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Tenet, em análise

O muito aguardado ‘Tenet’ de Christopher Nolan, não vai salvar o cinema, mas na ficção vai livrar o mundo de uma III Guerra Mundial. E espero que arranque os espectadores do streaming, para viverem grandes emoções em segurança e muita adrenalina, só possíveis com um grande filme, num grande ecrã de cinema.

Começo por dizer que não tenho nada contra o streaming pois uma boa parte da minha cinéfila até foi construída através da televisão e da videocassete. O streaming é obviamente uma evolução tecnológica de um modo de ver cinema. E vou esquecer a pandemia porque há algumas semanas que é possível ir ao cinema em condições sanitárias seguras e desfrutar de bom filmes no calor do estio. Por isso, ‘Tenet’ o tão aguardado filme de Christopher Nolan (‘Origem’, ou ‘Dunkirk’) é o filme ‘master’ deste verão e definitivamente, mais uma obra incontornável do genial realizador britânico, que só deve ser visto numa boa sala de cinema e em melhores condições que um mero dispositivo móvel. O filme está disponível também no IMAX, portanto aproveitem! De qualquer modo, não se pode exigir que ‘Tenet’ venha salvar o cinema, até porque estava praticamente pronto antes do encerramento das salas e até sofreu bastante com isso, com sucessivos adiamentos à data de estreia. Finalmente chegou e tornou-se indispensável assistir a este belíssimo regresso à magia do cinema, através de um sofisticado thriller de espionagem, que é uma inteligente combinação do género ‘007 James Bond’, com o futurismo tecnológico da saga ‘MI-Missão Impossível’. O argumento é complexo e disruptivo, aliás na linha de ‘Memento’ (2000), filme que lançou Nolan no patamar dos grande cineastas-autores mundiais. É exactamente ‘Memento’ que aparece logo como a referência de ‘Tenet’, pois Nolan volta a trabalhar a questão das memórias do presente e do futuro, conjugadas com a ameaça de uma possível III Guerra Mundial. Não nuclear, mas num momento fictício de tensão mundial e de um futuro próximo que caminha para uma ‘guerra crepuscular’. O conceito de uma narrativa palíndromo é sintetizado logo pelo título ‘Tenet’, uma palavra que se pode ler da mesma maneira de frente para trás. ‘Tenet’ é um thriller de ação metafísica, gigantesco — as suas 2h30 são talvez o seu único contra — divertido, no qual está um musculado ‘action man’ (John David Washington), — o protagonista de ‘BlacKkKlansman: O Infiltrado’, de Spike Lee, foi em tempos jogador foi jogador de futebol americano e é filho de Denzel Washington — chamado de ‘Protagonista’ que tem de lutar contra incursões cósmicas do futuro, enquanto o tempo flui para trás e para frente ao mesmo tempo. Esta ideia de anular a sequência de causa e efeito, para mexer com o tempo é loucamente absurda mas funciona, ainda mais sobrecarregada com muita adrenalina e ilimitada criatividade que combina especulação com conceitos científicos, física com entropia ou teoria da relatividade. E a energia é tanta que faz com que o espectador tenha imensa vontade de arrancar a máscara de protecção facial para respirar, sobretudo em momentos absolutamente vertiginosos, em que não sabe muito bem o que se está a passar e onde ironicamente também os protagonistas usam máscara.

Tenet
Robert Pattison é um ‘demodé’ agente -secreto britânico. © NOS Audiovisuais

Robert Pattinson interpreta Neil um misterioso agente dos serviços secretos britânicos, com momentos de humor inexpressivo, e com um estilo de vestir bastante deselegante e antiquado e o oposto de 007. Em Mumbai, contacta com um obstinado ‘Protagonista’, (John David Washington), um herói-sem-nome, que entretanto recebeu ordens de uma obscura agência do governo norte-americano para enfrentar uma nova situação da Guerra Fria: um ataque do futuro de forças capazes de reverter o tempo. Washington, o actor, não capital dos EUA, é alertado para a estranheza da existência de armas que sugam as balas da parede quando puxa do gatilho, alterando assim a natureza física do objectos, na tal reversão do conceito de entropia. A sua missão vai ser a de descobrir quem está a usar essa terrível tecnologia e como ela pode ser combatida para salvar um mundo dividido não já em grandes potências, mas organizações criminosas internacionais que manobram os países e o tempo. Isso leva nosso ‘Protagonista’ a entrar em contato com uma magnata indiana (Dimple Kapadia), um mal-encarado oligarca russo (Kenneth Branagh), que parece ser a chave do problema e Kat (Elizabeth Debicki, vimo-la recentemente em ‘Viuvas’), a tragicamente manipulada, alta e esguia esposa do criminoso, que se entretem a comercializar arte falsificada. Já me esquecia da pequena participação do veterano Michael Caine, — figura indispensável em qualquer filme de espionagem, com sotaque britânico — no papel de um ‘garganta funda’, que revela a existência ainda de cidades secretas russas ainda do tempo da URSS.

TRAILER DE ‘TENET’

Debicki com a sua figura física muito peculiar talvez seja a única personagem com verdadeiro comportamento humano e emocional: chora grita, e sorri e a sua interpretação é muito forte e competente. Uma excelente escolha para este papel tão dramático, que no início, parece caminhar para o estilo imprevisível e leve das ‘bond girls’. Quanto a Washington e Pattinson recriam-se como verdadeiras máquinas de guerra, contendo aliás a sua natural simpatia e calor humano que passam para o espectador, nos seus outros filmes anteriores. ‘Tenet’ pode ser considerado tanto mais como uma visão onírica do apocalipse e sobre este ponto de vista enquadra-se num filme de mero entretenimento; como pelo contrário pode ser visto como um filme mais profundo, metafísico e existencialista, que questiona a lei da relatividade do tempo, o nosso palíndromo da mortalidade, da existência e da vida. Talvez também não seja um filme tão desafiador relativamente  ao conceito de disrupção temporal, como a obra-prima ‘Memento’. Contudo ‘Tenet’  tem cenas e situações mais incríveis: cenas de luta corpo-a-corpo simetricamente recorrentes, filmadas de diferentes pontos de vista, nas quais os lutadores são aparentemente manipulados por diferentes fluxos de tempo, um para a frente, um para trás; ou uma perseguição de potentes automóveis em alta velocidade numa auto-estrada  em marcha-atrás. Parece que nada disto faz sentido, mas acaba por fazer no filme de Nolan.  Por isso é que ‘Tenet’ é um filme incrível. E não saimos da sala com aquela sensação de ter visto ‘um grande banhada’.

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Finalmente as localizações internacionais (Kiev, Mumbai, Londres, Tallin, salvo erro) e as extraordinárias cenas de ação, juntamente com toda a estranheza temporal e o foco numa III Guerra Mundial, são efectivamente ideias muito semelhantes aquilo que ouvimos já sobre o futuro ‘007 – Sem Tempo para Morrer’, de Cary Joji Fukunaga, que tem estreia adiada para 2021 e que aguardo com ansiedade. Coincidência ou não, cabe para já a ‘Tenet’, do brilhante Christopher Nolan — e por sua insistência — arriscar nesta mesma aposta heróica de salvar o mundo e aumentar o moral dos espectadores (e da indústria de cinema), neste momento crucial, estreando exclusivamente nas salas de cinemas.

José Vieira Mendes

Tenet, em análise
  • José Vieira Mendes - 90
  • Daniel Rodrigues - 37
64

CONCLUSÃO

‘Tenet’ é um extraordinário thriller de espionagem futurista (ou de ficção científica como quiserem), com um argumento alucinante, uma acção sem limites, que dá vontade ao espectador de tirar a máscara e saltar da cadeira, para recuperar o fôlego. Para desfrutar e imergir em pleno em ‘Tenet’ a melhor das opções (e para já a única) é vê-lo num grande ecrã e numa boa sala de cinema. O espectador não se vai sentir sequer incomodado com as distâncias sociais nem com a protecção facial, porque até os protagonistas em boa parte do filme usam máscara. Incrível! Um filmaço!

O MELHOR: A emoção, a inteligência e magia do cinema na mais pura das acepções de que vai muito além dos normais filmes de entretenimento, sem perder a esta característica;

O PIOR: As cerca de duas horas e trinta de duração talvez seja o seu maior contra com algum excesso de cenas de acção que não adiantam muito, mas que são momentos com a tal magia (impossível) do cinema.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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