Festival de Locarno | Akhdar yabes, em análise

Akhdar yabes é um dos mais belos filmes a marcar presença na Competição dos Cineastas do Presente em Locarno, retratando uma crise pessoal de uma mulher reprimida pela sua sociedade.

akhdar yabes

Tendo em conta o paradigma atual do cinema em que reina a perspetiva exclusivamente masculina, para um filme realizado por um homem e oriundo de um país como o Egito, é de estranhar que Akhdar yabes seja uma obra tão intrinsecamente feminina. A um nível puramente narrativo essa qualidade é impossível de ignorar, tratando-se este filme de um retrato de Iman, uma mulher religiosa na atualidade. Quando a encontramos, os seus pais morreram há indeterminado tempo e ela vive com a irmã mais nova que se vai casar brevemente. Na primeira cena, sabemos que Iman poderá ter um cancro no seu sistema reprodutor, uma crise pessoal que silenciosamente vai influenciar todas as suas ações durante a restante semana, em que ela se vê obrigada a falar com vários tios em busca de um homem da família que vá falar com os pais do noivo da irmã.

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Essa tradição que exige um representante masculino para a noiva dá origem a uma série de cenas onde o principal conflito do filme é ilustrado de um modo inescapável. Fala-se, pois claro do conflito entre o indivíduo, nomeadamente o indivíduo feminino, e uma sociedade de tradições e regras que sistematicamente reprimem esse ser humano. Iman é claramente religiosa e tradicionalista, mas face à possibilidade da sua morte prematura, emerge a dúvida e a reavaliação silenciosa do seu modo de viver. E nada promove mais essa reflexão que essa série de conversas desconfortáveis, onde se evidencia o absurdo das conversas sem importância que a sociedade exige em nome da cortesia e das regras de comportamento. Conversas em que Iman tem de praticamente suplicar a ajuda do poder patriarcal que, em todos os casos, se mostra completamente desinteressado no seu suplício ou sem tempo para a ajudar.

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Para além do texto e das interações humanas presentes nesses momentos, o que mais caracteriza esses momentos repetidos é o modo magistral como Mohammed Hammad filma o espaço e sua relação com as personagens. As irmãs vivem numa casa pobre e pouco iluminada, onde a câmara está sempre a encontrar forma de as encurralar em molduras sobrepostas ou de as delinear em fortes sombras. Em contraste, a casa do primeiro tio é amplamente iluminada e aberta, com cortinas vaporosas a filtrar os raios solares, opulenta mobília em estilo setecentista europeu e uma porta extravagante em mosaicos espelhados. O mundo envolvente define o ser humano, e isso abrange tanto as normas sociais como a influência que o espaço tem naqueles que o habitam.

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Tal estudo do ambiente envolvente acaba por se tornar na máxima tradução cinematográfica do drama em cena. Hammad usa os visuais para exteriorizar aquilo que as prestações e o texto escondem com a sua inexpressão e longos silêncios. O trabalho principal da atriz Hiba Ali, por exemplo, é uma maravilha de inteligente minimalismo, nunca traindo a abordagem do realizador que assim consegue explorar a crise de Iman sem nunca violar a sua intimidade ou a forçar a assumir poses de forçada vulnerabilidade.

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A ênfase na exteriorização elegante do drama a partir de beleza estética e do encontro de sublime no mais mundano trazem uma qualidade surpreendente ao que, no final, é um exemplo de perfeita modéstia dramática. Veja-se o leitmotiv visual do movimento de Iman nos transportes públicos em que ela está quase sempre isolada e virada para as traseiras do comboio. Estes interlúdios a la Hou Hsiao-hsien, atingem o seu píncaro no final, onde Hammad deixa a resolução do drama por decidir, convidando a audiência a preencher os brancos na sua pintura e os silêncios na sua sinfonia – afinal, a dúvida e o questionamento são o que realmente interessa em Akhdar yabes.

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O MELHOR: A maravilhosa delicadeza que reina em todo o projeto. Uma belíssima cena em que Iman experimenta um vestido rosa é o perfeito exemplo de como com um número limitado de planos e uma precisa paleta cromática se consegue transmitir as mais complexas angústias do ser humano. Quem precisa de bandas-sonoras operáticas ou prestações chorosas?

O PIOR: Um momento sangrento que se segue à segunda visita ao médico tem a consequência de literalizar, pela única vez em todo o filme, as questões de repressão feminina que o filme tinha até então sugerido a partir da sua detalhada observação. Talvez este tipo de brutidão expressiva seja necessária para alguns, mas certamente quebra a harmonia formal construída até então.


 

Título Original: Akhdar yabes
Realizador:  Mohammed Hammad
Elenco: Hiba Ali , Asmaa Fawzy , Ahmed Al Aidy , Mohammed El Hajj
Festival Scope | Drama | 2016 | 72 min

akhdar yabes

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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