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Para Sama, em análise

‘Para Sama’, um documentário cru filmado pela jovem síria Waad Al-Kateab — e co-realizado em parceria com o britânico Edward Watts — que deu à luz no meio da guerra em Aleppo, chega como favorito aos nomeados aos Óscares 2020, na sua respectiva categoria.

Depois de ter passado fora da competição do Festival de Cannes 2019, ter sido premiado em vários festivais internacionais e ter ganho ontem um BAFTA, ‘Para Sama’, está com naturalidade entre os cinco nomeados ao Óscar de Melhor Documentário 2020. Filmado durante a guerra civil síria, o documentário centra-se essencialmente na trágica história de um médico dissidente e da sua companheira que vivem em Aleppo, cujo único sonho na vida é derrubarem o regime de Assad e viverem em democracia. Atrás da câmara está a sua futura mulher Waad Al-Kateab, que era então estudante de marketing da Universidade de Aleppo, quando os protestos contra a ditadura da família al Asad, começaram na primavera árabe de 2011. Durante cinco anos, Al-Kateab registou a destruição da cidade, vendo como seus sonhos — e do futuro marido — desabaram juntamente com os edifícios bombardeados pelo exército de Bashar al Asad e, pelos aviões e helicópteros russos.

Para Sama
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A jovem Waad Al-Kateab tornou-se conhecida no Reino Unido, pelas suas reportagens intituladas Inside Aleppo, produzidas para o canal britânico Channel 4 e, que mostravam cruamente a crise humanitária que o país estava a sofrer durante o conflito sírio. Agora em ‘Para Sama’, somos ‘convidados’ a acompanhar a jornada pessoal de Waad Al-Kateab, incluindo o seu casamento — precisamente com Hamza, — e o nascimento da sua filha Sama. Edward Watts, o premiado e experiente realizador e documentarista britânico, co-dirigiu este filme para ajudar a criar uma impressionante e chocante história  sobre a guerra da Síria.

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TRAILER DE ‘PARA SAMA’

A estrutura do filme é como se fosse uma carta de Waad Al-Kateab dirigida a sua filha Sama, explicando porque é que a sua mãe entrou na revolução e decidiu ficar em Aleppo no hospital de campanha onde seu pai, Hamza, trabalhava como médico. Apesar dos riscos que todos corriam e de verem tantos amigos perderam as vidas: o jovem médico que assistiu aos primeiros sinais vitais de Sama morreu após um atentado; e muitos outros amigos e parentes também morreram por causa dos ataques. Al Kateab consegui capturar momentos íntimos e terríveis da sua vida e do seu marido Hamza, que dirigiu esse hospital improvisado no leste da cidade. A documentarista filmou, cenas dolorosas, com crianças gravemente feridas que morreram enquanto suas mães choravam desesperadamente; e depois de um recém-nascido inerte e de uma mãe ferida, que por milagre ambos se salvaram. Waad al Kateab gravou tudo com sua câmara duma forma crua e verdadeiramente impressionante, para qualquer espectador.

For Sama
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A loucura do jovem casal é ainda mais evidente quando a família vai à Turquia visitar um parente doente e  acaba novamente por regressar à Síria, com a filha filha ainda bebé, para continuar o seu trabalho, esquivando-se das bombas e cortando caminhos a pé, entre as linhas dos rebeldes e do exército do governo. No entanto, apesar de todos os perigos o casal e Sama ficaram em Aleppo até ao último hospital, administrado pelos opositores rebeldes ao governo de Bashar al Asad, ter que permanecido em pé. A família deixou a cidade em 2016, refugiou-se na Turquia e vive agora em Londres.

Para Sama
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‘Para Sama’, diferencia-se em relação aos outros documentários sobre a guerra na Síria — como por exemplo The Cave, mais um dos nomeados, ao Óscar com a chancela da National Geographic, sobre o sexismo e as mulheres-médicas — porque centra-se essencialmente nas motivações humanitárias (além das políticas obviamente) daqueles que decidiram ficar nas áreas afetadas pela guerra, para tratar dos feridos. Uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo e numa guerra, que raramente é contada. Isto é, a história de quem fica nos bastidores, para cuidar das mazelas da guerra, misturada com as jornadas de resistência dessa jovem família.

Para Sama
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De qualquer forma, o filme sofre de algumas importantes lacunas sobretudo de posicionamento: não analisa o que aconteceu na Síria e no mundo árabe do ponto de vista político. Os protestos de 2011 na Síria parecem não ter qualquer relação com os outros movimentos nos países do norte da África. Não há qualquer menção à influência dos países ocidentais, que forneciam armas aos rebeldes; não é referida a questão das milícias islâmicas que recrutavam civis à força, para combater e derrubar o regime de Bashar al Asad. O filme até faz supor que os únicos inimigos seriam os russos, independentemente de todo o contexto internacional; e não aborda o motivo pelo qual os russos se aliarem a Assad. Compreende-se que a situação política não seja a prioridade de Waad Al-Kateab, que sofreu na pele as consequências dessa guerra, mas, depois, e com a ajuda do seu co-realizador britânico Edward Watts talvez tivesse sido possível fazer uma análise mais macro-política e objectiva da situação da guerra da Síria e tivesse menos reality-show. Chocante é um facto mas ‘Para Sama’, seria efectivamente um documentário muito mais sério e menos tendencioso. Mas os prémios e o público é que mandam!

JVM

Para Sama
Para Sama

Movie title: For Sama

Date published: 3 de February de 2020

Director(s): Waad Al-Kateab, Edward Watts

Actor(s): Waad Al-Kateab, Hamza Al-Khateab, Sama Al-Khateab

Genre: Documentário, Reino Unido/Síria, 2019, 100'

  • José Vieira Mendes - 65
65

CONCLUSÃO

’Para Sama’ é um documentário devastador pois regista a forma como a cidade síria de Aleppo se tornou num campo de batalha diante das lentes da jovem realizadora e operadora de câmera que, no meio de tudo isso, casa-se e fica grávida. No entanto é apenas uma visão muito pessoal e pouco objectiva da guerra da Síria.

O MELHOR: a crueza das imagens são de arrepiar e chegam mesmo a levar-nos a questionar como isto é possível na Humanidade no século XXI;

O PIOR: o filme é uma visão demasiado limitada, tendenciosa e subjectiva para o contexto internacional sobre a guerra da Síria.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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