Classic Fever | Monty Python e o Cálice Sagrado (1975)

 

O Cálice Sagrado dos Monty Python é o pote de ouro no final do arco-íris.

 

O QUE É QUE VOU RELEMBRAR HOJE?

“Monty Python e o Cálice Sagrado” (1975), de Terry Gilliam e Terry Jones e protagonizado por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin.

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MAS AFINAL DO QUE É QUE TRATA?

No ano de 932 D.C., o rei Artur consegue convencer Sir Lancelot, Sir Galahad e Sir Robin a juntarem-se à irmandade da Távola Redonda. Depois de uma aparição divina, os bravos cavaleiros partem em busca do muito apetecido Cálice sagrado.

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PORQUE É QUE NÃO POSSO PERDER?

“Pythonesque”, ou em português algo parecido com “pythonesco”, é hoje uma palavra com presença oficial em vários dicionários britânicos, descrevendo alguma coisa com humor absurdo, surreal e imprevisível. Terry Jones, um dos membros dos Monty Python, admitiu-se desapontado com a existência de tal termo, afirmando que o objetivo inicial do grupo era criar algo novo e de categorização impossível: “o facto de a palavra “pythonesco” estar agora no Oxford English Dictionary mostra o quanto falhámos”.

Tendo ou não originado uma nova palavra no léxico universal, não seria um ultraje, nem aqui nem em Marte, considerar Monty Python uma autêntica instituição do humor. Estando para a comédia como os Beatles estão para a música, o grupo britânico é tido como um dos mais irreverentes de que há memória, e os parentes mais ricos do bom humor non-sense. A sua influência é hoje imensurável, e por isso mesmo, inegável – desde South Park aos nossos Gato Fedorento, a fonte de inspiração de inúmeros comediantes está incontornavelmente neste grupo de seis tipos que parecem não funcionar bem com a caixa dos pirolitos.

O fenómeno cultural rebentou no fechar da cortina dos anos 60, e pode dizer-se que se estendeu de muito boa saúde até ao momento em que estiverem a ler esta crítica, seja lá quando isso for. A televisão, o teatro, a literatura, a música e a indústria de jogos renderam-se aos seus encantos, e o Cinema, claro está, também o fez.

Tirando os clássicos e os objetos de culto, o Cinema vê no tempo um dos seus piores inimigos. As referências, as piadas, as alusões e até o comportamento dos atores e da câmara (já para não falar do resto), mudam e evoluem, e muitos filmes cessam a sua existência no seu sentido mais lato no dia de Amanhã. Para as comédias isto é especialmente verdade – as piadas sobre o facebook não serão eternas. Mas Monty Python e o Cálice Sagrado tem aquele dom raro de continuar tão hilariante e fresco como provavelmente o foi no seu dia de estreia. Na verdade, os seus gags são tantos e tão bons que é quase sintomático que não prestemos atenção a mais nada – num ambiente populado por cotos humanos que recusam aceder à derrota e cavaleiros que dizem “Ni!”, é difícil atentar na precisão do design dos sets e atenção ao detalhe ou no rigor do guarda-roupa e costumes de época, por exemplo.

 

Veja também: uma fantástica possibilidade de cruzamento entre os Monty Pyhton e a LEGO

 

Os Python utilizam a sátira para expor algumas das mentiras que certamente existirão na literatura inglesa, que pinta os cavaleiros como seres infinitamente nobres e sagrados, algo que não devemos encarar como mero gozo desprovido de sentido, mas uma crítica consciente das convenções impostas pelos antepassados que tantas vezes receamos contestar. Mas o que se cria naqueles surreais 90 minutos é impossível de transpor para uma página branca, adornada de conjuntos de letras, e ainda mais o é para aqueles que não estejam familiarizados com o seu tipo de humor, que é, não poucas vezes, negro e dotado de uma natureza mais subversiva tornando-o, por isso mesmo, menos mainstream.

Muitos fãs do grupo consideram “A Vida de Brian” a melhor incursão cinematográfica do grupo – o que é desafiado por esta que vos escreve. Talvez por ter sido o primeiro contacto com o grupo britânico, “O Cálice Sagrado” tem um lugar especial no meu coração, e acredito também que é o filme mais acessível àqueles de vós que se estejam a iniciar nestas lides pythonescas.

A anarquia é a palavra de ordem, bem como uma completa e consciente indiferença às convenções da estrutura de um enredo e um desinteresse em manter os acertos técnicos a rédea curta. Afinal, ninguém quer ver os Monty Python na procura de um Cinema tecnicamente perfeito e correto. O que procuramos é rir, rir e rir e depois, rir mais um pouco se possível, das coisas mais disparatadas com as quais nos possamos defrontar. Admirar este Cálice é, no fundo, abraçar o absurdo. Mas um absurdo inteligente, capaz de contornar todas as dificuldades – talvez a maior delas tenha sido o baixo orçamento, até ele encarado de uma forma hilariantemente criativa, com exemplo célebre na solução alternativa à impossibilidade de pagar por cavalos verdadeiros no set do filme.

Quem precisa de prémios, ou votações, ou consagrações quando edifica a mais pura arte de fazer rir?

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UMA FRASE PARA A POSTERIDADE

I fart in your general direction! Your mother was a hampster, and your father smelt of eldeberries!

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PARA FICAR NO OLHO E NO OUVIDO (DA MENTE)

 

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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