© Hélène Louvart/Dezenove Som e Imagens

70º Festival de Berlim | Bater em Mortos!

O filme brasileiro ‘Todos os Mortos’, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, é uma obra estranha e indefinível, sobre o período do fim da escravatura no Brasil, mas que vagueia num caos entre o fantástico e real entre o passado e actualidade. Conta no elenco com a actriz portuguesa Leonor Silveira.

Realizado por Caetano Gotardo e Marco Dutra, este ‘Todos os Mortos’, é um dos vários filmes brasileiros aqui na Berlinale 70 e, fez há poucas horas a sua entrada na competição oficial, dos candidatos ao Urso de Ouro: Caetano e eu nos conhecemos desde a escola de cinema e somos amigos e colaboradores íntimos desde então. Co-realizar pela primeira vez em conjunto foi fácil, diz Marco Dutra que já fez igualmente o excelente As Boas Maneiras em parceria com a Juliana Rojas. No entanto, todos os participantes deste filme participaram ativamente na construção da história e do tom, algo estranho que vagueia entre o fantástico e real, entre o passado e actualidade, entre a religião católica e velhos rituais africanos, e que começa no período do fim da escravatura e o início da crise dos fazendeiros plantadores de café.

Todos Os Mortos
© Hélène Louvart/Dezenove Som e Imagens

‘Todos os Mortos’ desenrola-se quase inteiramente numa antiquada moradia do bairro fino dos Campos Eliseos, na cidade de São Paulo, em plena Belle Epoque, em 1899. Após a morte de Josefina (Alaíde Costa), a última empregada doméstica e ex-escrava, as três mulheres da família Soares parecem perdidas na casa de São Paulo, um cidade em rápida expansão e progresso. A família, que já possuíra uma grande fazenda com plantações de café no interior do Estado, está agora à beira da ruína, procurando adaptar-se à nova realidade. Ana (Carolina Bianchi), uma perturbada pianista e sua irmã Maria (Clarissa Kiste), uma freira prepotente, tentam convencer a relutante Iná Nascimento (Mawusi Tulani), uma ex-escrava, a realizar um antigo ritual africano para curar a sua deprimida mãe Isabel (Thaia Perez). Ao mesmo tempo, a família Nascimento, que trabalhou como escrava na fazenda Soares, vê-se agora livre, mas à deriva numa sociedade em que não há lugar para negros recentemente libertados. Uma estranha distorção do tempo faz com que com uma parte do drama, que se passa nos primórdios do século XX — Ana torna-se obcecada ao ver fantasmas de escravos negros mortos —, passe repentinamente, para os arranha-céus, para os ruídos do trânsito infernal, inclusive de helicópteros da cidade de São Paulo contemporânea. O filme parece usar essa distorção temporal, como metáfora das mudanças sociais para que tudo esteja mais ou menos na mesma: A forma como a sociedade brasileira se organizou após o fim da escravidão e a forma como se organiza hoje estava no centro de nossos pensamentos. Queríamos olhar para esse momento histórico com os olhos no presente. Interessou principalmente criar personagens vivos, fortes e complexos, para criar uma sobreposição ideias, que discutam esse tema com palavras e sensações, justifica Caetano Gotardo, para questionar uma aparente evolução daquele tempo, até ao Brasil actual.

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TRAILER DE ‘TODOS OS MORTOS’

A realização a quatro-mãos de Caetano Gotardo e Marco Dutra destaca principalmente os contrastes entre as várias personagens de um elenco maioritariamente feminino, onde estão os olhos azuis e o rosto algo envelhecido da portuguesa Leonor Silveira, interpretado a prestável Dona Romilda, vizinha da família Soares. Entre as figuras femininas, que se destacam na trama estão a velha matriarca Isabel, habituada a todas as mordomias dos escravos, alheia ao seu próprio discurso algo anacrónico e com muita dificuldade em se adaptar às mudanças; e as filhas, uma freira detestável, tentada por ideias e rituais blasfemos e, uma excelente pianista, cuja a mente está habitada por um passado sombrio na fazenda da família. E por último uma ex-escrava cuja a força de vontade e perspicácia, guiam-na para procurar uma vida melhor. Todas estas fascinantes mulheres estão em ‘Todos Os Mortos’ fora do seu lugar e mas são elas os pilares de um país e de uma sociedade em evolução, que cresceu com todos os defeitos que conhecemos: enormes desigualdades, pobreza, violência, para não falar da crise da democracia e da ascensão da extrema-direita. Ana foi ensinada a se tornar esposa, pianista e herdeira dos negócios da família, diz o realizador Marcos Dutra. Quando sua família faliu, foi como se todas as duas expectativas desaparecessem com o dinheiro. O futuro tornou-se incerto, de modo que seu passado na propriedade da família durante os anos de escravidão voltou a assombrá-la. Estes são os seus próprios fantasmas, não os reais. Ana acaba assim por se alimentar dessas imagens, alheia ao seu próprio comportamento racista e violento, conclui o realizador para explicar o comportamento de uma das personagens mais complexas do seu filme. E o mais curioso é que os personagens masculinos são os mais frágeis, quase ocupando uma espécie de segunda linha na narrativa, desde o pai Soares (Luciano Chirolli), até ao inseguro sobrinho Eduardo (Thomas Aquino, um dos actores de ‘Bacurau’).

Todos os Mortos
© Hélène Louvart/Dezenove Som e Imagens

‘Todos os Mortos’ é um filme que procura para além de abordar o tema da escravidão, contar a história de um Brasil muito mais rico em culturas, rituais (inclusive do Carnaval) e sobretudo em religiões populares: A cultura brasileira ainda tem muitos elementos das raízes africanas que a maioria da população partilha. É evidente em nossa música, arte, idioma e modo de ser, são influenciados pela cultura africana. Na religião, tradições afro-brasileiras, como o candomblé de Angola, foram proibidas durante anos. Muitos resistiram a essa opressão, mantendo as suas tradições em segredo para sobreviverem até hoje. Infelizmente, essas religiões ainda são desrespeitadas e perseguidas por certas pessoas que possuem outras crenças, explica Gotardo, relativamente aos cultos e rituais mostrados no filme.

JVM (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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