As Armas de Jane, em análise

Em As Armas de Jane de Gavin O’Connor, Natalie Portman assume o papel de uma mulher que tenta sobreviver e salvar a sua família nos perigosos tempos do Velho Oeste americano.

As Armas de Jane

Depois de anos de atribulada produção, parecia que As Armas de Jane era um projeto condenado a nunca ser completo. Mas, talvez singularmente pela força de vontade da sua protagonista e produtora Natalie Portman, o projeto conseguiu ser finalizado e agora temo-lo nas nossas salas de cinema. Tudo isso depois de Michael Fassbender ter abandonado o projeto por conflitos com a realizadora Lynne Ramsay, ao que se seguiu o abandono do projeto pela própria cineasta e pelo diretor de fotografia. Jude Law também abandonou este malfadado filme, levando a uma quase absoluta restruturação do elenco, mas, no final, lá se conseguiu fechar este pesadelo de filmagens. Será que todas estas complicações valeram a pena?

A resposta sumária é não. Mas é curioso verificar como é que o filme, na sua derradeira forma, acaba por se revelar um fracasso. Seria de esperar que, como muitos outros projetos semelhantes, As Armas de Jane exibisse as cicatrizes do caos que se verificou atrás das câmaras. O que aconteceu, pelo contrário, é que, possivelmente na esperança de apresentar uma obra de aparência sólida e competente, todos os artistas envolvidos se parecem ter prendido a si mesmos num registo de displicente pragmatismo, onde não se exibe o mínimo esforço ou inspiração. Basicamente, estamos a ver uma obra que peca exatamente pela segurança, de onde germina um atroz aborrecimento capaz de adormecer mesmo as audiências mais apaixonadas por westerns. E o filme tem só 98 minutos!

As Armas de Jane

A história desta trágica produção, escrita parcialmente por Joel Edgerton e que ganhou lugar na prestigiada blacklist de argumentos por filmar, centra-se em volta da personagem titular, Jane Hammond, uma mulher do Velho Oeste que um dia vê o seu marido chegar a casa trucidado por balas e à beira da morte. Os atacantes de Bill Hammond foram os perigosos Bishop Boys, um gangue de onde Jane e seu marido tinham fugido anos antes, quando ela julgou que o seu primeiro esposo, Dan Frost, havia sido vítima da carnificina da guerra civil. Como seria de esperar, a única pessoa a quem Jane pode pedir ajuda quando vê a sua família e casa ameaçados pelo gangue de criminosos é, nem mais nem menos, que o seu primeiro marido que afinal não tinha morrido na guerra e que agora terá de proteger a mulher que em tempos o traiu como nunca ninguém antes o tinha feito.

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Um trio de heróis com uma complicada teia de relações amorosas e antagónicas entre si, presos numa casa a tentar resistir ao ataque de um gangue de cruéis vilões. Esta não podia ser uma história mais básica e inspirada pelo folclore quase mítico que tem caracterizado o género do western desde o seu aparecimento ainda na época do cinema mudo. Uma das grandes diferenças entre este filme e esses clássicos é, contudo, o modo como todas as personagens, com uma notória exceção, são absolutamente subdesenvolvidas e aborrecidas. Na verdade, apenas Dan consegue apresentar-se, desde o início, como uma personagem de algum interesse, no papel de um herói relutante que, mesmo assim, fará tudo para proteger a sua antiga esposa.

As Armas de Jane

Que As Armas de Jane tem, como singular personagem de interesse, o homem a quem a protagonista tem de pedir ajuda é uma pequena tragédia, especialmente se considerarmos como o filme foi grandemente promovido como um western revisionista de intenções feministas. Talvez, quando Ramsay estava a dirigir, este pudesse ter sido algo realmente inovador e provocatório, mas, na sua forma presente, esta obra é uma triste repetição de temas ancestrais e injustiças sociais já calcificadas no género para seu grande demérito.

Nem mesmo o empenho de Portman consegue salvar a sua personagem destas águas de mediocridade e machismos internalizados. Apenas no final ela consegue fazer algo com o papel, mostrando uma raiva e indignação sanguinária que nunca antes foram sugeridas na duração do filme. Infelizmente, antes dessa conclusão, Portman é quase uma não entidade, passeando-se pelo filme sem qualquer preocupação por encontrar um registo apropriado ao cenário histórico que a envolve e apenas com o seu pragmatismo e atitude direta e quase forçosa a marcarem qualquer tipo de discernente personalidade para Jane.

As Armas de Jane

Portman pode apenas beneficiar o filme na sua conclusão, mas há um elemento que realmente merece mérito por injetar uma qualidade admirável ao projeto. Falamos, pois claro, da fotografia de Mandy Walker, uma diretora de fotografia já bem familiarizada com ambientes desérticos, tendo filmado Tracks de John Curran. Em As Armas de Jane, Walker homenageia de forma bastante declarativa, os grandes westerns de outrora e sua escala épica que convertia cowboys em heróis lendários e os desertos rochosos do Oeste americano em Olimpos arenosos onde grandes histórias primordiais poderiam desenrolar-se organicamente. O seu trabalho nas cenas noturnas é de particular primor, conseguindo construir jogos de afiados contrastes entre a profundidade absoluta das sombras da noite e a luz doirada que o fogo pinta sobre os elementos humanos, perdidos na escuridão.

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Infelizmente para As Armas de Jane e seus infelizes espetadores, uma prestação que apenas ganha energia nos seus momentos finais e uma diretora de fotografia inebriada pelas glórias de John Ford e Howard Hawks não são suficientes para tornar este projeto em algo minimamente prazeroso ou com algum significante valor cinematográfico. Entre os maiores pecados do filme contam-se, por exemplo, um uso constante, estúpido e desnecessário de flashbacks explicativos que apenas servem para acrescentar complexidades estruturais a uma história diabolicamente simples. Para além disso, há que ter uma certa admiração enfurecida por um filme que nos consegue apresentar Ewan McGregor e Rodrigo Santoro em papéis de vilões e completamente despidos da sua habitual e imparável mistura de carisma e energia. É praticamente um crime ou um milagre de corrosiva insipiência cinematográfica.

As Armas de Jane

O MELHOR: A fotografia do Velho Oeste e suas gloriosas paisagens desérticas pintadas em tons de amarelos ardentes e castanhos rudes.

O PIOR: A estruturação ensandecida do guião que pega numa história de simplicidade quase mítica e a complica desnecessariamente até se obter uma montanha de aborrecimento mortal e coerência mínima.


 

Título Original: Jane Got a Gun
Realizador:  Gavin O’Connor
Elenco:  Natalie Portman, Joel Edgerton, Ewan McGregor,  Noah Emmerich, Rodrigo Santoro

NOS | Drama, Western, Ação | 2016 | 98 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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