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Mulherzinhas, em análise

“Mulherzinhas” é mais uma triunfal manifestação da especificidade criativa de Greta Gerwig, uma realizadora que brilha através da compaixão e humanidade que transparecem no seu tratamento do objecto fílmico e das personagens que nele habitam.

Estreada em Portugal a 30 de janeiro, esta versão atualizada da referência da Literatura de Louis May Alcott merece tornar-se um clássico que extravasa para lá de “amarras de género”.

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Em primeiro lugar, há que admitir que esta será uma análise resultante de um ponto de vista distinto de muitos outros. É a visão de alguém que nunca leu o romance semi-autobiográfico publicado por Louisa May Alcott em 1868. Nem tão pouco teve contacto com as inúmeras adaptações – ao cinema, televisão, teatro ou rádio – que a obra originou desde então. O período da adolescência destinado à descoberta dos clássicos escritos por grandes autoras do século XIX fixou-se muito nas irmãs Brontë e em Jane Austen. “As Mulherzinhas” de Alcott ficaram sempre envoltas em mistério, tomadas à partida como uma manifestação excessivamente jovial ou livro fundador do género infanto-juvenil.

Foi Greta Gerwig, com a sua apresentação de “Mulherzinhas”, que me confrontou com a obra pela primeira vez, e como testemunho do seu triunfo, será agora um passo inevitável ler o livro e comparar a sua visão deste mundo com todas as outras já apresentadas em cinema.

 

Mulherzinhas
Emma Watson, Saoirse Ronan, Florence Pugh e Eliza Scanlen como as irmãs March |©Big Picture Films

“Mulherzinhas” conta com um elenco de luxo, que não só eleva o texto mas acima de tudo entra na dança precisa de Greta Gerwig. A história de quatro irmãs – Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Amy (Florence Pugh) e Meg March (Emma Watson), todas elas bem diferentes, tem como pano de fundo a Guerra Civil Americana, que aconteceu entre 1861 e 1865. As irmãs vivem na cidade de Concord, Massachusetts, um Estado do Norte do país, não muito longe de Nova Iorque, que lutou então do lado vencedor da guerra. Esta guerra determinante na história dos Estados Unidos da América serve acima de tudo para nos fornecer contexto e para reconhecer a natureza bondosa da família March e especialmente da sua matriarca, Marmee (Laura Dern).

Conhecemos as irmãs na sua infância, mas a estrutura narrativa coloca-nos numa permanente dualidade. Passado e futuro confluem, e oscilamos entre o início da sua vida adulta, já depois de terminada a Guerra, e os anos do conflito. Os flashbacks são constantes e uma nova adição por parte de Gerwig, que decide não seguir a habitual estrutura cronológica sequencial das restantes adaptações, as quais emulavam a estrutura do romance.

Esta opção, a de constante recurso à analepse e prolepse, enriquece a nobreza da obra de Gerwig. Estas quatro irmãs  – a determinada Jo, a reservada Beth, a impulsiva Amy e a caridosa Meg – conseguem crescer, em pouco mais de duas horas, ao ponto de todas elas se tornarem personagens com uma autonomia notável. Jo é a clara âncora narrativa, não fosse ela evidentemente modelada a partir da própria autora. Ainda assim, as restantes irmãs não se tornam indiferenciáveis, como se viu acontecer em outros romances históricos sobre um grupo de irmãs, tendo em mente, por exemplo, o evidente exemplo de “Orgulho e Preconceito”, baseado no livro de Jane Austen. Aí, Lizzie Bennet ofusca as restantes irmãs ao ponto de tornar, diversas delas, quase redundantes.

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Saoirse Ronan como Jo March, a heroína da história  |©Big Picture Films

Greta Gerwig faz um trabalho notável em “Mulherzinhas”, ao conseguir apresentar um romance histórico com uma nova roupagem. E não é necessário conhecer a obra para reconhecer tal valência. Há uma tendência inevitável quando se faz este género de cinema. Adaptações literárias, romances que se prendem com certa época e os seus costumes… O formalismo e o excessivo zelo académico levam muitas vezes à criação de obras estéreis, que se limitam a transpor, nada mais.

Aqui, sentimos que a realizadora e argumentista luta contra as barreiras que condicionam as suas “Mulherzinhas”. Presas ao capital social mínimo de uma mulher do século XIX, há um esforço para tentar ao máximo dar-lhes espaço para explorarem as suas idiossincrasias sem que a nota feminista do filme se torne anacrónica. É sem dúvida um desafio, pois esta linha poderia ser facilmente ultrapassada. Se por vezes anda lá perto, nunca o faz.

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Regressando à recusa de um formalismo excessivo, há também uma certa rigidez que, por vezes, resulta em detrimento dos romances de época no cinema. Nada disso em “Mulherzinhas”, onde a dança vai muito além das danças de salão.

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Louis Garrel e Saoirse Ronan em “Mulherzinhas” |©Big Picture Films

A atenção ao detalhe é exímia, e Greta Gerwig (claramente mais maturada na realização) sabe comandar o seu espaço cénico, desenhando uma coreografia de corpos mas também de vozes. Uma sinfonia reconfortante e que nos faz sorrir com sinceridade, “Mulherzinhas” é verdadeiramente quente, em particular nas partes que retratam a infância das irmãs.  Quando todas falam em uníssono, quando lutam, quando demonstram emoções exacerbadas e típicas de uma fase de encantamento antes do difícil empreendimento que é crescer. Quando choram, gritam, riem, quando respiram vida no grande ecrã. Estas irmãs parecem reais, não personagens arrancadas das páginas de um livro escrito há mais de 150 anos atrás.

Estas são heroínas do dia-a-dia, tal como o era a protagonista de “Lady Bird” (2017) – o anterior sucesso de Greta Gerwig. Tal como fora “Frances Ha”, personagem titular que Greta interpretou num filme que escreveu a meias com Noah Baumbach (“Marriage Story”). Até nas suas escolhas de papéis, enquanto atriz, tínhamos notado esta tendência para retratar as heroínas do quotidiano. Um bom exemplo é “Mulheres do Século XX” (2016), uma pequena pérola na qual três mulheres, de gerações diferentes, educam um jovem rapaz adolescente. Na sua infinita empatia, Gerwig compreende e deixa bem explícito que as vidas “banais” conseguem ser, na realidade, extraordinárias.

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No elenco, Saoirse Ronan continua a provar como é, de facto, uma das grandes da sua geração, e com este filme alcança a sua quarta nomeações ao Óscar com apenas 25 anos de idade. É a segunda mais nova a chegar a este número, suplantada por Jennifer Lawrence apenas por alguns meses. Emma Watson é apenas aceitável, embora dê mais de si do que é habitual. Eliza Scanlen como Beth é a que menos tempo tem para se fazer valer. Timothée Chalamet como Laurie, Laura Dern como Marmee e Meryl Streep como Tia March compõem o forte elenco secundário e embora não roubem a cena, sabem bem compô-la.

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Florence Pugh termina o seu marcante ano cinematográfico como Amy March |© Big Picture Films

Contudo, entre as interpretações, Florence Pugh é mesmo o grande destaque que salta à vista (ou pelo menos a maior surpresa). A sua Amy é caprichosa, emotiva, sonhadora, impulsiva. Faz-nos rir mais do que qualquer outra personagem, e é a que mais consegue mostrar uma clara evolução entre as duas linhas temporais do filme. Embora não parecesse uma criança de 12/ 13 anos, nem perto disso, nos momentos reservados à infância, agia sem dúvida como tal. Quem a viu, em 2019, em “Midsommar – O Ritual ” ou quem a viu já em 2016 em “Lady MacBeth”, contempla este papel com a certeza de que Pugh, de 23 anos, é uma camaleónica força da natureza.

Este belo triunfo tem poucos pontos a criticar severamente. Há que admitir, contudo, um único verdadeiro problema notável, que por vezes quebrava a nossa crença nesta realidade. Ironicamente, entre as atrizes que dão vida às irmãs March nenhuma é americana. Emma Watson recuperava, entre cenas, o seu notório sotaque britânico, e até Saoirse Ronan pendia para o irlandês nas cenas mais tensas. A inglesa Pugh foi a única a aguentar o sotaque americano de forma consistente.

Para a entrega dos Óscares em 2020, que acontece já no próximo dia 9 de fevereiro, “Mulherzinhas” segue com 6 nomeações, para: Melhor Filme, Melhor Atriz para Saoirse Ronan, Melhor Atriz Secundária para Florence Pugh, Melhor Argumento Adaptado para Greta Gerwig , Melhor Guarda-Roupa para Jacqueline Durran e Melhor Banda-Sonora Original para o sempre notável Alexandre Desplat.

No campo da realização, falando dos Óscares, Greta Gerwig não deveria ter sido nomeada “apenas por ser mulher”, como muito debate apatetado procurava contra-argumentar. Deveria ter sido nomeada por ter criado uma bela, honesta e cuidada teia de afeições. Se ao menos todas as adaptações cinematográficas de grandes romances tivessem o seu fulgor.

Mulherzinhas, em Análise
Mulherzinhas

Movie title: Mulherzinhas

Date published: 2020-01-30

Director(s): Greta Gerwig

Actor(s): Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet , Meryl Streep

Genre: Drama , Romance Histórico

  • Maggie Silva - 95
  • Rui Ribeiro - 90
  • José Vieira Mendes - 70
  • Virgílio Jesus - 100
89

CONCLUSÃO

“Mulherzinhas” marca um amadurecimento na filmografia de Greta Gerwig enquanto realizadora, e prova uma vez mais que a sua migração para trás das câmaras foi bem mais do que um feliz acaso. Uma história intemporal, uma estrutura que bebe do passado e lhe injecta a marca do presente. Tudo isto sem perder a credibilidade.

O MELHOR: O calor humano e a emotividade não lamechas permeia “Mulherzinhas”, num argumento e realização com invulgar amabilidade.

O PIOR: Nem todos os pequenos detalhes ficam inteiramente claros para quem não tenha um conhecimento prévio da obra.

Os sotaques americanos das atrizes deveriam ter sido mais trabalhados, para que a ilusão de realidade não fosse comprometida em tempo algum.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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