa região ignorarem essa complexa e volátil realidade. Em Intervenção Divina do mais célebre e importante cineasta palestino da atualidade, Elia Suleiman, é-nos mostrado um dia na vida de um homem de Nazaré, intercortado com outras vinhetas cómicas. Sim, cómicas, este filme, apesar de ser um lancinante retrato de uma população que vive com a guerra e a morte enraizadas na sua existência, é uma inegável comédia de um humor tão negro que é impossível imaginar um análogo americano que não caia em niilismo. No entanto, este é um filme paradoxalmente delicado e elegante assemelhando-se mais a uma doce aventura de Jacques Tati que a qualquer ácida experiência de sátira política. É claro que, devido à sua natureza intrinsecamente episódica, o filme tende a variar muito de qualidade de cena para cena e o génio divertido de uma disputa entre vizinhos por causa de um saco de lixo é muito mais subtil e interessante que uma memorável explosão de simbolismo e realismo mágico que envolve uma coroa de balas.

 

 

PERU

A TETA ASSUSTADA A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Teta Assustada (2009) de Claudia Llosa

Vencedor do Urso de Ouro em Berlim e agraciado com a primeira nomeação peruana ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, A Teta Assustada parece uma escolha óbvia para representar o Peru nesta nossa volta ao mundo. O facto de ser óbvia não lhe retira valor, pois este é um projeto de grande poder, mesmo quando o seu impacto é castrado por uma série de escolhas forçosamente didáticas. Mas foquemo-nos no positivo, e há muito que celebrar, a começar pelo começo deste filme que torna uma cantiga inocente num testemunho de traumas e horrores que rompem pela escuridão da tela como um pesadelo do qual é impossível acordar. Começar um filme desse modo é arriscado e é um verdadeiro testamento à ousadia da cineasta Claudia Llosa. É graças ao seu trabalho que um conto meio melodramático, sobre uma jovem que está “doente” devido à sua mãe ter sido violada durante os conflitos que assolaram o país nos anos 80, é representado com um bizarro, mas fascinante, estilo entre o realismo social e o artifício simbólico.

Consulta Também: BERLINALE 66: Ursos e Prémios

 

 

POLÓNIA

CINZAS E DIAMANTES A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Cinzas e Diamantes (1958) de Andrzej Wajda

Existem cineastas na história da sétima arte que tenham dedicado a sua carreira de tal modo ao estudo e representação da história e contemporaneidade política do seu país como o polaco Andrzej Wajda. Um dos seus primeiros grandes feitos foi uma trilogia sobre a 2ª Guerra Mundial que ele filmou nos anos 50 e que ficou completa com uma das suas mais indiscutíveis obras-primas, Cinzas e Diamantes. Este é um filme de guerra pouco comum, passando-se no primeiro dia de um país em período de pós-guerra logo a seguir à redição do Terceiro Reich. Apesar das festas que irrompem pela noite dentro, este não é um filme de celebração, mas sim um retrato acutilante de uma nação em processo de violenta reviravolta política, onde o fim da guerra é apenas o prólogo a mais conflitos e violência interna. Protagonizado pelo James Dean do cinema polaco, Zbigniew Cybulski, e filmado com mestria absoluta por Wajda (o modo como o realizador insiste em definir os limites físicos dos espaços interiores é de particular destaque), esta é uma das grandes obras de cinema político e os seus últimos 20 minutos são um verdadeiro orgasmo de excelência cinematográfica.

Lê Também: Ciclo Krzysztof Kieslowski, em análise

 

 

PORTUGAL

ACTO DA PRIMAVERA A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Acto da Primavera (1962) de Manoel de Oliveira

Quer amemos o seu trabalho, o odiemos ou tenhamos apenas por ele um comedido respeito, Manoel de Oliveira foi o primeiro grande autor do cinema português e o seu legado cinematográfico é de inegável preciosidade. Por isso mesmo, escolhemos para representar o cinema português um dos filmes que tem na sua filmografia e desenvolvimento um papel fulcral. Depois de décadas a trabalhar num registo entre o documentário e a ficção, sendo que até há quem erroneamente chame a Aniki Bóbó um filme proto-neorrealista, foi em Acto de Primavera que este cineasta lusitano desenvolveu aquele que seria a principal base de construção dos seus filmes doravante: o ritual, o artifício da representação, do teatro e do ato, e o que este revela. No entanto, para fazer isso, o cineasta ainda se apoiava numa pesquisa quase documental, sendo este filme um registo das representações religiosas levadas a cabo numa aldeia transmontana. Acto da Primavera é por isso um filme de transição e de experiência, uma obra que vibra com as novas possibilidades de representação (esta foi aliás a primeira longa a cores de Oliveira) ao mesmo tempo que ressoa com a solene espiritualidade de um rito ancestral.

Vê Também: As Mil e Uma Noites (Vol. 1,2 e 3), DVD em análise

 

 

REINO UNIDO

A VIDA DO CORONEL BLIMP A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

A Vida do Coronel Blimp (1943) de Michael Powell e Emeric Pressburger

Existem nesta lista de recomendações, alguns filmes que parecem ter sido singularmente criados para nela ocuparem lugar. A Vida do Coronel Blimp é um deles, sendo uma obra onde o genial duo Powell e Pressburger construiu um dos mais inteligentes, épicos e espetaculares retratos da identidade nacional britânica, suas hipocrisias, falácias e gloriosas maravilhas ao mesmo tempo que faziam uma peça de propaganda da 2ª Guerra Mundial. A sua história gira em torno de Wynne-Candy, um velho oficial do exército inglês, que é capturado pelos seus subordinados mais novos que querem mostrar como o seu conservadorismo e tradição arcaica não têm lugar neste novo mundo. O que se segue é uma sequência de flashbacks e jogos estruturais que vieram a inspirar Quentin Tarantino nos anos 90 e que são algum do melhor cinema já feito na terra de sua majestade. Foi neste filme que estes cineastas aperfeiçoaram o seu estilo e mostraram em pleno as possibilidades maravilhosas da cor no cinema, foi também aqui que eles examinaram como o passado informa o presente, tanto a nível histórico, social e político como humano, narrativo e emocional.  A cereja no topo do bolo são três espetaculares prestações principais, incluindo o tríptico de interesses amorosos interpretados por Deborah Kerr.

Consulta Ainda: LEFFEST’15 | 45 Years, Mini-Crítica

 

 

REPÚBLICA CHECA

BAILE DOS BOMBEIROS MILOS FORMAN A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

O Baile dos Bombeiros (1967) de Milos Forman

É um fascinante paradoxo que regimes que impõem limites ditatoriais na produção de arte são também de onde nascem algumas das obras mais transgressivas, inovadoras e satíricas. Veja-se como exemplo a Nova Vaga Checoslovaca que emergiu durante o domínio comunista do país, onde fazer um filme que contradissesse os ditames dogmáticos do Estado era algo tão ousado como perigoso. Foi nesse contexto que surgiu O Baile dos Bombeiros, o primeiro filme a cores de Milos Forman e o último que o cineasta viria a fazer nessa nação. Apesar de uma produção difícil, esta obra é talvez a mais leve e hilariante no cânone de Forman, sendo, na sua essência, um retrato da Checoslováquia sob o prisma da comédia negra. Aliás, este é um daqueles filmes típicos do leste europeu onde um cinéfilo atual olha para o que é supostamente uma comédia e ri-se com tanto vigor da sátira como do miserabilismo supostamente pintado como algo que deveria provocar risos. A cereja no topo do bolo é o equilíbrio tonal e cómico, com Forman, apesar de revelar o grotesco no mundano e o absurdo na burocracia, a nunca deixar de olhar com dignidade as suas personagens.

 

 

REPÚBLICA DA IRLANDA

FOME A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Fome (2008) de Steve McQueen

Filmes sobre o IRA e a história política da Irlanda no século XX há-os aos pontapés no cinema irlandês, mas aqui a quantidade não significa que haja algum défice de qualidade. Aliás, muitos dos grandes filmes políticos anglófonos nas últimas quatro décadas têm nascido deste tipo de pesquisas histórico-políticas, incluindo aquele que selecionámos para representar a República da Irlanda. Fome foi a primeira longa-metragem do inglês Steve McQueen e é talvez pela sua distância da realidade irlandesa que o cineasta conseguiu conjurar este tipo de lirismo tingido pela dor da realidade histórica e pela violência de décadas de conflitos internalizados na própria carne de uma população. Com uma economia visual de cortar a respiração, onde nenhum corte é em vão e nenhuma imagem tem menos qualidade estética que uma pintura no Louvre, McQueen, com a ajuda de Michael Fassbender no seu primeiro papel de relevo, constrói um retrato assombroso de uma prisão onde estão aprisionados vários republicanos irlandeses, incluindo Bobby Sands que morreu nessa cadeia devido a uma greve de fome. Enervante e visceral como poucos filmes são, Fome é uma das grandes obras-primas do cinema deste século.

Lê Ainda: 12 Anos Escravo, em análise

 

 

REPÚBLICA DOMINICANA

DOLARES DE AREIA A VOLTA AO MUNDO EM 80 FILMES

Dólares de Areia (2014) de Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán

O turismo sexual e a natureza transacional das relações que daí nascem são temas que têm ganho uma curiosa relevância no panorama cinematográfico dos últimos anos. Cineastas como Ulrich Seidl e Laurent Cantet, por exemplo, exploraram-nos a partir da perspetiva do turista, olhando com fascínio os mundos exóticos para onde se dirigem os predadores das suas nações em busca de algum prazer. Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán, pelo contrário, tomaram como ponto de partida a experiência de quem vende o seu corpo a estrangeiros endinheirados, retratando a vida da jovem Noeli e sua relação com uma francesa mais velha interpretada por Geraldine Chaplin. Apesar da filha de um dos maiores nomes da comédia muda ser o nome mais conhecido do elenco e ter a mais espetacular prestação do filme, as alianças da audiência estão sempre fixadas nos dilemas internos de Noeli, suas escolhas e indecisões. Dólares de Areia evoca de modo belíssimo a qualidade idílica dos seus ambientes, sem descurar nas nuances do drama humano, dando origem a uma das mais brilhantes joias do recente cinema dominicano.

 


 

<< Parte VII | Parte IX >>

 


Na próxima parte da nossa volta ao mundo, vamos explorar as maravilhas da arte medieval através do cinema soviético, testemunhar um autorretrato de uma nação em estado de guerra e apanhar uma febre tropical na Tailândia. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *