A fria elegância de Animais Noturnos

Apesar de não ter nenhuma peça assinada por Tom Ford, o guarda-roupa de Animais Noturnos é um dos mais belos do ano, por muito fria que seja a sua elegância.

animais noturnos figura de estilo arianne phillips tom ford

Tom Ford é um caso quase único no panorama cinematográfico atual, sendo um designer de moda que enveredou pelo mundo da realização de cinema. A sua idiossincrática posição artística seria ainda mais interessante se as obras em questão fossem de alguma significativa qualidade, mas, infelizmente, os seus dois filmes, Um Homem Singular e Animais Noturnos, poderiam bem ser descritos como anúncios de perfume esticados até à duração de uma longa-metragem. Tal crítica não invalida, no entanto, que as suas obras cinematográficas sejam possuidoras de uma certa beleza fascinante e altamente curada. Afinal, não seria de esperar outra coisa do esteta Tom Ford.

Independentemente da sua racionalidade dramatúrgica, Animais Noturnos, tal como já tinha acontecido com Um Homem Singular, é um filme que se desdobra em sequenciais momentos de impressionante afetação visual. É como se uma Vogue tivesse ganho nova vida como filme ao invés de revista. Uma das fulcrais diferenças entre estas duas plataformas é o modo como a revista de moda celebra a sua superficialidade e beleza, enquanto Animais Noturnos aponta o dedo à sua própria obsessão estética, resultando num trabalho de hipocrisia fria e calculada. A outra grande diferença é que, apesar do nome do seu realizador, Animais Noturnos é um filme sem muitas roupas das grandes marcas, incluindo Tom Ford, sendo que os figurinos foram desenhados por Arianne Phillips, uma designer que ganhou fama como criadora das roupas de concerto de Maddona, antes de ter conquistado Hollywood com filmes como Hedwig – A Origem do Amor, Walk the Line, W.E., Kingsman e Um Homem Singular.

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Como introdução ao trabalho de Phillips e sua relação com a visão de beleza ditatorial edificada por Tom Ford, nada melhor que a própria abertura do filme. Aí, enquanto a luxuriante música de Abel Korzeniowski nos hipnotiza, vemos um seguimento de grotescos tableaux em câmara lenta e híper saturação cromática, onde mulheres obesas dançam despidas. Quando os créditos terminam, a câmara de Ford mostra-nos estas imagens noutro contexto, dentro de uma galeria de arte moderna. No meio dessas obras chocantes e desse ambiente em branco estéril e modernista encontramos uma figura de negro. Ela é Susan, o seu vestido decotado é preciso e elegante, seu cabelo liso e penteado para o lado é de uma perfeição desumana, sua maquilhagem carregada fá-la parecer uma modelo na passerelle e o seu colar enorme parece mais uma coleira subversiva que um adorno feminino.

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Choque, humilhação, grotesco e uma figura feminina abusada, violentada e subjugada, nem que seja pela sua própria beleza. Podemos acusar Ford de muito, mas nestas primeiras imagens ele define bem que tipo de experiência todo o filme é. De modo semelhante, Phillips também define imediatamente o estilo de Adams enquanto Susan, uma mulher deprimida que se esconde por detrás de uma fachada severa, quase agressiva. Por muito elegantes que as roupas de Adams possam ser, há sempre um certo desconforto latente à sua apresentação, mesmo no final, quando ela se prepara para um jantar e veste um vestido verde que perfeitamente lhe realça os olhos azuis, o cabelo ruivo e a tez branca. A própria beleza do conjunto é-nos apresentada como mais uma armadura desconfortável.

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Com toda essa severidade estilística e seriedade concetual, seria de esperar que o discurso estético do guarda-roupa de Animais Noturnos fosse sufocante, mas Phillips tem uns quantos truques na manga. Como que seguindo os apontamentos da cenografia, onde uma escultura kitsch de Jeff Koons tem lugar de destaque, Phillips encontra inúmeras oportunidades para refletir sobre o lado absurdo, cómico e estúpido de toda esta beleza, assim como da sua carrancuda crítica. Por exemplo, Andrea Riseborough e Michael Sheen interpretam um casal boémio, mas abastado, e suas roupas são verdadeiras explosões de bijuteria e cores garridas, mais caricaturas que seres humanos. De modo semelhante, Jena Malone aparece vestida com um arnês da Comme de Garçon completo com mangas tufadas em proporções risíveis. No entanto, no campo do absurdo kitsch, quase camp, ninguém bate Laura Linney que interpreta a mãe de Susan e se veste como uma gloriosa paródia de uma milionária texana e republicana: pérolas gigantes, cabelo cheio de laca e um fato inspirado em Chanel.

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Mas, tal como a maquilhagem de Adams aponta para a diferença entre o artifício vazio e a liberdade honesta (ou seja, maquilhagem = mau; sem maquilhagem = bom), também os figurinos fazem isso, dividindo o filme em três partes distintas. Primeiro, temos a vida presente de Susan no mundo das galerias de arte, alta sociedade e moda. Depois temos os flashbacks onde ela se recorda do casamento que teve com Edward, interpretado por Jake Gyllenhaal. Aí, as roupas não são maioritariamente peças originais de Phillips, mas sim achados em segunda mão. De um ponto de vista crítico, há algo de horrendo no modo como todo o filme tenta vender esta relação passada como o píncaro da felicidade e castiga Susan por ter traído tal Éden, especialmente quando vemos quão misógino Edward consegue ser, mas é inquestionável o modo como a linguagem visual nos propõe esta ideia de modo elegante.

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A parte final deste tríptico de histórias entrelaçadas é a narrativa de um livro que Edward envia a Susan e que esta lê, apercebendo-se dos cruéis paralelos entre a história e o seu matrimónio há muito abandonado. Essa ação ocorre nas arenosas paisagens do Texas e aí, apesar de não deixar para trás as cores saturadas, Tom Ford adota uma linguagem visual mais solta e aparentemente realista. Isso não implica, contudo, que os figurinos de Phillips sigam o mesmo caminho. Aliás, as roupas desta secção do filme podem parecer mais próximas do dia-a-dia comum, mas há pormenores de estilização escondidos por entre a sua modéstia. Veja-se, por exemplo, como Michael Shannon é um polícia que podia ter saído de um editorial da Vanity fair inspirado emk cowboys. O blazer de veludo cotelê e as camisas assimétricas de flanela são toques particularmente inspirados. Também Aaron Johnson, como um homicida e violador, é um pequeno poço de detalhes quase cómicos, como um par de botas de cowboy em cabedal verde ou anéis vistosos que ele usa no dedo mindinho.

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Em conclusão, Animais Noturnos é um filme belo, mas vazio. As suas roupas são estrondosas no que diz respeito a elegância e beleza, mas em termos dramatúrgicos há uma certa razia de verdadeira inspiração ou eficiência dramática. Um bom filme ao qual comparar Animais Noturnos, tanto a experiência geral como a especificidade do guarda-roupa, é The Neon Demon. Esse é outro projeto de clichés misóginos e grande estilização, mas enquanto Winding Refn se deixou envolver pelos epítetos absurdistas da sua proposta e celebra o seu mau gosto, Ford está sempre a resistir a tais tentações, insistindo em criticar a própria linguagem visual que ele mesmo criou e em manter uma pátina de respeitabilidade. Quem sabe, se Philips e Ford se tivessem deixado de tentar encontrar algum prestígio nesta narrativa, pudéssemos ter tido um filme inteiro cheio de momentos visuais tão gloriosos como a aparição de Laura Linney vestida como uma drag queen a imitar Barbara Bush.

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Se te interessas pelas complexidades inerentes aos figurinos de cinema e televisão, visita a nossa rubrica Figura de Estilo, onde podes encontrar análises dos guarda-roupas de filmes tão díspares como O Caso Spotlight e Esquadrão Suicida.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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