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Enquanto a Guerra Durar, em análise

Estreado durante a CineFiesta 2019, chega agora às salas ‘Enquanto a Guerra Durar’ o novo filme do realizador espanhol Alejandro Amenábar que aborda os últimos meses da vida do escritor e filósofo Miguel de Unamuno, quando é confrontado nos seus ideais humanistas, após o golpe de militar franquista de 1936, em Espanha.

Nem sempre tem sido fácil a convivência e as polémicas teóricas sobre a relação entre cinema e história. No entanto, também é verdade que são esses filmes — mesmo com um toque de ficção — que abordam os fatos do passado que nos dão por vezes um leitura e uma melhor compreensão do presente. É o caso de ‘Enquanto a Guerra Durar’, o novo filme de Alejandro Amenábar (‘De Olhos Abertos’, ‘Os Outros’ e ‘Mar Adentro’, que lhe valeu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro). O espanhol quase sempre se tem pautado por essa ideia de contar boas histórias da história, nos seus filmes anteriores, — e já lá vão sete — mesmo que sejam ficções, curiosamente todas rodadas fora de Espanha, excepto esta. Desta vez segue uma narrativa real, para abordar o confronto ideológico que aconteceu na Universidade de Salamanca, entre o escritor e filósofo humanista Miguel de Unamuno  (Karra Elejalde) e o general Millán Astray (Eduard Fernández), um radical de extrema-direita e ideólogo do franquismo, no período que antecedeu ao início da Guerra Civil Espanhola de 1936. Em parte este confronto ideológico do século passado ajuda a compreender muitas das questões da Espanha de hoje, no meio de uma crise de valores políticos e de unidade nacional. 

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A 18 de Julho de 1936 em Espanha, um grupo de militares liderados pelos generais Emilio Mola (1887-1937) e Francisco Franco (1892-1975) realizaram um golpe de Estado contra o Governo da Segunda República. O escritor e filósofo Miguel de Unamuno (1864-1936), numa primeira instância assumiu publicamente o seu apoio a esta revolta militar que prometia trazer ordem ao país e acabar com a instabilidade dos governos republicanos. Essa tomada de posição contra o Governo fez com que fosse despedido da sua função de reitor da Universidade de Salamanca. Enquanto isso, o general Franco  (Santi Prego) consegue juntar tropas e começa uma campanha para tentar subtilmente assumir o comando da revolta e a liderança da guerra contra os republicanos. As consequências terríveis e a repressão que se seguem, com alguns dos seus companheiros e amigos a serem presos e mortos, fazem com que Unamuno questione a sua posição inicial e se revolte contra os militares, num discurso tremendo de humanismo e clareza, contra a cegueira ideológica e pesadelo dos gritos fascistas de: Viva la muerte! Unamuno acabou por ser salvo da violência dos fascistas por Carmen Polo (Mireia Rey), a mulher de Franco que presidia à solenidade na Aula Magna da Universidade de Salamanca.

A crítica sobretudo a histórica tem arrasado Amenábar e ‘Enquanto a Guerra Durar’. Contudo é de admirar o seu risco de realizar este drama histórico intimista, muito bem reconstituído e interessante do ponto de vista cinematográfico; e ao mesmo tempo confirmar o talento de Amenábar e esse sua persistência de tentar contar histórias pensando no grande público, independentemente do completo rigor histórico ou da ficção. Mesmo os espanhóis, certamente poucos devem conhecer este episódio marcante da sua História. Para além disso é notável como o realizador procura (e consegue mesmo em grande parte graças à brilhante interpretação e composição do actor Karra Elejalde) humanizar um personagem moralmente dúbio, astuto, contraditório, teimoso e muitas vezes equivocado como Miguel de Unamuno.

“…o confronto ideológico do século passado deste filme, ajuda a compreender muitas das questões da Espanha de hoje…”

Não deve ser nada fácil! Unamuno representa bem essa essência impulsiva dos espanhóis, e a figura do intelectual irreverente que acabou por empurrar História para a frente. Mas não sem que sejam reveladas no filme as suas contradições, muitas vezes chocantes de um homem inteligente e bem-formado, que tem dificuldade em reconhecer que se enganou. Era isso é que era importante revelar num filme sobre Miguel de Unamuno: por um lado o mito, por outro a história do homem.

Enquanto a Guerra Durar, em análise
Enquanto a Guerra Durar

Movie title: Mientras dure la guerra

Date published: 24 de November de 2019

Director(s): Alejandro Amenábar

Actor(s): Eduard Fernández, Inma Cuevas, Karra Elejalde, Luis Bermejo, Luis Zahera, Nathalie Poza, Patricia López, Santi Prego

Genre: Drama histórico, 2019, 107 min

  • José Vieira Mendes - 70
70

CONCLUSÃO:

‘Enquanto a Guerra Durar’, não é apenas um filme sobre Unamuno-Millán-Astray e Franco, mas ante um grande alerta do passado sobre a situação actual da Espanha, sobre o seu futuro, e sobre o regresso do fascismo e dos partidos de extrema-direita à Europa.

O MELHOR:
Uma maneira de conhecer e compreende melhor a história do nosso país vizinho, mesmo que em parte se torne numa ficção e a interpretação de Karra Elejalde.

O PIOR: A controvérsia quanto à veracidade dos factos e a ‘verdade do filme’ ainda não terminou.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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