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70º Festival de Berlim | ‘Pinóquio’ segundo Garrone

Roberto Benigni desta vez interpreta o carpinteiro Geppetto, criador do boneco de madeira para substituir o filho que nunca teve, na nova adaptação em imagem real de ‘Pinocchio’, do realizador italiano Matteo Garrone, (fora de competição) a partir do livro clássico infantil de Carlo Collodi. Vai abrir a Festa do Cinema Italiano em Lisboa a 1 de Abril.

Crescer-me-ia o nariz se vos disse-se que estou entusiasmado com a programação desta Berlinale 70. Na verdade, estamos a meio do Festival e ainda não houve nenhum filme que nos deixasse de cara à banda. Bem a propósito, o actor-cómico italiano Roberto Benigni regressou à Berlinale Special (fora da competição, até porque já tinha estreado em Itália por altura do Natal), apenas como um dos protagonistas de ‘Pinocchio’, o mais recente filme do realizador Matteo Garrone (‘Gomorra’) na amada história infantil escrita por Carlo Collodi, no século XIX. E desta vez, não como Pinóquio, que Begnini interpretou e realizou em 2002, mas antes no solitário entalhador de madeira Geppetto. Isto é num papel bem mais adequado à sua idade e à sua competência essencialmente como actor. A tendência recente dos filmes infantis, nem sempre muito eficaz, tem sido o de ir à procura dos lugares mais sombrios dos contos de fadas clássicos, para iluminar em conjunto o universo das crianças e dos pais, para render obviamente mais receitas de bilheteira. Neste ‘Pinocchio’, o realizador de ‘Dogman’ e ‘Gomorra’, arrisca mais e traz um pouco do seu olhar sombrio e crítico para este processo de adaptação cinematográfica, bastante fiel ao livro original, ‘As Aventuras de Pinóquio’, aliás um pouco com fez com o seu O Conto dos Contos, de 2015.

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TRAILER DE ‘PINOCCHIO’

Esta versão que é de uma maravilhosa doçura infantil e distante de qualquer formato Walt Disney, — sobretudo pela fabulosa interpretação do miúdo Federico Ielapi e de um extraordinário trabalho de caracterização e direcção de arte — as aventuras e a curiosidade do boneco de madeira, são bastante mais humanizadas e desenvolvem-se numa Itália no final do século XIX, marcada pela pobreza, fanatismo e pelos maus-tratos e abusos de crianças inocentes. Talvez os elementos mais horríveis do conto original, que são tornados assustadoramente palpáveis, actualizados e quase realisticamente expostos neste filme de Garrone: sem efeitos especiais, escapando por vezes ao fantástico, apesar da representatividade simbólica das tentações e desafios da vida, por exemplo nas figuras da Raposa, ou do Gato cego ou na ilusão da Terra dos Brinquedos. Só uma vez cresce o nariz a Pinóquio e o Grilo Falante é tão ou mais importante que Roberto Begnini. E ainda bem para o filme, até porque esta Berlinale 70 não está a ser até agora, um campo de milagres.

JVM (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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