Gaia Girace | © HBO Portugal

A Amiga Genial, primeira e segunda temporada em análise

“A Amiga Genial” transporta-nos para uma história de amizade que tem como pano de fundo Nápoles e, mais tarde, outras cidades de Itália num constante contraste.

Começo por fazer uma breve nota introdutória referindo que é impossível resistir a aconselhar (fortemente) “A Amiga Genial,” nesta altura em que Itália é uma ferida aberta. Por cá, a série encontra-se disponível na HBO Portugal e mais do retratar uma história de crescimento preenchido por uma amizade tóxica, não conseguimos desviar o olhar dos cenários e paisagens que rodeiam cada cena. Recordamos um país que atrai milhões todos os anos e onde a família é prioridade. Na série, somos, no primeiro capítulo, transportados para Nápoles, onde a narrativa de Elena Greco e Lila Cerullo tem início, nos anos 50. Quem a conta é a primeira, personificando a voz de Elena Ferrante, a autora do romance titular da série, já com 60 anos.

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Mergulhamos numa sala de aula, orientada pela Maestra Oliviero, onde conhecemos Lenú (alcunha de Elena) e Lila (diminuitivo de Raffaella) na primária. Juntas formam a dupla mais inteligente da turma e a mais competitiva. Numa época em que os estudos não eram prioridade, muito menos para as raparigas cujo dever era casar e ter filhos, Lenú e Lila ousam desafiar as famílias e o estereótipo. A primeira é filha de um porteiro, a segunda de um sapateiro. Ambas vivem em condições precárias, elemento que caracteriza a paisagem de Nápoles durante primeira temporada de “A Amiga Genial,” que corresponde também ao primeiro livro de Ferrante.

a amiga genial
O claustrofóbico bairro de Nápoles | © HBO Portugal

Ao longo dos primeiros oito episódios, acompanhamos o seu percurso pelo primeiro ciclo, num constante contraste entre a sua inteligência e os restantes habitantes ‘plebeus’ de Nápoles, que comunicam mediante um dialeto. Um retrato sufocante e claustrofóbico – em consonância com as relações das próprias famílias em que todos sabem de tudo, – que nos abraça e submerge muito graças à realização do cineasta Italiano Saverio Costanzo e ao facto de todo o guião ser em Italiano.

O primeiro momento de mudança na vida de Lenú e Lila é quando perdem uma boneca na casa de Don Achille Carracci, que controla a máfia do bairro. Ao invés de devolver o brinquedo, Don Achille dá dinheiro às crianças, que o guardam como se fosse o seu mais precioso tesouro. E é com este que compram o clássico “Mulherzinhas,” que Lila, sempre astuta e engenhosa, vê como um plano de fuga de Nápoles. Tudo o que tem de fazer é, à semelhança de Louisa May Alcott, escrever um livro, vendê-lo, tornar-se rica e utilizar o dinheiro para ajudar a sua família a sair de Nápoles. Parece simples, não? Lógico que isto era o plano da Lila criança, cenário que se vai desmoronando, peça por peça, à medida que a filha do sapateiro interioriza que não poderá continuar com os estudos. Mas o que perdeu nesta batalha, ganhou nas suas outras capacidades, principalmente na arte de manipular os que a rodeiam como peças num jogo de xadrez.

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Por outro lado, a família de Lenú, mais concretamente o pai (porque se fosse pela mãe o destino seria o da esmagadora maioria das raparigas do bairro), permitem que a jovem continue a sua jornada escolar, com a condição de ser a melhor da turma. Porém, a partir do momento em que continua sozinha, Elena cria uma relação de dependência com Lila. Qualquer texto ou trabalho parece carecer da aprovação da amiga de infância, quem a jovem considera mais inteligente, melhor escritora e mais corajosa. Necessidade que se irá refletir e acompanhar outros aspetos da vida de Lenú.

a amiga genial um novo nome
Lila (Gaia Girace) com o marido (Giovanni Amura) | © HBO Portugal

A segunda temporada da série, “A Amiga Genial: Um Novo Nome,” segue os acontecimentos do segundo livro, começando precisamente onde a primeira acabou: o casamento de Lila. Ao passo que Elena continua o sonho de ambas – estudar, – Lila vê-se confinada a um casamento sem amor com o filho de Don Achille, Stefano. Obra da sua habilidade em manipular os que a rodeiam, sem medo de sofrer as consequências. Contudo, depressa se apercebe que o primeiro noivo, que tanto repudiou pelas suas ligações à máfia, irá continuar no seio da sua família.

Agora casada, Lila, com apenas 15 anos, faz questão de usufruir do dinheiro de Stefano de forma fútil, e como acto de vingança, com roupas provocantes e idas frequentes ao cabeleireiro. A casa do casal contrasta com a do bairro onde Lila e Elena cresceram, apesar de poucas ruas os separarem. Desta vez a cor está no exterior, e o negro e cinzento marcados no rosto da jovem, uma ‘medida’ considerada normal para os desrespeitos da mulher face ao marido, mesmo aos olhos dos próprios pais. Os percursos das duas amigas não poderiam estar mais distantes nesta fase, até que um verão mudou tudo.

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Pisamos a areia branca de Ischia, onde Lenú trabalhou no Verão anterior e onde a dupla vai depois do médico recomendar a Lila repouso, devido ao seu aborto. É neste cenário que a amizade das adolescentes treme face à mútua paixão por Nino Sarratore, um colega mais velho de Elena. O que começou por ser mais uma disputa para Lila (e que ficamos na dúvida se não terá sido apenas isso), que continua a querer afirmar-se perante Lenú, acaba por ser o ponto de viragem e o rastinho de pólvora da segunda temporada.

Gaia Girace e Margherita Mazzucco, a dupla de protagonista da segunda temporada | © HBO Portugal

É também nesta segunda temporada que deixamos Nápoles e somos brindados com as paisagens de Pisa e outros locais por onde Lenú passa. De facto, visualmente, são poucas as séries que alcançam “A Amiga Genial,” algo que se deve em grande parte ao facto da cinematografa Francesca Calvelli ter filmado a série como se fosse um filme de arte Italiano saído dos anos 60. A título de curiosidade, e por incrível que pareça, o bairro de Nápoles é na realidade um cenário construído em Caserta, no Sul de Itália. As restantes cidades e paisagens foram filmadas no local. De igual forma, não podemos deixar de referir a brilhante banda-sonora de Max Richter, que pauta cada cena com um tom melancólico, que muitas vezes se transforma em desespero.

Para estreantes, Gaia Girace (Lila) e Margherita Mazzucco (Lenú) brilham enquanto o par de jovens em constante competição capazes de suplantar qualquer um da sua comunidade, incluindo uma à outra. Para os fãs dos livros, tanto Girace como Mazzucco personificam as suas descrições: o cabelo escuro de Lila e o seu tom azeitona mascaram o conflito interior que atormenta o seu espírito. Já Elena, mais tímida e ariana, esconde-se atrás dos seus óculos, numa tentativa de passar tão despercebida quanto possível. Porém, está tanto ou mais preparada do que Lila para se erguer e derrubar o que for necessário.

A Amiga Genial, primeira e segunda temporada em análise
amiga genial

Name: My Brilliant Friend

Description: Uma mulher narra a sua amizade de longa data e os conflitos com uma rapariga que conheceu na escola primária, em Nápoles no início dos anos 50.

  • Inês Serra - 91
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CONCLUSÃO

“A Amiga Genial” é uma produção que merece, sem dúvida, ser vista. Quer pelo seu enredo, quer por todo o enquadramento sócio-cultural, que acompanha em pano de fundo a série, como também pelas magníficas paisagens Italianas.

O MELHOR: O elenco é sem dúvida de admirar. O contraste que impera em cada cena, como se fosse uma constante chamada de atenção. Os cenários. Enfim, praticamente tudo.

O PIOR: O compasso da primeira temporada pode não ser para todos os espetadores, mas prometemos que a segunda temporada compensa!

Inês Serra

Cresci a ir ao cinema, filha de pais que iam a sessões duplas...Será genético? Devoro livros e algumas séries. Fã incondicional do fantástico e do sci-fi. Gostaria de viver todos os dias com o mote Spielbergiano - "I dream for a living"

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