©70ª Berlinale

70º Festival de Berlim | ‘My Salinger Year’

A Berlinale 70, abre oficialmente daqui a pouco com ‘My Salinger Year’, do canadiano Philippe Falardeau, um filme feliz sobre o mundo literário a sua relação com os leitores, um pouco antes da internet e dos dispositivos digitais.

‘My Salinger Year’, o novo filme do canadiano Philippe Falardeau (‘O Professor Lazhar’, foi nomeado para os Óscares 2011), abriu a Berlinale 70 (fora da competição). O filme é baseado no livro de memórias de Joanna Rakoff, com o mesmo título, interpretada pela jovem Margaret Qualley (depois de ‘Era Uma Vez em Hollywood’, está em todas): Já a tinha visto em ‘Novitiate’, de Maggie Betts e em ‘Kenzo World’, de Spike Jones e achei que seria uma actriz com valor. Depois de ela ter trabalhado com Tarantino, ninguém parece ter dúvidas que será uma grande estrela, diz Falardeau, referindo-se à jovem que faz o papel de Rakoff; e pela regressada e grande estrela de cinema: Sigourney Weaver. E foi uma excelente e feliz abertura, pois não sendo um portento, ‘My Salinger Year’, é um filme muito interessante, uma magnífica ode à literatura e um maravilhoso retrato de duas diferentes gerações, das suas expectativas em relação ao futuro, que andou muito mais rápido do que esperávamos. O filme passa-se no período de um ano da década de 90, — do século XX — durante um período de grande embate tecnológico e sobretudo marcado pelo início da popularização da internet, que mudou radicalmente o dia-a-dia, das pessoas, actividades e empresas: Em 1990, foi o tempo em que a internet ganhou importância e que algumas pessoas diziam que ia ser o futuro e outras apenas uma tendência, disse Falardeau para justificar as profundas mudanças daí até agora.

My Salinger Year
‘My Salinger Year’ | ©70ª Berlinale

É neste momento crucial da evolução tecnológica que a sonhadora Joana (Margaret Qualley), recém-saída da universidade, aspirante a escritora e vinda de Berkley, na Califórnia, decide ficar por Nova Iorque, então também a cidade mais cool do mundo para os jovens. Para isso, consegue um emprego como assistente da agente literária Margaret (Sigourney Weaver), ciente de que tem de aproveitar essa oportunidade com unhas e dentes. Embora de temperamento bastante calmo, tem de atender os telefones que não param de tocar e lidar com confiança da sua antiquada e teimosa chefe Margaret, que odeia computadores e qualquer nova tecnologia que vá para além de uma máquina de escrever. De qualquer forma, e apesar de representar outros grandes escritores americanos entretanto já falecidos — F. Scott Fitzgerald ou Agatha Christie — tudo na agência literária parece girar em torno de apenas um: o misterioso autor do culto J.D. Salinger, (‘Uma Agulha no Palheiro’), ainda vivo, cuja a correspondência dos seus leitores e admiradores, Joanna lê e responde habilmente. Enquanto, isso a sua vida privada, vai vivendo alguma indecisão e expectativa. Entre o namorado de infância, que deixou em Berkley e novo ‘amigo’ de ideias socialistas, com quem partilha apartamento em Nova Iorque, a jovem Joana faz incursões na sua vocação através de Salinger e das pessoas, para quem se tornou uma espécie de ‘escritora fantasma’, de cartas.

Lê Também:
70º Festival de Berlim | ‘Bora Lá’ pessoal!

A escritora e ensaísta norte-americana, Joanna Rakoff tem trabalhado para meios de comunicação social como o New York Times, Los Ángeles Times ou a Vogue. Rakoff ganhou vários prémios como Goldberg e vários dos seus livros já alcançaram os top de vendas. Em ‘My Salinger Year’, a escritora relembra exactamente esse período da sua vida em que, cuidava da carreira do consagrado autor: Jerry, como era conhecido, que continuava a receber quilos de cartas de leitores de toda parte dos EUA. O autor não aparecia na agência, mas todas as cartas tinham sempre resposta. O filme de Falardeau segue praticamente à risca e com equilibrada eficiência, este ano de crescimento literário e pessoal de Rakoff. E isto fez me lembrar que para além dos filmes de Woody Allen, ainda existem outros bons e alegres filmes, como este ‘My Salinger Year’, que conseguem uma abordagem séria sobre a relação da literatura com o seus leitores e ainda por cima passada em Nova Iorque, antes da era da internet.

JVM (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *