"O Bar Luva Dourada" | © Cinema BOLD

MOTELx ’19 | O Bar Luva Dourada, em análise

Depois de ter estado em competição na Berlinale, “O Bar Luva Dourada” passa, em antestreia, pelo MOTELx. O filme de Fatih Akin integra a secção Serviço de Quarto.

O cinema é uma arte audiovisual. Joga com imagem, com som e com tempo, apenas estimulando dois dos cinco sentidos aristotélicos. O toque, o olfato e o gosto, o balanço, a dor, a temperatura e tantas outras sensações não são afetadas, pelo que os cineastas têm de as sugerir através dos mecanismos próprios da sua arte. No que se refere ao cheiro, poucos filmes melhor usaram as ferramentas do cinema para o retratar que “O Bar Luva Dourada”. O mais recente trabalho do realizador germano-turco Fatih Akin tresanda a vomitado, a suor e salsichas bolorentas, a cerveja barata e Schnaps, a perfume de pinho que tenta esconder o fedor de carne putrefacta.

Este docudrama com rasgos de comédia negra conta a história verídica de Fritz Honka, um infame serial killer alemão originário de Hamburgo. Entre 1970 e 1975, ele matou quatro mulheres, desmembrou os seus cadáveres e guardou parte deles escondidos no seu apartamento. Só quando um incêndio deflagrou no edifício é que as autoridades se deram conta dos pedaços de seres humanos a apodrecer entre as paredes e prendaram Honka que, até então, tinha conseguido evadir-se de quaisquer suspeitas. Tal proeza não se terá devido tanto ao seu engenho e subtileza, mas sim ao modo como a polícia e a imprensa depressa perderam interesse nos casos das suas vítimas. A maioria das mulheres que Honka matou eram prostitutas envelhecidas que ele havia conhecido no Bar Luva Dourada, no distrito vermelho da cidade.

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Independentemente do país, os anais históricos sobre serial killers estão cheios de semelhantes casos em que a identidade das vítimas ajudou a resguardar o assassino do olho suspeito da polícia. Se Honka tivesse morto pessoas menos marginalizadas pela sociedade, talvez tivesse sido apanhado mais cedo. Com isso dito, outras doenças sociais também terão auxiliado o homicida. Segundo o filme de Akin, quando alguém se queixava do cheiro fétido que parecia transpirar das paredes do edifício, Honka punha as culpas em cima da família de imigrantes gregos que vivia no andar de baixo. Misoginia e racismo são armas tão importantes para um assassino como uma faca ou, pelo menos, assim foi no caso de Fritz Honka.

O filme de Fatih Akin não se parece interessar muito por tais questões. Elas surgem, é claro, mas mais como danos colaterais do que como parte do esqueleto ideológico da obra. O realizador propõe-se a recriar, com detalhe quase arqueológico, os homicídios e a vida de Honka na primeira metade dos anos 70 e essa mesma recriação depreende que tais ideias sejam obrigatoriamente levantas, nem que seja por acidente. Daí a comparar Akin a Fassbinder, Wenders e outros grandes nomes do Novo Cinema Alemão vai uma grande distância. Dizer que “O Bar Luva Dourada” está próximo de “O Medo Come a Alma” é quase o mesmo que dizer que o musical animado “Anastásia” está a dois passos do “Outubro” de Eisenstein.

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De facto, depois de 110 tortuosos minutos de degredo humano, não é difícil imaginar um espectador ultrajado a perguntar-se qual o porquê de todo este projeto. A Arte não tem de ter um propósito funcional, uma razão para existir ligada a uma sensibilização social ou mensagem moral. Também não tem de ser algo benigno ou necessariamente dentro de um sistema ético sano. Muitos grandes filmes são espetáculos estéticos profundamente desmiolados e outros tantos são obras-primas formais em defesa do Mal. Talvez o problema de “O Bar Luva Dourada” seja que os seus próprios criadores não parecem ter decidido bem o que queriam que o seu filme fosse. Por um lado, há uma procura hedionda pelo realismo, por outro, uma enfatização da comédia negra a ser encontrada no grotesco. No fim, contudo, o que temos é realismo vácuo e comédia sem piada.

A materialidade de Hamburgo dos anos 70 e do mundo de Honka certamente foi bem retratada. Como as fotos reais que adornam os créditos finais nos indicam, tanto os espaços como as personagens foram cuidadosamente recriadas, desde as paredes forradas com imagens pornográficas no apartamento de Honka até à face abatatada do assassino. As suas criações induzem mais enjoo que admiração, mas há que se reconhecer o rigor histórico do cenógrafo Tamo Kunz, da figurinista Katrin Aschendorf e da maquilhadora Maike Heinlen. Esta última acabou mesmo por ganhar um muito merecido Deutscher Filmpreis pelo seu trabalho no filme. Além destes feitos técnicos, esses prémios também nomearam alguns atores e é quase impossível discordar com tal decisão.

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Como os seus colegas atrás das câmaras, o elenco de “O Bar Luva Dourada” faz o melhor que pode com o guião e realização que têm. Jonás Dassler, completamente irreconhecível por detrás de várias próteses, dá vida a Honka como um patético exemplo de masculinidade impotente e rancorosa. Nas mãos do ator, o assassino é uma gárgula que cambaleia pelas ruas numa névoa de álcool e odeia o mundo, em parte porque parece demasiado estúpido para reconhecer-se a si mesmo como a fonte das infelicidades que o afetam. Como Gerda Voss, uma prostituta abusada por Honka, a fabulosa Margarete Tiesel mostra-nos uma mulher derrotada pelo tipo de malignidade que permeia por todo o universo do filme. É com muita pena que temos de dizer que ela é desperdiçada por Akin que, sempre que vira a câmara para as suas personagens femininas, parece só capaz de ver ora vítimas ou adereços simbólicos.

Alguns argumentarão que o cineasta está simplesmente a nos mostrar o mundo através do olhar odioso do protagonista, mas mesmo isso é contrariado pelo filme. Note-se que há um toque de ficção neste enredo histórico, sob a forma de uma adolescente idealizada como um bastião de beldade e pureza germânica. A sua história parece estar a caminho de um fado triste nas mãos do assassino, mas Akin usa o facto histórico para bloquear as ações do seu vilão. Trata-se de um piscar de olho ao espectador, um gesto que mostra o poder de quem se senta na cadeira do realizador e da inevitabilidade da História. Mesmo que unidimensional, esta jovem é poupada ao grand guignol de “O Bar Luva Dourada”. As outras mulheres em cena não têm tanta sorte e as memórias das vítimas reais de Honka são assim rudemente ressuscitadas para que o cinema possa imortalizar versões pornograficamente asquerosas das suas mortes e a mutilação dos seus corpos. As humilhações e violência que Honka desferiu sobre elas em vida são assim perpetuadas por Akin que, em vez de uma faca, empunha uma câmara que parece conseguir capturar o cheiro fétido da Morte.

O Bar Luva Dourada, em análise
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Movie title: Der goldene Handschuh

Date published: 2019-09-13

Director(s): Fatih Akin

Actor(s): Jonas Dassler, Margarete Tiesel, Katja Studt, Marc Hosemann, Martina Eitner-Acheampong, Adam Bousdoukos, Greta Sophie Schmidt, Tristan Göbel, Heinz Strunk, Victoria Trauttmansdorff, Hark Bohm, Philipp Baltus, Jessica Kosmalla, Tom Hoßbach, Laurens Walter

Genre: Crime, Drama, Terror, 2019, 110 min

  • Cláudio Alves - 25
  • José Vieira Mendes - 70
48

CONCLUSÃO:

A certa altura, em “O Bar Luva Dourada”, um velho embriagado intimida um jovem estudante na casa-de-banho do bar titular. Ele manda-o ficar quieto e urina sobre ele. A experiência de ver o filme não é muito diferente, só que somos nós a, audiência, aqueles sobre os quais o realizador Fatih Akin urina, choca e enoja.

O MELHOR: O rigor histórico da cenografia é tecnicamente primoroso.

O PIOR: A sanita mais nojenta da História do Cinema desde “Trainspotting”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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