Ben-Hur, em análise

Timur Bekmambetov perde uma boa oportunidade para honrar um dos maiores clássicos bíblicos da estória do cinema. Ben-Hur quase que se espalha ao comprido, sendo salvo tangencialmente por um Jack Huston carismático e um Morgan Freeman sempre em forma.

É este o problema dos clássicos, quando arrancam treze Óscares à Academia e adormecem no panteão dos imortais, tentar replicar o seu simbolismo e invocar a sua alma ao cabo de cinco décadas e meia, geralmente redunda em tragédia grega. E é exatamente nessa encruzilhada que se encontra Ben-Hur, muito por culpa de um realizador que tentou acordar um grande “faraó” numa época de “presidentes”, quase desbaratando o seu nome santificado num convívio forçado de representações postiças envenenadas por uma renderização abusiva.

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Bekmambetov bem que se esforçou por introduzir umas linhas airosas ao romance original, mas tentar reescrever uma estória já de si tão bem contada pelo general Wallace (Ben-Hur: A Lenda de Cristo – 1880) e executada melhor ainda por William Wyler (Ben-Hur – 1959) é, no mínimo, desafiar uma profanação divina. Ora vejamos: Messala (Toby Kebbell) vira irmão adotivo de Ben-Hur (Jack Huston); o ataque a Pôncio Pilatos (Pilou Asbæk), que dita o desfecho fatídico de Hur, é desencadeado por uma conspiração de zelotas; o consûl romano Quintus Arrio (James Cosmo) é mera figura decorativa; o sheik arábe Ilderim (Morgan Freeman) parece parente de Bob Marley; o final da história é digno de uma telenovela mexicana.

“Bekmambetov bem que se esforçou por introduzir umas linhas airosas ao romance original, mas tentar reescrever uma estória já de si tão bem contada (…) é, no mínimo, desafiar uma profanação divina.”

Mas se o realizador cazaque reitera que o seu filme é uma “reinterpretação” e não um “remake” direto, a verdade é que, a espaços, soa mais a uma espécie de “reimaginação” quase subversiva da forma e espírito originários. A estória centenária é sobejamente conhecida: Judah Ben-Hur – um príncipe judeu falsamente acusado de traição pelo seu amigo de infância, é condenado à escravatura, aonde encontra nas corridas de quadriga um meio de vingança. E se naquela altura Charlton Heston comandava uma presença viril repleta de alma e coração, o seu sucessor contemporâneo, Jack Huston – neto do grande John Huston -, não reclama para si a mesma dimensão presencial, falando mais com aquele tipo de olhar petrificante e mulherengo que se esforça por acompanhar a emotividade das palavras. Na cena em que é escravo num galeota e na incumbência de incentivar os seus camaradas de remos, os bramidos de encorajamento soam mais a uma mensagem de uma organização de defesa dos direitos humanos, do que alguém que recorre às vísceras em tom de revolta e desesperação.

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Não queremos com isto afirmar que Jack Huston seja um mau ator, antes pelo contrário, mas se olharmos para a personagem de Jesus interpretada fugazmente por Rodrigo Santoro, fica a impressão de que os papéis deveriam ter sido invertidos, uma vez que o primeiro vinca mais aquela aura de santo que o segundo já mostrara na pele de Xerxes (300) ser capaz de se demarcar. Mesmo Toby Kebbell mimetiza este Messala com uma linguagem corporal forçada que deixa transparecer o amadorismo de algumas representações, deixando no ar o que possa ser, talvez, um erro de casting tendo em conta a magnitude do filme, que custou aos cofres conjuntos da MGM e Paramount cerca de cem milhões de dólares a produzir. As restantes atuações são praticamente esquecidas, com a excepção das deixas eloquentes de Morgan Freeman que servem mais para conferir estatuto a este “Ben-Hur” que não lembra a ninguém.

“Jack Huston (…) não reclama para si a mesma dimensão presencial, falando mais com aquele tipo de olhar petrificante e mulherengo que se esforça por acompanhar a emotividade das palavras.”

Percebe-se a intenção de Bekmambetov em afastar o guião de uma colagem literal à fita de cinquenta e nove, despojando-a da crueza e “gore” que romanceiam esta nova versão feita “à la carte” para um público mais casto e familiar. Não é por acaso que Gore Vidal – roteirista do primeiro Ben-Hur – afirma que tenha escrito o guião a pensar numa relação homossexual entre Ben-Hur e Messala, que aqui aparece esquecida e transformada num bromance – uma relação masculina estreita sem contacto sexual. Do mesmo modo que a temática de vendeta aqui implícita surge claramente atenuada por um conceito de perdão e reconciliação exacerbados, pelo menos para o comum dos mortais. E mesmo que a paridade da linha temporal com o evento histórico da crucificação de Cristo justifique um apego aos valores morais judaico-cristãos, a vontade do realizador esbarra inevitavelmente na respetiva execução, arruinando a cinematografia com filtros e cosmética visual que em nada beneficiam a credibilidade dos acontecimentos narrados.

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E chegámos finalmente à famosa corrida de quadrigas, que podemos já adiantar: não bate em realismo e espetacularidade o original. Mais uma vez, Bekmambetov foi cauteloso na abordagem, e embora tenha recorrido a uma filmagem rasteira com câmaras Go Pro no sentido de conferir uma maior sensação de perigo e velocidade, a coreografia dos despistes e colisões possui algo de artificial e computorizado que retira brilho e fulgor a um dos maiores duelos mano a mano da estória do cinema. Até os espigões da quadriga de Messala foram omitidos como se houvesse um pacto anti-violência, restando no final das “vueltas” um sabor de pouca consolação.

“(…) A vontade do realizador esbarra inevitavelmente na respetiva execução, arruinando a cinematografia com filtros e cosmética visual que em nada beneficiam a credibilidade dos acontecimentos narrados.”

Ben-Hur é mais um exemplo gritante de como existem filmes que não podem nem devem ser reavivados, mas é também a constatação de como a indústria cinematográfica vive mergulhada numa crise de identidade e criatividade, creditanto tudo quanto seja “popcorn hour” com resmas de efeitos especiais em prol das massas. Ben-Hur é um filme que após o seu visionamento, faz-nos querer revisitar o seu antecessor pelos piores motivos, e isso quer dizer tudo.

O MELHOR – Apesar da mansidão representativa de Jack Huston como Ben-Hur, existem momentos de alguma entrega e veracidade emocional coadjuvada pela presença sempre eloquente e firme de Morgan Freeman, mesmo que num papel mais secundarizado. A corrida de quadrigas salva o enredo da estagnação e falta de entrega da maioria das personagens.

O PIOR – Interpretações frouxas e sem vida denotam algum amadorismo; deturpação da estória original quase ridicularizada nesta nova abordagem; edição abusivamente renderizada.


Título Original: Ben-Hur
Realizador:  Timur Bekmambetov
Elenco: Jack Huston, Toby Kebbell, Morgan Freeman, Rodrigo Santoro
NOS | Drama | 2016 | 125 min

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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